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Poemas : 

desculpas para uma despedida

 
sem que a noite saiba
que o tempo mais uma vez
partiu
e os lugares à mesa permanecem vazios,
perscruto a tela em viés,
o outro lado do espelho,
e a vida subitamente irrompe pela sala
estás a meu lado
e basta

 
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boxer
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Enviado por Tópico
Volena
Publicado: 02/09/2013 12:17  Atualizado: 02/09/2013 12:17
Colaborador
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Localidade:
Mensagens: 12514
 Re: desculpas para uma despedida
Espelho amigo e mágico!

Abraço. Vólena


Enviado por Tópico
Margô_T
Publicado: 21/08/2016 08:46  Atualizado: 21/08/2016 08:46
Da casa!
Usuário desde: 27/06/2016
Localidade: Lisboa
Mensagens: 277
 Re: desculpas para uma despedida
É noite.
“à mesa”, “os lugares” “permanecem vazios”
e “sem que a noite saiba” de nada, “o tempo” partiu “mais uma vez”.
O “espelho” que se encontra na parede é uma “tela” que reflecte os lugares, agora desocupados, da mesa; nele encontra-se, também, “a vida” que “subitamente irrompe” preenchendo os espaços vazios da sala.
O sujeito poético vê-se no espelho e no seu reflexo encontra uma réstia de vida: “estás a meu lado/e basta”, diz - porque só essa figura do “outro lado do espelho” nos resta quando o tempo parte… (ainda que só tenhamos coragem de a olhar “em viés” para não darmos de caras com todo o vazio envolvente).
Mas bastar-nos-emos a nós próprios?
Diz o título “desculpas para uma despedida”, dando a entender que o sujeito poético recorre ao seu reflexo para se sentir acompanhado nesta despedida, sendo a sua imagem no espelho a “desculpa” que ele encontra para justificar que, apesar do tempo ter partido, ele se encontra uno - perfeitamente bem e equilibrado - a sós, consigo mesmo.
O espelho tem essa capacidade de nos parecer tornar mais reais… iludindo-nos. Daí o título e o poema se contradizerem: sendo o título o corpo que o poema reflecte.


Enviado por Tópico
atizviegas68
Publicado: 23/08/2016 11:08  Atualizado: 23/08/2016 11:09
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Usuário desde: 09/08/2014
Localidade: Açores
Mensagens: 1371
 Re: desculpas para uma despedida
O seu poema transportou-me para o poema de José Luís Peixoto.
Em ambos senti que o vazio é uma despedida que nunca chega a ser feita. Uma presença da ausência.
Parabéns e obrigada pelo tema e pela traçado intenso das palavras.
Um abraço


"na hora de pôr a mesa, éramos cinco


na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco. "

José Luís Peixoto, in 'A Criança em Ruínas'