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Poemas : 

Eu nunca dediquei poemas às fortunas (plágio)

 
Prevendo algumas críticas, identifico as obras cujos excertos copiei (vd. notas no final do texto).

.......................

EU NUNCA DEDIQUEI POEMAS ÀS FORTUNAS

invoco-vos, sílabas em sangue, dilacerantes...
sou mais um casto poeta, vergado aos dardos belicosos,
que continua a lamentar, voltado para as vagas,
a eterna saudade dos seus mais queridos
momentos de cólera, ao beijo das chamas,
pois serão eles a cobrir os exércitos de opróbrio
e, ao milagre do sol crescente, responderão com desprezo:

"parte para longe, feiticeira dos espólios!
estas vigas estão frágeis, prestes a cair,
letra a letra, palavra a palavra,
porque está a chegar a hora dos sonhos
e vós que, por mor morte, me dais desgostos
sabei que o tempo ardeu, mas não vos julgará."

.......................

Por honestidade intelectual, devo dizer que este poema é um plágio de vários autores, que quis homenagear.
Para além do título, retirado de "Contrariedades", de Cesário Verde (poeta português, n. 1855 - m. 1886), transcrevi excertos de obras pouco conhecidas, mas que vale a pena destacar. O número refere-se ao verso do poema.

1) "Manifesto Omnívoro" (texto programático de um movimento literário que defende, entre outras coisas, a deglutição de poemas na via pública, que configura contraordenação grave na legislação em vigor).
2) Poema de Magnus Cabularius, vate romano do séc. I a.C., escrito durante uma viagem de finalistas a Corinto. O dono do hotel relatou orgias no androceu, mas os pais disseram que eram brincadeiras normais de qualquer puer.
3) "Marcha dos marinheiros" (cântico tradicional dos pescadores da Nazaré, entoado em manifestação contra a descaracterização da sua terra pela recente invasão de surfistas norte-americanos).
4) Lápide no Prado do Repouso (Porto). Este cemitério possui jazigos predominantemente neogóticos e está dotado das mais modernas instalações sanitárias (co-financiadas pelo Fundo Social Europeu).
5) Manifestação pré-linguística do Homo Erectus (circa 1 800 000 a.C.), depois da descoberta de que os grelhados são saudáveis e saborosos, mas há que ter cuidado com as regras de higiene e segurança.
6) "Livro dos Medos" (apócrifo não incluído no cânone bíblico). Esquecido há muito, recuperou visibilidade a propósito de um incidente ocorrido recentemente na zona de Tancos.
7) "O quinto segredo de Fátima", de Mimi Consuelo, sequela da conhecida saga dos pastorinhos, em que se descobre que afinal Francisco e Jacinta não morreram: emigraram para Newark e foram fundadores da Igreja de Elvis.
8) Excerto de uma discussão entre duas adolescentes, posteriormente sujeito a adaptação pelo autor. Versão original: "Baza, bruxa de m*rd#!"
9) Informação gentilmente cedida por um colaborador de certa empresa de construção civil, comentando uma unidade hoteleira em Freixo de Espada à Cinta.
10) Publicidade televisiva dos anos 80 aos Dicionários da Porto Editora (objeto tornado obsoleto no séc. XXI, tal como a banda sonora do anúncio, de The Smiths).
11) Canção de embalar (Emissora Nacional, durante a primavera marcelista, diariamente às 20h00 em ponto)
12) Cantiga de Amor de Pero Anes de Santiago, autor medieval que inspirou bandas míticas como Sétima Legião, Moonspell e Agrupamento Musical Diapasão.
13) Oráculo da pitonisa Helena de Tróia, cujos atendimentos são discretos e muito razoáveis em termos de qualidade/preço. O consultório fica em Lisboa, na Av. do Brasil, nº 53 (acesso automóvel pela entrada Norte - Rua das Murtas).

 
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boxer
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Enviado por Tópico
João Marino Delize
Publicado: 26/07/2017 15:48  Atualizado: 26/07/2017 15:48
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 Re: Eu nunca dediquei poemas às fortunas (plágio)
Há muito poemas parecidos, mas mesmo assim não são plágios. No nosso inconsciente ficam poemas que lemos há muitos anos e nem recordamos mais quem foi o autor.
Mas nesse caso você já está especificando o plágio e portanto acho essa ideia louvável.

Gostei muito.

Abraços.

Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 26/07/2017 16:13  Atualizado: 26/07/2017 17:08
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 Re: Eu nunca dediquei poemas às fortunas (plágio)
(Vamos lá a ver, havendo cópia integral, ou apenas duma parte dum texto doutrém, mesmo indicando o autor, a obra, a página e o paragrágrafo donde foi retirada, continua a ser plágio!?.. Ó pá...).

Começa este plágio com uma invocação dura. Não às musas, ninfas ou outros seres olímpicos, mas directamente aos gatafunhos, aos riscos que compõem as sílabas, as palavras.
Contra o "sol crescente", nada mais nada menos que uma das primeiras divindades pagãs. Desde antes dos egípcios.

Mas começa a segunda estrofe com o melhor dos versos.
O plágio, continuando, é adaptado para linguagem comum, para que o leitor a entenda e assim o autor possa reclamar para si alguma criatividade que, subitamente lhe faltou. Acho a expressão donde é retirado (excerto duma discussão entre adolescentes) dum vernáculo poético que, sob minha modesta opinião, poder-se-ia manter:
"Baza bruxa de merda". Aqui gosto sobretudo do verbo bazar, eh, eh...
"...porque está na hora dos sonhos...", entras no campo das revoluções florais, com cravos, rosas, antúrios...vai fugindo desta realidade cega, ilusória, vã.

Obrigado pela morada do Oráculo. A ver se vou lá me informar do futuro dos outros...

Ps.
Tão bom o poema como o anexo, onde além de nos dares fontes desconhecidas e inesperadas, encerras mais uma contribuição única e carregada de humor.

Bem hajas irmão de letras...

Enviado por Tópico
Gyl
Publicado: 26/07/2017 16:27  Atualizado: 26/07/2017 16:28
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Online!
 Re: Eu nunca dediquei poemas às fortunas (plágio)
Texto irônico, satírico e de um humor duro e gélido feito um iceberg. Como bem disse um comentário acima, somos aquilo que lemos e aprendemos as técnicas e estilos com os do passado, por isso a poesia é tão rica. Dante bebeu do Virgílio, Cervantes e Goethe do Homero, Machado de Assis em Garret. Ninguém é uma ilha. Todos somos um continente nesse oceano literário. Tudo já foi dito. Resta-nos "re-dizer," se é que existe está palavra. O Dilúvio é descrito em várias civilizações antigas: Plágio? A história de um Messias que nasceria de uma virgem, morreria e renasceria após três dias foi contada milhares de anos antes de Jesus. Temos que ter muito cuidado com o que é plágio antes de acusar. Gostei muito da abordagem do texto e do tema. Abraços e tudo de bom, sempre.

Enviado por Tópico
Lucineide
Publicado: 26/07/2017 20:54  Atualizado: 26/07/2017 20:54
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 Re: Eu nunca dediquei poemas às fortunas (plágio)
Li, reli e fiquei na dúvida se comentaria .
Quando lemos muito ,ao escrevermos um texto, sempre surge a dúvida se estamos sendo fiéis. Às vezes analisamos determinada obra e lembramos de outra. Alguém já havia falado com outras palavras. Daí a necessidade de buscar muitas leituras. Fazer releitura sim, copiar jamais. Imagine você escrever vinte, trinta ou mais laudas, ou até mesmo uma pequena poesia, depois ficar sabendo que seu trabalho não tem validade, porque não é original. Você fez um trabalho excelente . E fez direitinho as citações. Muito bom!

Enviado por Tópico
boxer
Publicado: 27/07/2017 09:25  Atualizado: 27/07/2017 09:54
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 Re: Eu nunca dediquei poemas às fortunas (plágio)
.
Muito obrigado a todos pelos comentários.
Para quem estiver muito distraído, à exceção do que é dito sobre o título, todas as referências a livros e autores são inventadas (portanto, todos os versos do poema são originais).
O meu objetivo era questionar humoristicamente os conceitos de "plágio", "homenagem", "autoria", "autenticidade" etc. -- autorizando o eu poético a mentir deliberadamente ao leitor, para instalar neste, desde o início da leitura, uma suspeita em relação ao texto; dinamitando depois o seu significado nas notas, através de caricaturas de diversas vozes que ridicularizam um poema que abusa do tom solene e grandiloquente.
Desconfio não ter chegado a todos os leitores como desejaria...




Enviado por Tópico
Carolina
Publicado: 27/07/2017 15:46  Atualizado: 27/07/2017 15:46
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 Re: Eu nunca dediquei poemas às fortunas (plágio)
Pensei que ias falar das fortunas e dos portugueses mais ricos.
Depois deste plágio que afinal não foi, agradeço a extensa informação até do tempo da pitonisa que ardeu tu falaste.

Gostei de ler, obrigada.