https://www.poetris.com/
 
Contos : 

A Montanhesa - I Parte

 
A Montanhesa
Parte 1

Nos inóspitos lugarejos serranos da Europa Central, compostos por escuros casebres talhados de rochas desafiando a gravidade, a paisagem emudecia o olhar com as cores verdissecas de Outono; das imensas florestas quase desnudas.
A serra era cortada por serpenteados caminhos íngremes, atapetados de folhas estrumais, pelas nascentes de frias águas cristalinas, abismando-se nos declives, pelas clareiras pedregosas e, aqui e além, por parcas parcelas de solo que somente suportam o cultivo dos pobres. Sombreava-a a eterna névoa cinza e asfixiante, subtraindo-lhe o ouro solar e o anil celeste. As noites eram quase sempre vestidas do manto de breu sem ornamentos de Iuz prateada do luar ou de tremeluzentes estrelas.
Outrora, o vento entoava um suave monólogo juvenil, balançando-se nas copas, ritmado, ora pelo trinar das aves, ora, qual ária pastoril, pelos balidos e chocalhos dos rebanhos, ruminando nos cumes e sopés, ora por ambos numa sinfonia demorada e conduzida pela mestria da comunhão dos seres, apenas interrompida pelo uivar agoirento dos lobos e pelo piante esvoaçar das aves nocturnas que assustam os corações.
Às gentes, rudes personagens solitárias, de comportamentos bizarros e supersticiosos, bramia-lhes agora o vento buliçoso, de asas impregnadas dos ribombos dos engenhos da guerra e do fumo acre da destruição.
Diziam estas gentes, presos nas garras da ignorância, numa postura comum aos desbravadores da sobrevivência, que, nos poucos intervalos das tréguas do flagelo, se ouviam, por entre o uivar ainda mais terrifico dos adibes esfomeados e ávidos de carniça, os gemidos acorrentados dos feridos moribundos e se viam deambular os mortos, tiranizados pela violência, sem rumo definido, esperando numa fila imensa de morte um aviso do repouso eterno que tardava ou, ainda, uma réstia de vida neste labirinto de podridão e desespero que os animasse e os fizesse compreender porque a sua miserável existência foi tão abruptamente ceifada,
Talvez buscassem razão no insondável prazer dos "senhores da guerra" deleitando-se num êxtase de orgiásticas contracções de escárnio desprezo, incendiando-lhes o sangue, quase uma orgia carnal, viciando-lhes o ser - droga tolerante, os actos de violência gratuita - enlouquecendo-os com mais dor, raiva, medo, desespero, e a negação da vida consumindo-os até à própria morte.
Dores, raivas, medos, desesperos e negações que geram e parem – quais prostitutas - outros "senhores", num círculo demoníaco do poder conquistado pela irracional força das armas.
Não admira, pois, que enigmas, feitiços, bruxas, adjurações, sinais e marcas,para além da guerra, fossem os terrores desde a nascença destas gentes, falados entredentes e sempre persignados, que, a cada acto da vida, regiam o seu quotidiano.
Raras vezes se aventuravam nos cumes do abixeiro. Afirmavam convictas as gentes, persignando-se, que nesses cumes, num casebre isolado e em ruínas, vivia a velha "vještica" de quem ninguém sabia a idade e a origem.
Que a viram anos atrás já idosa, desgrenhada, rota e muito alquebrada pelo peso dos anos, suportados pelo cajado nodoso, pastoreando caprinos magros e sujos, mas - rebenzendo-se vezes sem conta - já foi vista desgrenhada, rota e de cajado sim, mas moça esguia bailando em torno dessa vara e sobre si numa alegria fantasiosa de cambalhotas e piruetas acompanhada pelos seus risos juvenis, mas enlouquecidos.
Desses lados do abixeiro, a nortada trazia sons distorcidos e ininteligíveis para o comum dos mortais bem como as tempestades, trovões, o nevoeiro e a neve.
- Que era "obra do Diabo", sim senhor! – mais persignaç6es e muitos "valha-nos Deus!", à mistura. De todos os males a acusavam; más colheitas, a morte das crianças e animais, incêndios, temporais e outras terrificas imputações quejandas.
Bem os inquietava - "Santo Deus" - essa figura, recortada no éter, ao cimo dos montes, quando queda como estátua e de olhar vivo inquirindo os vales, de beleza ignorada e cabelo desgrenhado ao sabor do vento, espiando "agoirenta" as gentes.
Não sabiam - nunca quiseram saber - que, anos antes, quase no principio do conflito, a velha "vještica" tinha encontrado, descia já a tarde no ocaso, na densa cumeada florestal, a pequena figura moribunda de uma jovem, outrora núbil e despreocupada no lar paterno, ensanguentada por estocadas assassinas e estuprada pela arruaça, a ralé que se auto denominava de "Vingadores", que a abandonaram de seguida, semi-saciados e apressados, como inútil fardo retardador da marcha predadora de almas. Tal vingança demente e irracional - os motivos são sempre variados, incoerentemente e escusos , porém, a ténue desculpa dos açougueiros - era já incapaz de torturar mais esse corpo esgotado. Outras vítimas saciariam a fome devoradora de medo e de dor. Outros corpos forneceriam generosamente a cupidez e as valas comuns. Este tinha-se consumido...
A velha "vještica", ao deparar-se com o horror, maldisse, gritando a revolta, os loucos "Senhores da Guerra" e os seus sequazes, debruçou-se sobre o vulto ainda palpitante e gemebundo e afastou-lhe os negros cabelos banhados de sangue da face, agasalhou-a com o seu manto negro desbotado e, servindo-se do fio de água nascente ali próxima, despiu-a dos farrapos, outrora tecido de brocado, tingidos e colados de sangue e lavou todo o martirizado corpo com vagarosidade premeditada, retirando-lhe coágulos de vermelho seco e a sujidade terrosa. Algum tempo depois, retirando da sua debilidade física a força da raiva sentida, arrastou-a penosamente para junto do jumento, descarregou toda a lenha miúda do transporte que antes resgatara dolorosamente ramo a ramo do solo íngreme, montou-a e incitou o animal ao caminho do seu pobre e ainda distante casebre. 0 jumento, precioso companheiro da velha, talvez compreendendo a delicadeza da carga, progredia lento e seguro no terreno acidentado, seguido esforçadamente pela dona. Ali chegada, a velha arrastou-a uma vez mais e depositou cuidadosamente o delicado fardo sobre o catre revolto de peles curtidas e rotas mantilhas aconchegadas.
Destapou a jovem e, lavando de novo as dilacerações, numa confusão de incisões e contusões, aplicou-lhes pensos de unguentos antigos, extraídos de plantas medicinais que tão bem conhecida, ligando-os de seguida ao mesmo tempo que entoava um canto lamuriento e arrastado que se confundia mais com uma oração inefável para os humanos que não a Deus.
Cobriu-a de peles; perdera muito sangue a coitada, o toque na sua pele de lírio era gélido de morte. Em expectativa, sentou-se à beira da cama, de olhos fechados em reflexão, mas ouvidos atentos A respiração dorida, agitada e entrecortada e aos delírios abantesmados da sua protegida, movendo-se apenas para refrescar a testa ardente com panos embebidos em água fria. Caberia agora à mão divina, ao tempo e vontade, o viver deste corpo aflautado pelo Mal.
Reflectia a velha "vještica" no passado distante; talvez na sua vergonha e dor de ser a mãe de três dos "Senhores da Guerra"; dois foram traiçoeira e barbaramente assassinados e um outro tão cruel ou mais que os algozes dos seus irmãos, ainda vivente e empedernido de juras vingativas, "povoava" a região de cadáveres e de abadias.
A vergonha do horror praticado exilara-se neste recôndito lugar. A solidão minara-lhe a razão e o sofrimento.
De repente sobressaltou-se... Estremeceu de um frio infernal. 0 pensamento feriu-a como um raio em cepo velho, fazendo-a arder de angústia. Teriam sido os companheiros do seu filho a “mancharem” esta alma? Ergueu os olhos para o negrume fumegado no tecto e apelou silenciosamente ao Criador que esta vida fosse poupada na Sua Santa Bondade.
Recordações sobraçavam turbulentas na mente desperta pelo pensamento tirânico.
Os seus filhos nasceram de um casamento ameno. Casara jovem donzela com um cavaleiro idoso que a respeitava, senhor de esplendoroso cantão cheio de fertilidade e de rurais.
O cavaleiro era um mediador preferido nos conflitos emergentes das lutas de poder e riqueza. Sóbrio e sábio, conhecedor das artes medicinais, praticava a solicitude e a caridade.
Tentaram sempre educar os filhos no amor, compreensão e piedade pelos desprotegidos da sorte. Porém, os tempos vogavam relutantes sobre os escolhos da raiva incontida e de profundo ódio. Nem os "Senhores da Paz", como o seu esposo, conseguiam fazer regredir estes desvirtuados sentimentos.
Tudo se desmoronava em redor; a ordem era a desordem imposta pela tirania; a Lei era letra morta inscrita em velhos alfarrábios ora empilhados em caves ora postos em fogueiras zombeteiras. A fé era um incómodo abandonado à indiferença. No entanto, ela vivera a felicidade recatada do seu canto até que...
Até ao dia em que, chamado a mediar um conflito entre os dois senhores mais poderosos da vizinhança, o seu esposo foi, pela traição, atraído a uma armadilha e esvaído da vida, 0 seu corpo despedaçado foi lançado na ravina do desconhecido - nunca fora recuperado - apenas ténues vestígios da matança. A noticia correu célere e caiu sobre ela qual dardo flamejante corroendo-lhe a carne e o espírito como insectos em cepo velho.
Sempre temeu que a desgraça se abatesse sobre os seus, mas nunca tinha desesperado até a dor sentida a ter feito perder a noção da realidade e a imergiu na abulia.
Nunca se sentira corajosa, talvez nunca o tenha necessitado. Recobrou-a, porém, quando, da boca dos seus filhos, ouviu proferirem juras de vingança. Tentara dissuadi-los, mas em vão - a "voz do sangue a vingar" falara mais alto. incapaz de os demover, chorou de vergonha a cada nova de vitórias destes senhores, que apenas tinham jurado vingar o progenitor, e, das suas atrocidades perpetradas sobre as populações arautizadas em proclamações triunfantes - os hinos da barbaridade...
Um dia deixou, fugindo, após a morte dos filhos mais novos, o adorado cantão, agora palco da miséria, arruinado, despido de gente e estéril. Ablegou-se voluntariamente e procurou na solidão um lenitivo para a dor trespassante das vilezas e morte dos filhos - lançadas irónicas aos seus desejos de paz e felicidade. Refugiou-se neste ermo casebre desolador.
Da guerra apenas lhe chegavam os ecos dos engenhos militares trazidos pelo pertinaz vento alado embatendo nos cumes e, muitas vezes nos seu deambular, a visão dos corpos mutilados jazendo grotescamente abandonados que a faziam condoer no mais intimo do seu ser e rogar a Deus a sua misericórdia, mas não arredá-la do seu trôpego caminho.
Neste dia, a fuga fora-lhe negada. Algo arquitectara esta armadilha, envolvendo-a, de novo, no conflito.
Um gemido mais forte da jovem fê-la voltar ao presente. Recolocou-lhe na testa outros panos húmidos e afagou o seu rosto, ainda exangue, branco de lírio espezinhado - qual açucena dilacerada por cruel tempestade - aqui e além magoado de violáceas contusões.
Perguntou-se quem seria, de onde viera, quem seriam os parentes e se eram vivos ou teriam perecido, também humilhados, às mãos dos algozes. A vítima tinha sido imolada em festim de abjeccionistas, em lugar recôndito, sem outras testemunhas que não os “restantes”.
A noite prolongou-se monótona e extinguiu-se na madrugada fria do próximo dia. A jovem gemia e balbuciava sons desarticulados, sem nexo. Não acordou deste sono pesado, mas a seu corpo espasmava, de tosse convulsionada, manchando os lábios finos de baba sanguinolenta. A velha limpou-lhe cuidadosamente a boca e esfriou-lhe de novo a testa.
Uma lágrima seca despontou-lhe no globo ocular, humedecendo-o. Admirou-se; pensava não ter mais lágrimas para derramar, porém, a infelicidade desta criatura comoveu-a..
Só abandonou a vigilância sobre a infeliz para cuidar dos caprinos e do jumento, abriu-lhes a cerca e deixou-os a pastar na erva profusa e orvalhada. Gelada, arrepanhou alguma lenha da pilha à entrada da porta e, entrando no casebre, avivou a lareira deliciando-se com o renovado calor libertado. Colocou sobre as achas a velha chaleira com água e preparou a beberagem de plantas.
Beberricando o chá, afundou-se, de novo imersa, em memórias fugidias e soltou preces silenciosas pedindo-lhe a dádiva desta vida que lhe foi interposta no caminho.
Passaram-se dias a fio e a doente melhorou sensivelmente sem, no entanto, recobrar o conhecimento. 0 sono era, constantemente, quebrado por abstrusos pesadelos. 0 tempo, mais agreste pela aproximação da invernia que se adivinhava, decorria pachorrento. Cada dia, cada hora de um dia, eram fatigantes etapas conturbadas para a velha "vještica" que, entre o constante zelo pela sua protegida, os dividia no tratamento, menos cuidado, dos animais e a busca de provisões de plantas, frutos, agrários e lenha, imprescindíveis à sua subsistência.
Um dia, dos dias infindáveis, a velha senhora procedia à remoção das ligaduras e pensos, quando num abrir breve e fatigado de olhos semicerrados, a jovem balbuciou, quase inaudível:
- "Babuška! Babuška!" - mergulhando, de novo, na inconsciência.

(continua - parte 2)


Triste Poet@
(João Loureiro)

Open in new window

Notas: vještica – bruxa (língua eslava)
babuška – avozinha (língua eslava)
abixeiro - encosta voltada a norte
adibes - lobos
adjuração - esconjuração
abantesma (abantesmados) - fantasma
abstruso(s) - oculto
š - leia-se como x
 
Autor
Triste.Poeta
 
Texto
Data
Leituras
346
Favoritos
1
Licença
Esta obra está protegida pela licença Creative Commons
12 pontos
2
1
1
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Enviado por Tópico
MarySSantos
Publicado: 08/07/2015 14:09  Atualizado: 08/07/2015 14:09
Luso de Ouro
Usuário desde: 06/06/2012
Localidade: Macapá/Amapá - Brasil
Mensagens: 5282
 Re: A Montanhesa - I Parte
Li com prazer, querido poeta este primeiro capítulo. Aguardo ansiosa por um tempo mais longo para me deleitar também com os restantes. Muito bom. Parabéns!

Abraço