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MINHA ATI, JACAMIM, FILHOTE DE PASSARINHO
sem nome
“Mãeeee, pulei de bump jump!!!!! 60 metros!!!! Yuhuuuuuuuuuu!!!”. Era esta a mensagem no meu celular. No meio da rua, sem me lembrar dos transeuntes , pensei alto:
_ puta que pariu! Que menina ousada! Passou um filme na minha cabeça... Aquela bebê linda, de olhos-bolinhas-de-gude, que arrastava o papel higiênico do banheiro até a sala, aos nove meses, pensa que pode voar. Literalmente. Deu medo. Mãe que se preza tem que exagerar nos sentimentos de proteção e medo sobre os perigos que envolvem os filhos, ou pensa que tem.., Já melhorei muito. Mas a minha filhote de passarinho (o outro é da terra), sempre deu mostras dessa ousadia, que agora aos vinte anos, exerce sem o menor pudor. Que bom que não conseguimos conter o seu potencial saudável de transgredir e de derrubar barreiras, e aceitar desafios. Sempre anunciou esses desejos audaciosos: “Vou fazer 18 anos, e vou aprender a dirigir”, e aprendeu. Quero trabalhar, e trabalha. Vou tatuar uma “maori” na perna. Vai ver lá o seu desejo concretizado na pele... Agora, eu acho lindo. Depois, “Vou voar de asa delta, saltar de paraquedas, pular de bump jump”. Oh, céus! Haja céus!
Lembro que meu irmão, o Néo, saltava de paraquedas, quando ainda morava em Montes Claros. Eu admirava a sua coragem e invejava a sensação de liberdade que imaginava conter essa “loucura”. Minha mãe, às vezes, ia assistir o filho “pular”, e sempre pedia, sem sucesso: “Ô meu filho, não pula não.” Ele respondia debochado: “Não vou pular não, mãe, vou saltar”.
Eu penso que nasci marcada pelo medo, e em muitos momentos da vida fui por ele tomada. Um penoso caminho, desconstruindo as barreiras, trincheiras, armaduras que jamais me protegeram de fato. Paradoxalmente, e identificada com minha filha “voadora”, cultivo na poesia meus desejos secretos de voar. Mas apenas no voo seguro das palavras.
Então, mais aliviada, posso dizer que quando minha avezinha adulta, minha Ati, Jacamim, filhote de passarinho, forte e segura o suficiente para voar, o fez, levou junto partes incipientes dessas minhas asas imaginárias.
Voei junto. Foi libertador.
60 metros!!!!
Yuhuuuuuuuuuuu!!

PS_ Mas, olha filha, já tá bom, né?

Sandra Fonseca


Do tupi-Guarani:
*Ati: gaivota pequena
*Jacamim: ave ou gênio, pai de muitas estrelas (Yacamim)

Criado em: 23/3/2013 16:28
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Re: MINHA ATI, JACAMIM, FILHOTE DE PASSARINHO
Colaborador
Membro desde:
20/5/2008 18:39
De Porto
Mensagens: 3397
Que doce, Sandra! (doce de gostar, saborear, chupar, mesmo, até ao pauzinho, sabe, até descarnar e mostrar o nosso próprio osso... ) ah, esses filhotes de passarinho! - quem mandou a gente dar-lhes asas, quem?... (nem é preciso ensinar a voar, eles são desse céuzão!!)

:)

Criado em: 23/3/2013 16:49
_________________
Teresa Teixeira
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Re: MINHA ATI, JACAMIM, FILHOTE DE PASSARINHO
Colaborador
Membro desde:
1/7/2009 0:22
Mensagens: 6741
Sandra,
Creio que parte da nossa geração é medrosa para altos voos (literais) e muitos vêm voar na literatura.Tenho cá dois belos pássaros intrépidos em seus voos, que me dão o maior orgulho de sob suas asas também voar.
Não preciso dizer que a crônica é de primeiríssima qualidade como bem sabes escrever!
Bj

Criado em: 26/3/2013 0:13
_________________
Poema & Cia
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Re: MINHA ATI, JACAMIM, FILHOTE DE PASSARINHO
sem nome
Oh, Céus! Haja céus!
Gostei mto de ler a senhora, como sempre. Dessa vez não foi diferente, o texto me levou às alturas!! Uhuuuul! Hahaha
Abraço!!

Criado em: 29/3/2013 0:36
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