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Poemas : 

Os dias do abandono

 
Porque não há fogo, nem cinzel,
para contornar a serena angústia
das primeiras vagas de luz

Deixo que o teu corpo em fuga vá fechando
o ângulo cor de cinza em redor

Um relâmpago obsceno assoma
ao último céu de primavera

E eis que uma lâmina,
vagueando aos uivos
pelas esquinas do meu sangue,
arrasta-me aos golfos
para os rostos da minha infância

Contemplo os filhos na boca do canhão
e submeto-me à loucura,
última das esperanças

Porque não há oração ou esconjuro
para redimir os dias do abandono

 
Autor
boxer
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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 11/08/2016 13:39  Atualizado: 11/08/2016 13:39
 Re: Os dias do abandono
Não, não ha oração,
Não há perdão,
Quando o abandono rasga o corpo,
E sangra....

Adorei esse poema! Todos os outros são excelentes, mas esse atingiu a minha alma...

Parabéns e obrigada!

Um abraço,

Anggela


Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 11/08/2016 14:52  Atualizado: 22/05/2017 18:14
Colaborador
Usuário desde: 06/11/2007
Localidade:
Mensagens: 1597
 Re: Os dias do abandono
Primeiro o fogo, depois e cinza em forma de cor. O relâmpago.
E eis que aparece na quarta estrofe um quinteto belo sangrante que nos submete ao mote. O abandono, a negligência.

Quando a loucura é a ultima das esperanças...

Um poema incómodo.

Muito obrigado

Abraço


Enviado por Tópico
atizviegas68
Publicado: 11/08/2016 15:17  Atualizado: 11/08/2016 15:17
Colaborador
Usuário desde: 09/08/2014
Localidade: Açores
Mensagens: 1371
 Re: Os dias do abandono
Adorei ler este soberbo poema. De elevadíssima urdidura. Parabéns, muitos.

Um abraço



Enviado por Tópico
outonal_idade(s)
Publicado: 11/08/2016 16:10  Atualizado: 11/08/2016 16:10
Luso de Ouro
Usuário desde: 31/12/2012
Localidade:
Mensagens: 739
 Re: Os dias do abandono
Sangra a solidão das águas em alvoroço, alonga-se o tempo, num mar empedrado de esquecimentos.

O poema, este poema, fica.

Obrigada obrigada.

Abraço


Enviado por Tópico
MariaSousa
Publicado: 12/08/2016 14:57  Atualizado: 12/08/2016 14:57
Membro de honra
Usuário desde: 03/03/2007
Localidade: Lisboa
Mensagens: 4096
 Re: Os dias do abandono
Olá Boxer,

Senti nos teus versos essa "amargura" de dias de abandono...

Muito bom!


Enviado por Tópico
Margô_T
Publicado: 22/05/2017 17:15  Atualizado: 22/05/2017 17:18
Da casa!
Usuário desde: 27/06/2016
Localidade: Lisboa
Mensagens: 277
 Re: Os dias do abandono
A luz que ilumina também encandeia
e quando o encandear, além de ofuscar, encadeia, a “serena angústia” desce sobre nós como um pano mudando de acto, dando-nos pouca margem para o endireitar e/ou esculpir/contornar dos remanescentes trilhos.
“não há fogo, nem cinzel” que evite o cerrar do “ângulo cor de cinza” que inevitavelmente mudará o que “em redor” se encontra - e o que “em redor” ficará a partir de então.
O “corpo em fuga” afasta-se, mas é o que se encontra próximo que se altera…. como um ponto de fuga que jamais se sentirá somente em si, fazendo questão de inf(r)estar todas as tábuas circundantes que possam dar a ilusão de um solo, de um suporte.
O equilíbrio desfaz-se, as variáveis mudam, e o mundo infalivelmente se metamorfoseia sob o efeito dessa abrupta luz que se assemelha aos faróis de um automóvel que se encontra na nossa direcção, em plena noite – “relâmpago obsceno”.
A primavera desfolhou-se em cinza, desprimaverou-se, e, por dentro, há uma lâmina que golpeia, “aos uivos”, enquanto vagueia “pelas esquinas” do sangue... entre becos e re-becos.
O relâmpago precede o trovão que aqui se solta sob a forma de um uivo ressoando onde o abandono mais cava: nesse músculo que bombeia os vasos retalhados, agora congestionados de vazios.
Surgem os “rostos” da “infância”, as memórias… – tudo o que o tempo evoca quando se desarboriza, negando-nos uma continuidade expectável, desejável, quiçá quimerizada.
As consequências das secas repercutem-se nas raízes, nos troncos, nos ramos, nas folhas. Assim “os filhos” se encontram “na boca do canhão”, sobre o acontecimento em bruto, à mercê das intempéries.
Haverá solução que não passe pela submissão a essa “última das esperanças”, a lou-cura, quando “não há oração ou esconjuro” que redimam uma ausência escarpada, áspera, incómoda?
Fica a questão a vibrar no poema
e uma vontade irrefutável de a deixar a vibrar, mantendo esta tensão que se sente em cada uma das palavras deste grande poema.


Enviado por Tópico
Joel-Matos
Publicado: 19/07/2017 17:27  Atualizado: 19/07/2017 17:31
Subscritor
Usuário desde: 24/02/2017
Localidade: Azeitão/Setúbal, Portugal
Mensagens: 2031
 old draft oil horse
This old draft horse was painted to be made into a slide which was then projected onto the screen during the production of the staged version of Animal Farm. It was produced a long time ago during the 1990’s at Children’s Theatre of Charlotte by Steve Umberger.


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