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Poemas : 

pinóquio

 
eu acredito, mesmo que
a minha glote se tinja
de vazio, mesmo que
os meus gestos hábeis
sejam fáceis e falsos,
como duas mãos unidas
numa missa vespertina

reconheço-o na jaula
de um circo, no ventre
de leviatã, ou seja,
na mais perfeita claridade
dessa falésia
que sempre busquei

pressinto-o nas baias
dos parágrafos,
nas serifas de cada glifo,
no seu corpo fuzilado
de pingos de tinta sobre gesso

a brisa da meia tarde
sobre a sua pele de fórmica,
as folhas douradas
no campo dos milagres,

a multidão de boca aberta
tudo fraude?
vanitas vanitatum?

e serás tu, de azul desmaiado,
a revelar essa verdade?

sabes o que sou, sabes o que fazer

 
Autor
boxer
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Enviado por Tópico
Jmattos
Publicado: 02/08/2017 12:56  Atualizado: 02/08/2017 12:56
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 Re: pinóquio
Boxer

Posso divagar?
Eu acredito em mágica, milagre, no amor...

sabes o que sou, sabes o que fazer

Você é mágico, seu segredo revelo agora, você é uma pessoa apaixonada, um poeta de verdade!

Desculpa a brincadeira! Só sei que gostei imensamente da leitura!
Beijos!
Janna


Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 02/08/2017 13:07  Atualizado: 02/08/2017 21:22
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 Re: pinóquio
Vaidade das vaidades, procuramos as fraudes.
Abismo estranho, que nos persegue. Entre essa procura e essa perseguição, há algo que nos escapa. Pensei.

Começas com um credo. Mesmo que, de vez em quando, ele escape, volta, como ave em fogo.
Ou madeira.
Em jaula, ou gaiola, perdido (ou achado) num cachalote, fugindo à verdade, com uma proeminência excitada por essa falta...
Até à pergunta final.
Quem és afinal?
Que faremos com o que sabemos?
Eu... disfruto.

Abraço irmão


Enviado por Tópico
Jorge-Santos
Publicado: 02/08/2017 17:21  Atualizado: 02/08/2017 17:21
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 Há uma cor que me persegue e que eu odeio,
Ricardo Reis

Há uma cor que me persegue e que eu odeio,

Há uma cor que me persegue e que eu odeio,
Há uma cor que se insinua no meu medo.
Porque é que as cores têm força
De persistir na nossa alma,
Como fantasmas?
Há uma cor que me persegue e hora a hora
A sua cor se torna a cor que é a minha alma.



Enviado por Tópico
Semente
Publicado: 06/08/2017 15:35  Atualizado: 06/08/2017 15:35
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 Re: pinóquio/ PARA BOXER
Há tantos pinóquios. Alguns fáceis de perceber até quando o nariz se apresenta pequeno. Mentirosos têm cheiro...fedem por onde passam.

Mas a glote de um poeta, mesmo um fingidor, não convém se tingir de vazio, e nem os gestos sejam falsos. Os poderes da criatividade, é que são capazes de nos levar, os leitores , além da matéria e da vida real, para nos deleitar nesse mistério que é a poesia.

Boxer, te admiro, e creio em ti. Creia-me.

Beijos




Enviado por Tópico
martisns
Publicado: 09/08/2017 10:44  Atualizado: 09/08/2017 10:44
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 Re: pinóquio
As palavras não são mentiras, o que escrevemos são sentidos imaginários, mas que muitos leitores nesses momentos com ele estão acontecendo momentos iguais, poia a vida ele é sentida e assimilada


Enviado por Tópico
Jorge-Santos
Publicado: 10/08/2017 11:24  Atualizado: 10/08/2017 11:24
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 Re: pinóquio
Abraço!!

Enviado por Tópico
Margô_T
Publicado: 26/01/2020 11:44  Atualizado: 26/01/2020 11:49
Da casa!
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Mensagens: 281
 Re: pinóquio
O poeta diz que crê mesmo quando não é poeta, mesmo quando a sua “glote” se tinge “de vazio”…
Mas pode o poeta deixar de o ser quando não escreve? - Pode o poeta só estar no que escreve? Pode o poeta só estar no seu modo de sentir?

E que somos nós senão um amontoado de crenças, umas mais razoáveis do que outras?

Fica a pergunta: como crer neste fingidor que tem os “gestos hábeis”, “fáceis e falsos”, e que numa “missa vespertina” une as mãos em reza?
Que diz este gesto do que interiormente se sente?
Pode um não-poeta se fingir poeta com os mesmos gestos?
E pode um poeta se fingir um não-poeta com eles?..
Até onde vai a criação e até onde importa delimitar o verdadeiro do falso na literatura?

A mentira (ou, talvez melhor, a ilusão), representada por Pinóquio, está na “jaula de um circo” ou no “ventre de leviatã” (cenas do livro). Mas que representa esta jaula e que representa este leviatã? (e porque Moby Dick me está para aqui a surgir em intermitências mentais enquanto te leio? pelo leviatã? pela criação? pela infinidade de questões que levanta?)
Jaula e leviatã são uma “perfeita claridade” do que buscamos, enquanto escritores e enquanto leitores, porque são cenários que nos soam tão tão reais - quando os lemos/pensamos/imaginamos - que o autor só aí já nos ganhou/captou/caçou (deliciosamente) com a sua mentira, escondendo mil e uma verdades debaixo dela (ou mil e uma noites de possíveis – outras - histórias).

A mentira/criação da literatura está nas “baías” dos seus “parágrafos”, está nas “serifas de cada glifo”, está no papel/gesso/ecrã/corpo onde se encontram letras (“pingos de tinta”) que para lá foram lançadas (excelente toda esta estrofe!). Está, em suma, em todo o corpo literário, em tudo o que avidamente lemos.

A mentira tem uma “pele” isolante que nos faz crer em todo esse maravilhado (outro) mundo, por momentos esquecendo onde nos encontramos, como quem se extasia com a exuberância brilhante das talhas douradas ou de um “campo” de “milagres”…
E ainda que nos espantemos com esta pura aparência mais que disseminada (“a multidão de boca aberta/tudo fraude?”), o certo é que está parcialmente na fada que se encontra dentro de nós - nesse ser de “azul desmaiado” - a possibilidade de discernir a verdade (ou verdades) por detrás da mentira/ilusão…
… como ainda agora o faço enquanto te comento (“sabes o que fazer”)
porque te sei poeta (“sabes o que sou”)
e porque a revelação da tua verdade me soa a um requinte literário que vale a pena viajar/explorar, ainda que o que agora aqui esteja neste meu texto seja bem mais eu do que tu
já que, felizmente, algumas criações deixam espaço para que (re)criemos sobre elas, encontrando nelas a nossa própria verdade – ou, talvez mais precisamente, a verdade que agora conseguimos percepcionar… que, em qualquer dos casos, costuma ser idêntica num dado momento.

Muito bom!


Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 27/01/2020 11:50  Atualizado: 27/01/2020 11:50
 Re: pinóquio
percebo pouco de cinema e os filmes... mas... tenho uma frase integrante de um poema que diz o seguinte, "revelamos as nossas fragilidades contribuindo para um mundo mais humano". no entanto, quando alguém se dá a conhecer a outrem e quando esse outrem tem a fazer algo em relação à pessoa que se deu a conhecer a primeira coisa a fazer é comê-la. não digo isto feliz e o meu nariz em nada se parece com o do boneco de pau, digo-o com base na realidade do quotidiano.
bom dia