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Poemas : 

não me vais responder, pois não?

 
Tags:  mood love kar wai  
 
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vens para aqui com desculpas
de novo a tua língua
de novo a pele quente
não me queiras dizer
que os teus olhos vão ser diferentes
tens restos de mim nas mãos
e quem sabe até onde
somos capazes de ir

mais vale
os despojos dos dois
guardados
lá para os lados do passado
e desfaço-me
despeço-me à pressa
que hoje vou mudar de vida
vou, pois vou,
não me peças, já não decido
nada

quando olhar para trás
não me vais responder, pois não?

 
Autor
boxer
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Esta obra está protegida pela licença Creative Commons
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Enviado por Tópico
TecaLima
Publicado: 12/03/2014 23:43  Atualizado: 12/03/2014 23:43
Da casa!
Usuário desde: 15/10/2013
Localidade: Campina Grande-PB
Mensagens: 251
 Re: não me vais responder, pois não?
"não me queiras dizer
que os teus olhos vão ser diferentes
tens restos de mim nas mãos
e quem sabe até onde
somos capazes de ir"

Teu poema nos surpreende com os restos deixados na pele, do amor que se foi.


Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 13/07/2016 18:59  Atualizado: 13/07/2016 18:59
 Re: não me vais responder, pois não?
Passei por aqui para ler-te.

E gostei imenso da tua escrita.

Parabéns e obrigada!

Um abraço,

Anggela



Enviado por Tópico
Ro_
Publicado: 13/07/2016 19:13  Atualizado: 13/07/2016 19:13
Colaborador
Usuário desde: 25/09/2009
Localidade: Brasil
Mensagens: 3962
 Re: não me vais responder, pois não?

Belíssimo!
Adorei ler!
Um beijinho!

*-*


Enviado por Tópico
Margô_T
Publicado: 20/07/2016 11:31  Atualizado: 20/07/2016 11:31
Da casa!
Usuário desde: 27/06/2016
Localidade: Lisboa
Mensagens: 277
 Re: não me vais responder, pois não?
As “desculpas” que alongam o momento. A língua que provoca no que diz sem o (expressamente) dizer; a “pele quente” que roça “sem querer” ou que se revela no rubor da face, nos gestos que se tornam contraditórios e, até, despropositados, sem se saber o que fazer às mãos, aos braços, à inclinação do corpo, à postura.
Pelo meio, mantém-se o limiar, o muro, o braço de ferro; enquanto se finge um desinteresse inexistente ou, até, um interesse mas inteiramente ténue, pacato, perfeitamente controlável e conforme as regras mais rígidas da civilidade.
Mas os olhos, os chamados “espelhos da alma”, não “vão ser diferentes”. Logo, de que valerão as promessas de uma diferença que se prevê infrutífera... de que valerá passar o limiar para se voltar a assistir ao descalabro do que foi?
“tens restos de mim nas mãos”, diz-nos o poema. Porque são sempre os restos que sobram de um desencontro. Porém, os “restos” trazem memórias e, perante o instante, é o instinto que fala mais alto, apesar de uma voz saber (e bem) que o melhor é desandar rapidamente antes que da acha se faça fogueira e, da fogueira, surjam novos “restos” (“quem sabe até onde/somos capazes de ir”).
“os despojos” são mais seguros. Porque se guardam “lá para os lados do passado” e não alimentam promessas ou fogos incumpridos, antes aceitando a sua incompletude como algo inevitável.
Mas será assim tão fácil?
“desfaço-me/despeço-me à pressa/que hoje vou mudar de vida” - Estas palavras vêm por abalroamento, vêm desfasadas do desejo, vêm controladas por um lado racional que se tenta impor perante a intensidade emocional a que se encontra exposto e à qual não sabe como deve reagir, por isso diz para si próprio “é hoje, eu vou mudar de vida” e, antes que mude de ideias, “despede-se à pressa”, evita o olhar, a língua, a pele, e continua a dizer para si próprio “vou, pois vou”.
Porém, a hesitação persiste e a acção tropeça: “não me peças, já não decido/nada”.
Ficando o leitor com (quase) toda a certeza que se ele “olhar para trás” e ela lhe responder, iniciar-se-á o incêndio.
De uma densidade emotiva brutal.