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Poemas : 

Nem no mundo do fim do mundo há o fim dum todo...

 
Nem no mundo do fim do mundo há o fim dum todo...
 


O lembrar de facto não existe, nem no fim ...


O exacto tempo não existe pra mim,
É um bocado de terra e escasso,
Exijo na lápide não o ano certo
Em que morri, antes o outro, assim

Quando os astros perecerem
E o lume e o céu se desfizer e a lua,
Quando todas as horas forem mortas,
Espero que a areia dite meu nome,

Qualquer um serve, pois sinto em
Todos um fio e os membros dispersos
Súbditos do espaço e o tempo
Servirão a minha imodesta crença,

Um pedaço de terra é pouco pra mim,
Quero a conivência dos grãos d'areia,
O pó leve, inútil em todos os planetas
E no sub-mundo que há em mim, sinto

Ao ínfimo a consciência que lá vivo desde
Sempre, infinito o tempo, areia fria,
Cento e uma vidas coladas ao que não sei,
Pano de fundo ou o desejo de renascer

Seja no que for pó, flor canteiro ou dor,
O lembrar de facto não existe,
Nem um mundo no fim do mundo há...




Joel Matos (03/2017)
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Joel-Matos
 
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Enviado por Tópico
Joel-Matos
Publicado: 07/03/2017 15:41  Atualizado: 07/03/2017 15:41
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 Re: Nem um mundo no fim do mundo...
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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 08/03/2017 17:05  Atualizado: 08/03/2017 17:05
 Re: Nem um mundo no fim do mundo há...
"... o vento anunciou-te ruidoso.
Entretanto a tempestade se escondeu atrás de um monte,
Tão rápida quanto chegou,
Trazendo uma gravidez lasciva.
Com isso um dia brando e luminoso nasceu,
Cheio da vontade dos pedintes, realizando seus desejos,
Com a mesma tormenta que infesta os sonhos
daqueles homens que choram...
Porém, há os que riem,
Sabendo que a desgraça está no coração dos incapazes,
Os que não compreendem a vida." Parabéns Poeta.



Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 12/03/2017 23:28  Atualizado: 13/03/2017 00:49
 Re: Nem no mundo do fim do mundo há um fim...
....
Cento e uma vidas coladas a minha
Crivando estacas, crivando espinhos,
anseiam por noticias da minha morte.
Morte-vida-Vida-morte
O porte...
O pote...
O pó...
A minha sorte!

Admiro sua escrita, Joel!
Bjs



Enviado por Tópico
Joel-Matos
Publicado: 04/07/2017 18:18  Atualizado: 04/07/2017 18:18
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 Re: Nem no mundo do fim do mundo há o fim dum todo...
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Enviado por Tópico
Joel-Matos
Publicado: 18/07/2017 19:52  Atualizado: 18/07/2017 19:59
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 A chegada ao inferno

Nem sempre a vida acolhe ou alimenta
os nomes do passado, o seu abismo
repetido num sonho, na mais lenta
assombração, no mais íntimo sismo

Do que chamamos alma. Não existo
sem essa febre mansa que relembro
enquanto as nuvens cobrem tudo isto
com o frio escuro de um Dezembro

Longe de mim, de ti, de qualquer lei
ou juízo a que dêmos um sentido:
o que finjo saber é o que não sei
e as palavras colam-se ao ouvido.

fernando pinto do amaral

Enviado por Tópico
Jorge-Santos
Publicado: 24/12/2017 20:01  Atualizado: 24/12/2017 20:03
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 Pinto o meu carácter de amarelo e sem razão



O Meu Carácter









Cumpre-me agora dizer que espécie de homem sou. Não importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito. É acerca do meu carácter que se impõe dizer algo.
Toda a constituição do meu espírito é de hesitação e dúvida. Para mim, nada é nem pode ser positivo; todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim próprio. Tudo para mim é incoerência e mutação. Tudo é mistério, e tudo é prenhe de significado. Todas as coisas são «desconhecidas», símbolos do Desconhecido. O resultado é horror, mistério, um medo por de mais inteligente.
Pelas minhas tendências naturais, pelas circunstâncias que rodearam o alvor da minha vida, pela influência dos estudos feitos sob o seu impulso (estas mesmas tendências) - por tudo isto o meu carácter é do género interior, autocêntrico, mudo, não auto-suficiente mas perdido em si próprio. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror e na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, física e mentalmente, para actos decisivos, para pensamentos definidos. Jamais tive uma decisão nascida do autodomínio, jamais traí externamente uma vontade consciente. Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar; sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinárias, inexpulsáveis associações de ideias cujo termo era o infinito.
Não posso evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for; uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil interassociações, e não tenho força de vontade para os eliminar ou deter, nem para os reunir num só pensamento central em que se percam os pormenores sem importância mas a eles associados. Perpassam dentro de mim; não são pensamentos meus, mas sim pensamentos que passam através de mim. Não pondero, sonho; não estou inspirado, deliro. Sei pintar mas nunca pintei, sei compor música, mas nunca compus. Estranhas concepções em três artes, belos voos de imaginação acariciam-me o cérebro; mas deixo-os ali dormitar até que morrem, pois falta-me poder para lhes dar corpo, para os converter em coisas do mundo externo.

O meu carácter é tal que detesto o começo e o fim das coisas, pois são pontos definidos. Aflige-me a ideia de se encontrar uma solução para os mais altos, mais nobres, problemas da ciência, da filosofia; a ideia que algo possa ser determinado por Deus ou pelo mundo enche-me de horror. Que as coisas mais momentosas se concretizem, que um dia os homens venham todos a ser felizes, que se encontre uma solução para os males da sociedade, mesmo na sua concepção - enfurece-me. E, contudo, não sou mau nem cruel; sou louco, e isso duma forma difícil de conceber.

Embora tenha sido leitor voraz e ardente, não me lembro de qualquer livro que haja lido, em tal grau eram as minhas leituras estados do meu próprio espírito, sonhos meus - mais, provocações de sonhos. A minha própria recordação de acontecimentos, de coisas externas, é vaga, mais do que incoerente. Estremeço ao pensar quão pouco resta no meu espírito do que foi a minha vida passada. Eu, um homem convicto de que hoje é um sonho, sou menos do que uma coisa de hoje.











Fernando Pessoa
















Enviado por Tópico
Joel-Matos
Publicado: 06/02/2019 20:20  Atualizado: 06/02/2019 20:20
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 Re: Nem no mundo do fim do mundo há o fim dum todo...
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