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Poemas : 

Em lugar primeiro ...

 
Em lugar primeiro ...
 





(Em lugar primeiro,)


Não quero nada inteiro,
Como uma criança o giz
Ou um brinquedo dado,
Uma completa dor de cabeça,

O sol ou o céu abertos de par-em-par,
A morte certa ou o pão mole por partir,
O encanto do azul-marinho esbatido na praia,
A miragem do deserto em faixas ocre e amarelo,

Inteiro é o doer
Que ninguém deseja,
É o sofrer que convive contigo,
O brinquedo da loja, que queria ter,

O céu e o sol porque são meus
Que os conheço,
Sobre a cabeça ponteiros
Como pensamentos, lanças d'África,

Não quero por espontânea geração
O que sinto e lá não está,
Nem o que trago em trapos rasgados,
Mal cosidos ao peito,

Não quero inteiro nada, nem a vida
Dividida, não quero lugar terceiro,
Não quero nada por inteiro,
Quero todo o erro que eu possa ser,

Em lugar primeiro ...







Joel Matos (01/2018)
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Joel Matos , aliás namastibet

 
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Joel-Matos
 
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Enviado por Tópico
Jorge-Santos
Publicado: 15/01/2018 10:19  Atualizado: 15/01/2018 10:19
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 Há muito tempo que não sou eu.








Há muito tempo que não escrevo. Têm passado meses sem que viva, e vou durando, entre o escritório e a fisiologia, numa estagnação íntima de pensar e de sentir. Isto, infelizmente, não repousa: no apodrecimento há fermentação.

Há muito tempo que não só não escrevo, mas nem sequer existo. Creio que mal sonho. As ruas são ruas para mim. Faço o trabalho do escritório com consciência só para ele, mas não direi bem sem me distrair: por trás estou, em vez de meditando, dormindo, porém estou sempre outro por trás do trabalho.

Há muito tempo que não existo. Estou sossegadíssimo. Ninguém me distingue de quem sou. Senti-me agora respirar como se houvesse praticado uma coisa nova, ou atrasada. Começo a ter consciência de ter consciência. Talvez amanhã desperte para mim mesmo, e reate o curso da minha existência própria. Não sei se, com isso, serei mais feliz ou menos. Não sei nada. Ergo a cabeça de passeante e vejo que, sobre a encosta do Castelo, o poente oposto arde em dezenas de janelas, num revérbero alto de fogo frio. À roda desses olhos de chama dura toda a encosta é suave do fim do dia. Posso ao menos sentir-me triste, e ter a consciência de que com esta minha tristeza se cruzou agora — visto com ouvido — o som súbito do eléctrico que passa, a voz casual dos conversadores jovens, o susurro esquecido da cidade viva.

Há muito tempo que não sou eu.



Bernardo Soares






Enviado por Tópico
Volena
Publicado: 15/01/2018 11:24  Atualizado: 15/01/2018 11:24
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 Re: Em lugar primeiro ... P/Joel-Matos
...em primeiro lugar, Deus
em segundo lugar, Esperança
em terceiro lugar, favorito!

...a minha compreensão às vezes está lenta mas foi o que apeteceu dizer, releve, Vó