Textos : 

Copo cheio

 
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Ela quebrou um copo no rosto do namorado. Foi legítima defesa, as pessoas não saberiam. Um dos cacos entrou bem fundo na bochecha e por isso ele teve que ir ao Centro Médico levar alguns pontos. Se não fosse esse caco, estaria tudo certo. Eles se acertariam. O problema era deixar a violência sair das paredes do lar, das privacidades.

Semana retrasada ele havia colocado sabonetes numa fronha de travesseiro e acertado as costelas e estômago dela. Três golpes secos. Se você denunciar, não vão acreditar porque esta técnica não deixa marcas. Ele explicava tudo enquanto ela respirava sofregamente, retomando o fôlego, compreendendo a dor sem rastro.

Na outra semana, molhou a toalha e enrolou-a como corda de pano e acertou as pernas, a parte traseira das coxas. Não deixa marcas esta também.

Denunciar violência anti-humana é coisa séria. A contagem do Distrito é retomada e as sacas de insetos são postergadas. Era preciso cem dias sem violência para que o bônus fosse liberado. Todos ficavam atentos àqueles que não conseguiam mascarar suas violências particulares, dos fiscais da prefeitura. Tudo certo nesta rua? Eles perguntavam. Tudo certinho, fiscal. Tudo na santa paz. Tudo na mais perfeita ordem. E o fiscal colocava uma etiqueta verde no portão que significava o mesmo: ia tudo bem. Dia tal.

Então, se o indivíduo resolvesse denunciar alguém e não houvesse provas, em nome do bem coletivo das sacas de alimentos, o infrator era punido por banalização da ordem pública. Passava alguns dias prestando serviços às fazendas públicas onde se criavam os cangurus.

Ela pensava se seria tão ruim assim, as tais fazendas, os cangurus, as pessoas do Distrito acusando-a pela infração dos dias não violentos, o escândalo. A violência do namorado estava difícil de mascarar. De suportar.

Fodam-se os insetos e os cangurus, filho da puta. Ela gritou enquanto acertava uma tapa com o copo acoplado à mão, com bastante força, na cara do sujeito. Cacos, gritos, sangue.

Antes do estrondo, todos olhavam a mesa dos homens que discutiam sobre a velha que tinha sido presa na contagem passada. O caso do gato morto a pauladas. Ela viu o rapaz da mesa pegar a faca, pensou em esfaquear o namorado, nos olhos. Um golpe rápido, com a faca de pão, daria jeito. E respirava.

Respirava fundo, arrependendo-se dos pensamentos. Eu não sou violenta, ela pensava. Não sou. Mas eu não mereço ser violentada. Não podia usar a Cláusula Máter para matar o safado, porque havia feito uso da mesma no período inferior a três anos. O maldito ladrão de sangue da loja de departamentos. Ela precisou. Sangue era muito precioso naqueles dias.
O namorado estava calmo. Bebiam álcool. Tudo certo por ali, o fiscal conferiu. Depois foi à mesa ao lado, do rapaz dom a faca de pão. Hipócritas! Ela ouvia o rapaz gritar. Ela concordava.

O fiscal tratava de retirar a etiqueta vermelha, para identificar a mesa da confusão. Eu te amo muito, o namorado disse.

Eu te amo fora a gota d’água, fora do copo. O tapa-copo na cara. O caco, o naco de carne e sangue. Veio a polícia, o fiscal, a prefeitura. Sete dias de contagem perdidos, o povo dizia.

O namorado não soube explicar à polícia nem aos fiscais, os motivos que levariam a moça a fazer aquilo, ali, na frente de todos. Mesmo porque, as câmeras do estabelecimento mostravam ele dizendo Eu te amo, e levando o copo na orelha, logo em seguida.

Ela não o acusou de nada. Disse que teve um lapso. Quando viu já tinha feito. Talvez fosse o sangue que haviam tirado dela tempos atrás, que acabou afetando seu comportamento, seu senso. Os fiscais diziam que isso era possível, e que ela deveria ser retirada do convívio social para reabilitação. Etiqueta marrom. Fazendas de cangurus. Ela foi.

Trabalhou bem, ficou amiga dos animais, inclusive das diferentes maneiras de matá-los e embalá-los para consumo humano. Fazia algo útil. Fazia a comida daqueles cujos recursos alimentares haviam sido atrasados por sete dias, para que ela se vingasse do namorado.

Hoje em dia não pensa mais nele nem nos fatos que aconteceram. Amanhã termina a reabilitação. A fazenda ofereceu um emprego fixo, com direito a auxílio moradia que ela vai usar para pagar o aluguel da quitinete nos barcos do porto.


 
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thiagodebarros
 
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