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O que levas na mala?
sem nome
A cultura faz o homem civilizado.



Criado em: 29/6 7:27
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Venho de uma pequena ciência.
Subscritor
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24/2/2017 12:37
De Azeitão/Setúbal, Portugal
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“Este lugar não existe, fica na Arábia Saudita, no deserto.
Gosto do deserto.
Levei tábuas e pregos.
Ferramentas, as belas ferramentas dos homens.
Levei água, víveres, sementes.
Não eram sementes de trigo ou aveia, nem de cravos – também não eram sementes de máquinas.
As belas máquinas dos homens.
Não me lembro se fui pelo ar.
Não me lembro da lenta e progressiva despedida, quando se anda pelas terras, o labirinto doloroso, a alegria, quando se vai pelas terras, e nos despedimos, primeiro de um corpo, depois de um sítio, depois de um odor, uma luz, uma voz, os arrabaldes, os sinais, as palavras, as temperaturas.
Não me lembro de quando se vai deixando.
Foi portanto pelo ar.
Levei tudo para experimentar o deserto.
Comprei tábuas, água, sementes, ferramentas – as belas ferramentas.
Tenho uma pequena ciência.
Aprendi.
Vamos lá ver esse lugar que não existe, na Arábia Saudita, no deserto.
Ficava no meio.
No meio é bom – há uma coisa que se chama à volta.
Serve para estar bem só.
Comprei tábuas, sementes e águas.
Não era trigo, nem cravos, nem sementes de cores, das cores que amamos com uma dor no corpo.
Eram sementes de cabeças de crianças.
Tenho uma pequena ciência.
Fiz como nos livros.
Dividi-me em sete dias.
Com os meus dez dedos enchi os dias, e depois com os meus ouvidos e o meu coração sôfrego.
Da minha virgindade dos desertos tirei a minha ciência dos desertos.
Espalhei os dez dedos pelos dias e, primeiro, criei os céus e as areias daquele lugar que não havia.
Depois, os dois luzeiros: um para o dia e o outro para a noite do deserto.
No terceiro dia, fiz uma casa com um alpendre e uma cadeira no alpendre.
Foi então que senti o sangue a bater na minha noite e soube do sinistro silêncio de toda a minha vida, e era o quarto dia.
No quinto, lancei às areias, a toda a volta da casa, até onde podia, todas aquelas sementes que não eram de cravos, nem de trigo, nem de algodão – as sementes –, lancei à minha volta o futuro nascimento, e fiquei no meio do nascimento, cercado pelo futuro nascimento.
Depois pensei, como pode pensar um animal criador extenuado, porque eu tinha-me criado a mim mesmo, e era uma criatura quente e exausta, e estava cheio da dor e da alegria da minha obra – era então o sexto dia.
E no sétimo dia vi que tudo tinha um sentido, e sentei-me na minha casa, no meu alpendre, na minha cadeira.
Pela escrita tinha eu pois chegado ao sétimo dia, ligando tudo, ligando o que não é como que visível mas é como que audível, semelhante às correntes de água subterrânea que o nosso corpo solitário sente deitado sobre a terra.
Estava sentado na cadeira criada no terceiro dia, rodeado pela sementeira do quinto dia.
Era uma sementeira de cabeças de crianças.
Não serão nabos ou rosas?, perguntei no ervanário.
Não eram.
Porque principiaram a sair da areia na tarde do sétimo dia, e floresceram, sombrias e doces cabeças de crianças – era terrível.
Seriam verdes-garrafa?
Cabeças de crianças do tamanho de cabeças de crianças – vivas, oscilantes, latejantes sobre os pedúnculos que irrompiam do deserto, à volta da minha casa, do meu alpendre, da minha cadeira, do meu coração que nunca mais dormiria.
Começaram então a sussurrar – e eu pensei: a aragem do fim do sétimo dia passa sobre um campo de corolas verdes, como no mundo, e há o sussurro vegetal, o ondular verde-garrafa, em frente da casa de um proprietário como no mundo.
Mas eram cabeças de crianças.
E as minhas tábuas e pregos e víveres, a minha água e a cadeira, e o meu coração, estavam cercados pelo sussurro das cabeças das crianças.
Eu nunca mais dormiria – era de noite, era agora a minha noite.
E então elas começaram a cantar – na minha noite.
Eu estava sentado na cadeira, no alpendre, na casa – e as vozes levantavam-se, eram altas, altas, inocentes e terríveis, cada vez mais belas, mais sufocantes.
No deserto.
O meu coração nunca mais dormiria.
Não serão cravos, ou nabos, ou máquinas?, perguntei no ervanário.
Eram cabeças de crianças.”

Herberto Helder
















Criado em: 29/6 18:49
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Joel Matos , aliás namastibet
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Re: Venho de uma pequena ciência.
Super Participativo
Membro desde:
28/6 22:49
Mensagens: 192








Venho de uma pequena ciência,
Em que os dias são todos habituais,
Cá fora formam-se grandes coisas,
Ao abrigo da conspiração dos hábitos,

Temem a desolação que habita dentro
De mim, sem dúvida sou pequeno,
Tudo em mim é noite escura e meia
Altura (...)








Criado em: 29/6 19:17
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Re: O que levas na mala?
sem nome





Criado em: 3/7 23:14
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Re: O que levas na mala?
sem nome
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L.O.V.E.
a escultura do amor, do artista italiano Maurizio Cattelan

Criado em: 8/7 3:17
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Re: O que levas na mala?
sem nome

Criado em: 8/7 3:34
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Re: O que levas na mala?
sem nome
Não posso deixar de manifestar a minha estranheza ao constatar que num lugar com tantos escritores não haja referencias, o que me leva a pensar que caíram todos do céu, ou até que serão tão importantes e geniais que nem estão para faltar à catequese. Bom, deixo-vos com uma citação de Júlio Dinis e outra de Stanislaw Lek. Ainda pensei trazer cá a fafá de... mas ela não cabia aqui.



O amor é um som que reclama um eco.




No principio era o verbo e no fim o blá-blá-blá.

Criado em: 8/7 4:26
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Re: O que levas na mala?
sem nome

Criado em: 13/7 19:58
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Re: O que levas na mala?
Colaborador
Membro desde:
17/7/2018 9:17
De Azeitão/Setúbal, Portugal
Mensagens: 974
A ciência culpa o Homem do vulgar engano, o oculto geralmente não se engana ...

Criado em: 14/7 19:58
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namastibet, aliás Joel matos
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Re: O que levas na mala?
sem nome
também tu! hoje... salvo o erro... é dia 14 do ano de... de um século supostamente com bastantes números. ainda acreditas em fantasmas! ok. lá que se ignore as coisas por motivos vários em prol dos interesses... blá-blá-blá como disse o outro... a sério. qual oculto! os mistérios pertencem aos terços e eu, diria até, nós... diz-me uma coisa, haverá algo melhor que ser inteiro?! também não tens nada na mala Jorge? ninguém tem nada na mala. talvez ninguém tenha vergonha... vergonha do que teem na mala, digo eu, mas, por amor de deus...
espero que me entendas. tem uma boa semana Jorge

Criado em: 14/7 21:07
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