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Poemas : 

Reconheço que falhei .

 
Reconheço que falhei .
 



Reconheço que falhei,



Sorrio ao ritmo
Das folhas que caem,
Poisam leves, castanhas,
Sinto-as libertas e sorrio,

Têm a forma exacta
E a dimensão do mundo,
Poisam amarelas, leves,
Senti-las a minha missão,

Sorrio ao ritmo
Das folhas que caem
No meu coração,
Assim como se fosse

Decretado armistício
Na guerra que trago
Em mim dentro,
Onde as folhas, certo

Caem, caem, caem,
Liberto meu sonho
Em vão, não o vejo,
Reconheço que falhei,

Sorrio ao ritmo
Das folhas que caem,
Julguei simpatizarem
Comigo mas é a gravidade

Que as tem,
Senti-las minha missão,
Liberto, eu sonho
Não sentir que falhei...





Jorge Santos(08/2017)
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Jorge Santos, aliás Joel Matos,aliás namastibet

 
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Jorge-Santos
 
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Enviado por Tópico
Joel-Matos
Publicado: 31/08/2017 11:16  Atualizado: 31/08/2017 11:16
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 Re: Reconheço que falhei
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Enviado por Tópico
Jorge-Santos
Publicado: 31/08/2017 11:53  Atualizado: 31/08/2017 11:53
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 Re: Reconheço hoje que falhei ...
Bernardo Soares

Reconheço hoje que falhei,


Reconheço hoje que falhei, só pasmo, às vezes, de não ter previsto que falharia. Que havia em mim que prognosticasse um triunfo? Eu não tinha a força cega dos vencedores ou a visão certa [?] dos loucos...
Era lúcido e triste como um dia frio.
Tenho elementos espirituais de boémio, desses que deixam a vida ir como uma coisa que se escapa das mãos e a tal hora em que o gesto de a obter dorme na mera ideia de fazê-lo. Mas não tive a compensação exterior do espírito boémio — o descuidado fácil das emoções imediatas e abandonadas. Nunca fui mais que um boémio isolado, o que é um absurdo; ou um boémio místico, o que é uma coisa impossível.
Certas horas-intervalos que tenho vivido, horas perante a natureza, esculpidas na ternura do isolamento, ficar-me-ão para sempre como medalhas. Nesses momentos esqueci todos os meus propósitos de vida, todas as minhas direcções desejadas. Gozei não ser nada com uma plenitude de bonança espiritual, caindo no regaço azul das minhas aspirações. Não gozei nunca, talvez, uma hora indelével, isenta de um fundo espiritual de falência e de desânimo. Em todas as minhas horas libertas uma dor dormia, floria vagamente, por detrás dos muros da minha consciência, em outros quintais, mas o aroma e a própria cor dessas flores tristes atravessavam intuitivamente os muros, e o lado de lá deles, onde floriam as rosas, nunca deixaram de ser, no mistério confuso do meu ser, um lado de cá — esbatido na minha sonolência de viver.
Foi num mar interior que o rio da minha vida findou. À roda do meu solar sonhado todas as árvores estavam no outono. Esta paisagem circular é a coroa-de-espinhos da minha alma. Os momentos mais felizes da minha vida foram sonhos, e sonhos de tristeza, e eu via-me nos lagos deles como um Narciso cego que gozou a frescura próximo da água, sentindo-se debruçado nela, por uma visão anterior e nocturna, segredada às emoções abstractas, vivida nos recantos da imaginação com um cuidado materno em preferir-se.
Sei que falhei. Gozo a volúpia indeterminada da falência como quem dá um apreço exausto a uma febre que o enclausura.

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Jorge-Santos
Publicado: 02/09/2017 19:01  Atualizado: 02/09/2017 19:01
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 Re: Reconheço que falhei ...
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Joel-Matos
Publicado: 03/09/2017 15:50  Atualizado: 03/09/2017 15:50
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 Re: Reconheço que falhei ...

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Joel-Matos
Publicado: 03/09/2017 15:52  Atualizado: 03/09/2017 15:52
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 Re: Reconheço que falhei ...

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Publicado: 10/10/2017 12:04  Atualizado: 15/10/2017 20:14
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 Re: Reconheço que falhei ...
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If your deity does fail you, try try again
Painting,
Michael Dowling
United States


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Jorge-Santos
Publicado: 16/10/2017 12:43  Atualizado: 16/10/2017 12:43
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 Re: Reconheço que falei ...
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Joel-Matos
Publicado: 11/11/2017 19:56  Atualizado: 11/11/2017 19:56
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 Civil Disobedience - David Thoreau
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David Thoreau

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Jorge-Santos
Publicado: 22/11/2017 18:44  Atualizado: 22/11/2017 18:44
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 A Importância da Arte


A Importância da Arte







A arte é, provavelmente, uma experiência inútil; como a «paixão inútil» em que cristaliza o homem. Mas inútil apenas como tragédia de que a humanidade beneficie; porque a arte é a menos trágica das ocupações, porque isso não envolve uma moral objectiva. Mas se todos os artistas da terra parassem durante umas horas, deixassem de produzir uma ideia, um quadro, uma nota de música, fazia-se um deserto extraordinário. Acreditem que os teares paravam, também, e as fábricas; as gares ficavam estranhamente vazias, as mulheres emudeciam. A arte é, no entanto, uma coisa explosiva. Houve, e há decerto em qualquer lugar da terra, pessoas que se dedicam à experiência inútil que é a arte, pessoas como Virgílio, por exemplo, e que sabem que o seu silêncio pode ser mortal. Se os poetas se calassem subitamente e só ficasse no ar o ruído dos motores, porque até o vento se calava no fundo dos vales, penso que até as guerras se iam extinguindo, sem derrota e sem vitória, com a mansidão das coisas estéreis. O laço da ficção, que gera a expectativa, é mais forte do que todas as realidades acumuláveis. Se ele se quebra, o equilíbrio entre os seres sofre grave prejuízo.

Agustina Bessa-Luís, in 'Dicionário Imperfeito'











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Joel-Matos
Publicado: 24/11/2017 22:20  Atualizado: 02/12/2017 22:05
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 Por mais que os poetas enterteçam as palavras ..























Por mais que as palavras nos enlacem e os poetas as enterteçam, não há volta a dar-lhe: O amor é o amor —…,eu acho




Alexandre O’Neill (1924-1986)





















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Joel-Matos
Publicado: 21/12/2017 16:27  Atualizado: 21/12/2017 16:27
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 Re: Reconheço que falhei ...









Bernardo Soares

O instinto infante da humanidade que faz que o mais orgulhoso de nós se é homem e não louco, anseie [...], pela mão paternal que o guie, como quer que seja logo que o guie através do mistério e da confusão do mundo. Cada um de nós é um grão de pó que o vento da vida levanta, e depois deixa cair. Temos que arrimar-nos a um esteio, que não a vã figura ou amante vão; porque a forma é sempre incerta, o céu sempre longe e a vida sempre alheia.

O mais alto de nós não é mais que um conhecedor mais próximo do oco e do incerto de tudo.

Pode ser que nos guie uma ilusão; a consciência, porém, é que nos não guia.


















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Jorge-Santos
Publicado: 20/05/2019 22:07  Atualizado: 22/05/2019 09:40
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 Re: Reconheço que falhei.



















Despertei não sei do quê nem como,
Se ainda durmo um tardio febril sonho
Vestido a luto ou se desperto a mando
De alguém morto há séculos e por falecer

Do mesmo mal que me anima ainda pés e tronco
E em que nada combina com vida, nem ar aliado
Ao movimento de sombra e luz que me perdure,
Inútil a alma que, se existisse seria cinza, pó terra

Acabando por se perder na penumbra alada
Desse neutro, negro outro lado, não sei porquê,
Nem onde, mestiça margem d'outro homem,
Vestida a manga e só no decote o tecido é curto,

A glote é minha assim como a de todos outros
Sem glória, cantando "à capella", o divino moribundo
E o grotesco aplaudido por milhões de varejas,
Maldigo o destino, coso-me ao último, tomara certo

Não falsa ideia final do inútil que sou supondo-me
Desperto


(...)