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Poemas : 

vector

 
tantas foram as sobras da vida
cuspidas à toa
para a lápide fria
da calçada

tantas e tão poucas
se por momentos
apertasse novamente a tua mão
e no doce amparo do teu corpo
pudesse amputar tanto
quanto agora me traz
esse outrora
sobre o qual caminho

que me embaraça
que me confunde
que nos silencia
que nos afasta

 
Autor
boxer
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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 22/03/2017 02:25  Atualizado: 22/03/2017 02:25
 Re: vector
muito bom, boxer..
eu gostei de ler.


Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 22/03/2017 16:43  Atualizado: 22/03/2017 16:43
 Re: vector
*aprecio essa escrita velada nas entrelinhas dando ao leitor a possibilidade de apropriar-se ou acomodar-se nos sentidos e significados reluzentes...
"esse outrora
sobre o qual caminho..."imenso de sensaçoes em mim...
Muito bom!
Abraçoka*


Enviado por Tópico
Semente
Publicado: 22/03/2017 17:33  Atualizado: 22/03/2017 17:33
Colaborador
Usuário desde: 29/08/2009
Localidade: Ribeirão Preto SP Brasil
Mensagens: 8696
 Re: vector/ PARA BOXER
A poesia nos leva a novos olhares, novas reflexões sobre o pessoal e com o semelhante e aqui eu exercitei o meu ao ler a autenticidade lírica e temática dos teus versos.

Muito bom!


Enviado por Tópico
atizviegas68
Publicado: 24/03/2017 15:27  Atualizado: 24/03/2017 15:27
Colaborador
Usuário desde: 09/08/2014
Localidade: Açores
Mensagens: 1371
 Re: vector
Uma escrita rica quer na temática, quer na construção.
A temática promove a reflexão, uma constante nos seus poemas.
Uma escrita que promove a ambiguidade dando espaço para o leitor interpretar e devanear.

Parabéns.
Gostei imenso de ler.
Obrigada.

Um abraço


Enviado por Tópico
Jorge-Santos
Publicado: 26/03/2017 13:01  Atualizado: 06/06/2018 16:24
Subscritor
Usuário desde: 24/02/2017
Localidade: Azeitão/Setúbal, Portugal
Mensagens: 2003
 Re: vector













Valham-me as palavras boas,
E tudo que haja a devolver
Seja composto do falar,
Natural tanto como o dia

Ao nascer e a hora que foi,
Valham-me as palavras
As maduras e as outras
Azuis da cor dos beiços

Que trago neste espaço
Que pra mim é a alma
E a devolvo porque real
Existe e o falar é vão e

Compósito demais, valham-
-me as palavras e o dever
De pôr o coração à frente
Das costas quando digo:

-Valham-me as palavras
Em tudo que haja a devolver
Por mais pesado ou leves
Tanto quanto folhas mortas,

Cabelos de prata, horas que fui
Real, postiça a ilusão, inútil sou
Eu só, valham-me palavras,
As más ...as doces


















Enviado por Tópico
Margô_T
Publicado: 09/06/2017 16:14  Atualizado: 09/06/2017 16:14
Da casa!
Usuário desde: 27/06/2016
Localidade: Lisboa
Mensagens: 277
 Re: vector
Tanto se desperdiça; tanto se dispersa; tanto fica por aí, por aqui, por ali, “à toa”; tanto se amontoa; tanto perde o seu vector… (seu sentido, sua direcção, sua grandeza) como se de uma sobra se tratasse.
Sobre a calçada, são estratos e mais estratos de sobras que se vêem… des(tempos) em(pilhados), desordens sobre desordens, como se cada pedra branca da calçada se trasladasse numa “lápide fria”, numa vasilha de sobras.
Porém, sendo estas sobras “sobras da vida”, nelas sobrasvivem parte do que somos, do que não somos, do que já não somos, ou do que poderíamos ter sido.
Porém, apesar da sua abundância, “se por momentos” se viver algo que nos concentre - por inteiro - num dado ponto (do tempo, do espaço, da vida), a perpetuidade soar-nos-á tangível, não havendo lugar que sobre para que as sobras entretanto aglomeradas se façam sentir.
Nesse “doce amparo”, nessa não-sobra, nessa inteireza, encontra-se o/um possível vector, que consegue amputar a memória de todas as sobras (“quanto agora me traz/esse outrora/sobre o qual caminho”), retirando-nos os pesos que nos prendem, nos embaraçam, nos confundem, nos silenciam, nos afastam… - diminuindo e inibindo quaisquer movimentos ou acções.
É do centro do que nos ancora ao mundo que se inicia o vector que nos orienta… de magnitude tão desmedida que qualquer outro vector contrário se tornará irrelevante.


Enviado por Tópico
Srimilton
Publicado: 20/06/2017 21:54  Atualizado: 20/06/2017 21:54
Colaborador
Usuário desde: 15/02/2013
Localidade: Nenhuma
Mensagens: 1837
 Re: vector
Estou gostando de ler teus escritos. Este é, também, belíssimo!...

Abraços!


Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 06/06/2018 12:58  Atualizado: 11/06/2018 05:16
Colaborador
Usuário desde: 06/11/2007
Localidade:
Mensagens: 1597
 Re: vector
Andava perdido em matemáticas, entretido na física clássica, e com os vectores todos definido como segmento de recta com início e extremidade definidos, quando dei de caras com um vector diferente.
Vector é todo o organismo vivo passível de transmitir agentes infecciosos a pessoas ou animais (obrigado Priberam, e lamento alguma imprecisão).
E todo um contexto ambíguo surge.

Tem um sabor agridoce este poema.

Há uma linha espaço-temporal em que o sujeito poético anda situado, com o princípio definido.
As “…sobras da vida…”, restos de nós, na beira no prato, ou afinal na calçada, entre falhas e erros, dão um colorido negro a uma primeira estrofe, “…cuspida…” numa linguagem sem eufemismos, nem floreados, marcante.
Numa calçada que surge lápide, sem data de validade esse vector.
Essas sobras em continuidade, ou antes, em contínua idade, dão os tempos, um ritmo curto e forte, reflexo dos versos da primeira estrofe.

Na segunda entra o momento doce.
“…se por momentos
apertasse novamente a tua mão
e no doce amparo do teu corpo…”

Revelam estes versos que o passado teve algo de feliz.
Nesse outrora que não tem data, o tempo, esse sacana que não volta, bem podia retroceder. Talvez apenas no pensamento (chamam-lhe de memória).

Calçada com caminho casam muito bem, poeticamente e imageticamente.
Porque apesar de se caminhar, o caminho pode ser uma calçada. Veio-me uma estranha imagem de andar para trás, de costas, mas não no tempo.

Aqui é que surge a infecção.

Se é para ser infeliz, é para ser triste, vil, para esquecer. Cuspido e deixado no buraco negro das experiências, as mesmas e erróneas.
A infecção, com lembranças, que nos coloca a mínima hipótese de termos sido, ou ainda virmos a ser felizes, é que não faz parte do plano.

E os vectores têm sempre um nome.
Nem sempre é mosquito.

E é essa certeza que leva à conclusão do poema.
Como na primeira estrofe, curta.
Que a todos embaraça, confunde e silencia (o verbo silenciar mata-me).
Sujeito poético e leitor.
Afastar?
Nem tanto…

Abraço.