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ENQUANTO ME ABRAÇO

 
Tags:  vida  
 
Não tenho sonhado ultimamente. Deve ser falta de tempo ou disposição. Quando estou de olhos fechados, as coisas estão em preto e branco. É estranho não esperar acontecimentos e surpreender-me pouco. Não sei bem se esta fase é a consequência do cansaço ou do excesso de alguma coisa entre a sabedoria e racionalização. Sempre gostei de viver transbordando, da paixão escorrendo pelos poros. Agora, estou contida em minhas próprias limitações e ressecamento. Meus pés estão tão fincados no chão que tenho notado minhas enormes raízes. Minha pele está séria e entrando em lenta erosão. Minhas mãos nem procuram mais o inatingível. Viver tem sido um ato estranho ultimamente. A vida não deixou de ser maravilhosa nenhum instante. Sou eu que não me sinto mais assim. Não tenho medo de me perder nesta seriedade, inexatidão e estranhamento. Tenho medo é de perder a poesia, de acordar de repente e não tê-la mais me esperando nas pontas dos dedos e nas curvas do coração. A rotina nos engaveta e tenho a impressão de que me despertenço toda segunda-feira. O calendário sufoca-me com todos aqueles números e as coisas sempre iguais.

Não tenho planos, estratégias ou dicas para uma vida melhor. Os livros de autoajuda não me ajudam e eu creio que o ideal é viver à la Zeca Pagodinho, deixando a vida me levar. Vou olhando para frente, esquecendo as coisas lentamente, criando novas saudades, refazendo caminhos, vivendo mais perto de mim.Não sei se a vida vai estar mais incrível amanhã. Certezas não tenho nenhuma. Daquilo que aprendi, pouco sei também. "Um dia de cada vez" diz a pulseira que vi no braço de minha filha. Que seja assim então. O hoje vai acabar em duas horas para o amanhã começar. Estou respirando e tudo torna-se possível dentro do real. Vou fazer um favor a mim mesma: esquecerei que isso tem nome de vida. Será mais reconfortante acordar sem a lembrança de que preciso dar conta desse momento intensamente. O outro nome da sabedoria deve ser paz. Encaixo-me nesta alternativa com gratidão.O que vale mesmo é a vida aqui dentro, é o coração batendo seja por que motivo for, é o amor guardado nas estranhas enquanto me abraço mesmo quando sinto tão pouco, tão absolutamente pouco.

Karla Bardanza



Copyright©KarlaBardanza2012
 
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Karla Bardanza
 
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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 27/05/2012 03:35  Atualizado: 27/05/2012 03:35
 Re: ENQUANTO ME ABRAÇO
Identificação total com o texto.
Gostei imenso da leitura, obrigado.
Niki


Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 27/05/2012 08:57  Atualizado: 27/05/2012 08:57
 Re: ENQUANTO ME ABRAÇO
Gostei do teu texto e de todos os que tenho lido ultimamente. Reflexivos. Fazem pensar e transportam-nos para um estado de meditação. Meditar a vida urge.

Beijinhos Karla


Beijo azul


Enviado por Tópico
martisns
Publicado: 27/05/2012 13:50  Atualizado: 27/05/2012 13:50
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Usuário desde: 13/07/2010
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Mensagens: 29212
 Re: ENQUANTO ME ABRAÇO
Implacável esse seu poema, belo

martisns


Enviado por Tópico
Nanda
Publicado: 27/05/2012 16:36  Atualizado: 27/05/2012 16:36
Colaborador
Usuário desde: 14/08/2007
Localidade: Setúbal
Mensagens: 11172
 Re: ENQUANTO ME ABRAÇO
Karlinha,
Enquanto a tua vida transbordar de emoção, a poesia, ainda que em forma de prosa, sempre fará parte do teu ser.
Beijinhos, querida
Nanda


Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 27/05/2012 16:47  Atualizado: 27/05/2012 16:47
 Re: ENQUANTO ME ABRAÇO
Que texto lindo, Karla!
Não deu pra não reler, pensar, refletir...

O que vale mesmo é a vida aqui dentro, é o coração batendo seja por que motivo for, é o amor guardado nas estranhas enquanto me abraço...


Beijinhos!


Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 28/05/2012 19:38  Atualizado: 28/05/2012 19:38
 Re: ENQUANTO ME ABRAÇO
*Karla, emocionei-me aqui tal a empatia que senti.
Nossa! Eu me sinto assim.
Queria ter escrito esse...rsrsrs
Obrigado por compartilhares
Karinna*