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Poemas : 

solidão do homem da nuvem

 


não tirem o vento às gaivotas - sampaio rego sou eu


quantas vezes estou só. como um cão. e toda a companhia não é mais do que um amontoado de gente sem rosto – tiro-lhes os olhos. a boca. o nariz. as feições que me façam lembrar a carne que ainda tenho por apodrecer – dou-lhes uma caiadela. quero-os brancos. da cor dos fantasmas – arranco-lhes as pernas e os braços. tiro-lhe os gestos e a subtileza que se pode encontrar no movimento dos corpos. assim não me enganam – finalmente posso continuar só. como um cão que habitava na esquina da minha rua – vivia de olhos fechados. e à minha passagem enroscava-se ainda mais em si. talvez tivesse medo do que um dia os meus olhos descobrissem que afinal não era um cão vadio – era apenas um cão só – adoptei-o. e sem ele saber guardei-o debaixo da língua que nunca soube falar – é ele que rosna sempre que o mundo me interrompe a solidão – hoje rosnou para uma nuvem. levava um homem de braços caídos – talvez um dia. eu tenha uma nuvem só minha. onde possa morrer com a minha solidão – entretanto e enquanto não me dispo do resto da carne que ainda sobrevive em mim. olho para a nuvem do homem de braços caídos. imagino o mundo sem mim. sem o meu cão. sem a minha rua. a casa que guarda os retratos do que fui. a minha gaveta da roupa que me faz ser pessoa sempre que a dor chega aos ossos em forma de gelo – um dia. este coração vai deixar de bater. e todos as estalactites se cravarão na terra que albergará o meu corpo – a nuvem prosseguirá o seu destino
 
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sampaiorego
 
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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 03/08/2010 14:45  Atualizado: 03/08/2010 14:45
 Re: solidão do homem da nuvem
Como é bom ler-te,mas também é tão triste.Uma tristeza tão exata...abraços
mary


Enviado por Tópico
Lana's
Publicado: 03/08/2010 14:49  Atualizado: 03/08/2010 14:49
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Usuário desde: 12/03/2010
Localidade: 00000000000
Mensagens: 27
 Re: solidão do homem da nuvem
"e toda a companhia não é mais do que um amontoado de gente sem rosto – tiro-lhes os olhos. a boca. o nariz. as feições que me façam lembrar a carne que ainda tenho por apodrecer". Gostei.


Enviado por Tópico
Margarete
Publicado: 04/08/2010 11:45  Atualizado: 04/08/2010 11:45
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Localidade: braga.
Mensagens: 1199
 solidão do homem da nuvem ao s.
quase sempre só com o mundo. não é?
e o mundo a ser a solidão da nuvem.
ontem pensei na dor e na solidão. conclui que o tempo é uma espécie de desilusão. queria suportar o peso do ar nas costas. mas dobro os ombros. e a certeza de que este coração deixará de bater é absoluta. temo.

um beijo,
mar.