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Poemas : 

A lucidez na loucura ou os cabelos de Berenice

 
A lucidez na loucura ou os cabelos de Berenice
 





( A lucidez na loucura)




Tenho pensamentos quasi'venais
Nos beiços, na língua, no queixo, em braille
Nos cotovelos, nos quasi'brancos cabelos
Com'a Berenice tem, belos...belos,

Pudesses tu vê-los,sabes... se
Soubesses do que falo, dito
Deixariam d'ter segredos,
Os maciços de nebulosas distas

Das alamedas de lata podre,
Lar das princesas feias, Ogres
Alimento infinito de orgias, vaginais
Meus sonhos de imenso e magias,

Tenho pensares tais e diversos,
Quantos os beirais das vielas sombrias,
Vagas quanto das veredas de terra greda,
As estrelas que avisto no espaço,

Pudesses vela-las tu p'las
Frestas da lona suja, verias fábulas
Dum crédulo, à luz de luz incerta,
Roto e sonhando-me do cosmos,

Mago majestoso em Terra-finda,
Vejo em tudo que brilha,
Ouro, só sal ódio e erva-minga,
Destroços de qualquer cometa,

Bairros de trolhas, imundice
Ratos, puxadas ilegais de luz
Tal e qual cabelos de Berenice,
(A lucidez na loucura)

Não passamos de minhocas,
Que brilham a preto no escuro,
Na textura do espaço/tempo,
Explica-mo-lo a ouro e sinais

De néon no vácuo que ficará
De nós depois do circo ir embora,
Erva gasta e podre, lixo
E um hino de horror à vida

Na Terra nossa gémea, dos cabelos
Verbais que Berenice tem,
Soubessem eles que, realmente
Falo da lucidez na loucura .








Jorge Santos(01/2018)
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Jorge Santos, aliás Joel Matos,aliás namastibet

 
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Jorge-Santos
 
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Enviado por Tópico
Joel-Matos
Publicado: 27/01/2018 10:36  Atualizado: 27/01/2018 11:15
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 Re: A lucidez na loucura ou Os cabelos de Berenice
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Marc Chagal





A Lenda da Constelação da Cabeleira de Berenice


Por volta do ano 243 a.C., a rainha Berenice II do Egito prometeu seus longos cabelos à deusa Afrodite se seu marido, Ptolemeu III Evérgeta I, retornasse são e salvo da guerra contra os selêucidas. A deusa atendeu ao pedido, e Berenice cortou sua cabeleira, ofertando-a no altar; no dia seguinte, porém, ela havia sumido. O astrônomo da corte afirmou que Afrodite ficara tão encantada com a oferenda que a levara para o céu.



Enviado por Tópico
Joel-Matos
Publicado: 27/01/2018 11:16  Atualizado: 27/01/2018 19:50
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 Só é meu o mundo que trago dentro da alma.
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Só é meu
O país que trago dentro da alma.
Entro nele sem passaporte
Como em minha casa.
Ele vê a minha tristeza
E a minha solidão.
Me acalanta.

Me cobre com uma pedra perfumada.
Dentro de mim florescem jardins.
Minhas flores são inventadas.
As ruas me pertencem
Mas não há casas nas ruas.
As casas foram destruídas desde a minha infância.
Os seus habitantes vagueiam no espaço
À procura de um lar.

Instalam-se em minha alma.
Eis porque sorrio
Quando mal brilha o meu sol.
Ou choro
Como uma chuva leve
Na noite.

Houve tempo em que eu tinha duas cabeças.
Houve tempo em que essas duas caras
Se cobriam de um orvalho amoroso.
Se fundiam como o perfume de uma rosa.
Hoje em dia me parece

Que até quando recuo
Estou avançando
Para uma alta portada
Atrás da qual se estendem muralhas
Onde dormem trovões extintos
E relâmpagos partidos.

Só é meu
O mundo que trago dentro da alma.

Marc Chagall Tradução: Manuel Bandeira


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Chagall Marc

Enviado por Tópico
Jorge-Santos
Publicado: 30/01/2018 08:46  Atualizado: 31/01/2018 08:42
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 Be happy


Sou de facto o diabo, incapaz de uma palavra que ofenda,
Quando assim não for, obriga-me Shakespeare a fazê-lo.



No light, but rather darkness visible.
Mas essas chamas lançam não luz, mas sim treva visível.

Fernando Pessoa |

(A hora do Diabo)

«A música, o luar e os sonhos são as minhas armas mágicas. Mas por música não deve entender-se só aquela que se toca, se não também aquela que fica eternamente por tocar.
Por luar, ainda, não se deve supor que se fala só do que vem da lua e faz as árvores grandes perfis; há outro luar, que o mesmo sol não exclui, e obscurece em pleno dia o que as coisas fingem ser. Só os sonhos são sempre o que são. É o lado de nós em que nascemos e em que somos sempre naturais e nossos.»
Eu sou aquilo a que tudo se opõe mas, se eu não existisse, nada existiria,
«Eu sou de facto o Diabo. Não se assuste, porém, porque eu sou realmente o Diabo, e por isso não faço mal.Certos imitadores meus, na terra e acima da terra, são perigosos, como todos os plagiários, porque não conhecem o segredo da minha maneira de ser.

Shakespeare, que inspirei muitas vezes, fez-me justiça: disse que eu era um cavalheiro. Por isso esteja descansada: em minha companhia está bem. Sou incapaz de uma palavra, de um gesto, que ofenda uma senhora. Quando assim não fosse da minha própria natureza, obrigava-me o Shakespeare a sê-lo.

Mas,realmente, não era preciso.«Dato do princípio do mundo, e desde então tenho sido sempre um ironista. Ora,como deve saber, todos os ironistas são inofensivos, excepto se querem usar da
ironia para insinuar qualquer verdade.Ora eu nunca pretendi dizer a verdade a ninguém
— em parte porque de nada serve, e em parte porque não conheço. Meu irmão mais velho, Deus todo poderoso, creio que também a não sabe. Isso, porém, são questões de família.«Talvez não saiba porque é que a trouxe aqui, nesta viagem sem termo real nem propósito útil. Não foi, como parecia que ia julgar, para a violar ou atrair. essas coisas sucedem na terra, entre os animais, que incluem os homens, e parece que dão prazer
— creio, segundo me dizem de lá de baixo, que até às vítimas.
«De resto, não poderia. Essas coisas acontecem na Terra, porque os homens são animais. Na minha posição social no universo são impossíveis
— não bem porque a moral seja melhor, mas porque nós, os anjos, não temos sexo, e essa é, neste caso pelo menos, a principal garantia. Pode pois estar tranquila porque a não desrespeitarei. Bem sei que há desrespeitos acessórios e inúteis,como os dos romancistas modernos e os da velhice; mas até esses me são negados, porque a minha falta de sexo data desde o princípio das coisas e nunca tive que pensar nisso. Dizem que muitas feiticeiras tiveram comércio comigo, mas é falso; ainda que o não seja, porque o com que tiveram comércio foi com a própria imaginação, que, em certo modo, sou eu.
«Esteja, pois, tranquila. Corrompo, é certo, porque faço imaginar. Mas Deus épior
— num sentido, pelo menos, porque criou o corpo corruptível, que é muito menos estético. Os sonhos, ao menos, não apodrecem. passam..

Nunca tive infância, nem adolescência, nem portanto idade viril a que chegasse.Sou o negativo absoluto, a encarnação do nada. O que se deseja e se não pode obter, o que se sonha porque não pode existir ― nisso está meu reino nulo e aí está assente o trono que me não foi dado. O que poderia ter sido, o que deveria ter havido, o que a Lei ou a Sorte não deram ― atirei-os às mancheias para a alma do homem e ela perturbou-se de sentir a vida viva do que não existe. Sou o esquecimento de todos os deveres, a hesitação de todas as intenções. Os tristes e os cansados da vida, depois de levantados da ilusão erguem para mimos olhos, porque eu também, e a meu modo, sou a Estrela Brilhante da manhã. E há tanto tempo que o sou! Outro me veio substituir (...)»«A humanidade é pagã. Nunca qualquer religião a penetrou. Nem está na alma do homem vulgar o poder crer na sobrevivência dessa mesma alma. O homem é um animal que desperta, sem que saiba onde nem para quê.«Quando adora os Deuses, adora-os como feitiços. A sua religião é uma bruxaria.Assim foi, assim é, e assim será. As religiões são somente o que extravasa dos mistérios para a profanidade e dela não é entendido, pois, por natureza, o que não pode ser.
O homem não difere do animal senão em saber que o não é. É a primeira luz, que não é mais que treva visível. É o começo, porque ver atreva é ter a luz dela. É o fim, porque é o saber, pela vista, que se nasceu cego. Assim o animal se torna homem pela ignorância que dele nasce.
Também eu, minha senhora, sou a Estrela Brilhante da Manhã. Era-o antes que João falasse, porque há Patmos antes de Patmos, e mistérios anteriores a todos os mistérios. Sorrio quando pensam (penso) que sou Vénus em outro esquema de símbolos. Mas que importa? Todo este universo, com seu Deus e seu Diabo,como o que há nele de homens e de coisas que eles vêem, é um hieróglifo eternamente por decifrar. Sou, por mister, Mestre da magia: não sei contudo o que ela é.«A mais alta iniciação acaba pela pergunta encarnada de se há qualquer coisa que exista. O mais alto amor é um grande sono, como aquele em que nos amamos de dormir. Às vezes eu mesmo, que devera ser um alto iniciado,pergunto ao que em mim é de além de Deus se estes deuses todos e todos estes astros não serão mais que sonos de si mesmos, grandes esquecimentos do abismo.«Não pasme que eu assim fale. Sou naturalmente poeta, porque sou a verdade falando por engano, e toda a minha vida, afinal, é um sistema especial de moral velado em alegoria e ilustrado por símbolos.
Sou o eterno Diferente, o eterno Adiado, o Supérfluo do Abismo. Fiquei fora da Criação. Sou o Deus dos mundos que foram antes do Mundo ― os reis de Edom que reinaram mal antes de Israel. A minha presença neste universo é a de quem não foi convidado. Trago comigo memórias de coisas que não chegaram a ser mas que estiveram para ser. (Então face não via face , e não havia equilíbrio.)«A verdade, porém, é que não existo ― nem eu, nem outra coisa qualquer. Todo este universo, e todos os outros universos, com seus diversos criadores e seus diversos Satãs ― mais ou menos perfeitos e adestrados ― são vácuos dentro do vácuo, nadas que giram, satélites, na órbita inútil de coisa nenhuma.
E creio às vezes, do fundo do meu cansaço de todos os abismos, que mais vale a calma e a paz de uma noite da família à lareira que toda esta metafísica dos mistérios a que nós, os deuses e os anjos, estamos condenados por substância. Quando,às vezes, me debruço sobre o mundo, vejo ao longe, indo do porto ou voltando a ele, as velas dos barcos dos pescadores, e o meu coração tem saudades imaginárias da terra onde nunca esteve.
Felizes os que dormem ...