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Poemas : 

Gostei de preencher de sonhos, instantes

 
Gostei de preencher de sonhos, instantes
 



Gostei de encher de sonhos pequenas nações
E o que atrás eram pombas dormindo apenas,
Deixei um tear de instantes, paixões do que entre
Mim e elas há ou houve e nos pacifica de veludo,

Gostei de encher de sonhos os que conheço,
Indivíduos que lembram sem querer, pombos.
Imito as próprias vozes deles todos a falar,
Depois talvez eu endoideça, há um sexto sentido

Que me diz não serem pombas dormindo em
Camas de veludo, mutantes doutros mundos
Que não este de pequenas nações, calmas pombas,
Pensar eu que tudo é assim, espécie de sonho

Enchendo sonhos e outras nações pequenas,
Imaginações e paisagens suspensas, suspeitas,
Mar que seja de penas, tear d'aves feitas,
Nem sei do que estou falando, veludo e dia.





Jorge Santos (04/2017)
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Jorge Santos, aliás Joel Matos,aliás namastibet

 
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Jorge-Santos
 
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Enviado por Tópico
RoqueSilveira
Publicado: 03/04/2017 23:06  Atualizado: 03/04/2017 23:06
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 Re: Gostei de preencher de sonhos, instantes
Jorge Santos e Joel Matos irmãos gémeos até como génios poéticos: este e o outro são poemas geniais.
Eu assim entendo...
Parabéns também.


Enviado por Tópico
Jorge-Santos
Publicado: 02/05/2017 15:15  Atualizado: 03/04/2019 12:14
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 Pois tudo que sorri m'alegra
Tudo o que sorri me alegra

Tudo o que sorri me alegra
O rio, sobretudo o céu azul
Um barco, o embarque no
Cacilheiro, Porto Brandão

Cacilhas, ao raiar do dia
O Barreiro, parte de mim,
Ou o que eu mesmo fui.
Tenho no rio a quietude

E a surpresa se se pode
Chamar assim à tristeza
Que me dá quando vejo
Aquele que nasce e corre

Como nas veias sangue
Verde/azul mar tagus

Enviado por Tópico
Volena
Publicado: 02/05/2017 16:14  Atualizado: 02/05/2017 16:14
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Mensagens: 12513
 Re: Gostei de preencher de sonhos, instantes P/Jorge-Santos
...uma criação espantosa como se faz um espanta-espíritos
penas de pombas, fios de tear, sonhos de veludo, bafagem
de mutantes que existem pelo mundo que preenchem um portentoso indivíduo, extraordinário! Abraço do sexto sentido Vólena




Enviado por Tópico
Joel-Matos
Publicado: 20/07/2017 00:23  Atualizado: 20/07/2017 00:23
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 Gostei preencher sonhos e duendes a duas cores
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Enviado por Tópico
Jorge-Santos
Publicado: 02/08/2017 17:43  Atualizado: 02/08/2017 17:44
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 A propósito de Caeiro
A PROPÓSITO DE ALBERTO CAEIRO


A utilização da sensibilidade pela inteligência faz-se de três maneiras:
O processo clássico, que consiste em eliminar da sensação ou emoção tudo o que nela é deveras individual, extraindo e expondo tão-somente o que é universal.
O processo romântico, que consiste em dar a sensação individual tão nítida – ou vividamente, que ela seja aceite, não como coisa inteligível, mas como coisa sensível, pelo leitor, visor ou auditor.
Um terceiro processo, que consiste em dar a cada emoção ou sensação um prolongamento metafísico ou racional, de sorte que o que nela, tal qual é dada, seja ininteligível ganhe inteligibilidade pelo prolongamento explicativo.
Suponhamos que tenho uma aversão íntima pela cor verde, e que quero transformar esta aversão, que é uma sensação, em expressão artística. Pelo processo clássico, procederei da seguinte maneira: (1) Lembrar-me-ei que a aversão pela cor verde é puramente individual, que, portanto, a não posso transmitir a outrem, tal qual é; (2) deduzirei que, assim como tenho aversão pela cor verde, outros terão aversão por outras cores; (3) traduzirei a minha aversão pelo verde em aversão por «certa cor», e cada um que leia verá na aversão assim traduzida a cor particular com que ele tem aversão. Pelo processo romântico, buscarei pôr tal horror nas frases com que exprimo o meu horror pelo verde que o leitor fique preso da explicação do horror, esquecendo precisamente em que se fundamenta. Vê-se, pois, que o processo romântico consiste num tratamento intensivo dos elementos expressivos, em desproveito dos elementos fundamentais, da sensação. Pelo terceiro processo, porei nitidamente a minha aversão pelo verde, e acrescentarei, por exemplo, «é a cor das coisas nitidamente vivas que hão-de tão depressa morrer». O leitor, embora não colabore comigo na minha aversão pelo verde, compreenderá que se odeie o verde por aquela razão.
Pelo processo clássico sacrifica-se o mais nosso da sensação ou da emoção, em proveito de tomá-la compreensível. Porém o que tomamos compreensível é um resultado intelectual dela. Daí o ser a poesia clássica inteligível em todas as épocas, porém em todas fria e longínqua.
No meu fantasma Alberto Caeiro sirvo-me instintivamente do terceiro processo aqui indicado. Embora pareça espontânea, cada sensação é explicada, embora, para fingir uma personalidade humana, a explicação seja velada na maioria dos casos.


I

Há uma cor que me persegue e que eu odeio,
Há uma cor que se insinua no meu medo.
Porque é que as cores têm força
De persistir na nossa alma,
Como fantasmas?
Há uma cor que me persegue, e hora a hora
A sua cor se torna a cor que é a minha alma.

II

O verde! O horror do verde!
A opressão angustiosa até ao estômago,
A náusea de todo o universo na garganta
Só por causa do verde,
Só porque o verde me tolda a vista,
E a própria luz é verde, um relâmpago parado de verde...

III

Odeio o verde.
O verde é a cor das coisas jovens
– Campos, esperanças, –
E as coisas jovens hão-de todas morrer,
O verde é o prenúncio da velhice,
Porque toda a mocidade é o prenúncio da velhice.

Uma cor me persegue na lembrança,
E, qual se fora um ente, me submete
À sua permanência.
Quanto pode um pedaço sobreposto
Pela luz à matéria escura encher-me
De tédio ao amplo mundo!