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Poemas : 

Espelho, Espelho Meu

 
Espelho, bendito espelho meu,
quem tem de luz feito os cachos cor mel?
A quem pertence o coração de meu amor?
É nesta estação que vem boa colheita?

O espelho, gentil sempre, vira-se para mim,
ditou-me um verso calmo, fez-me inteira.
Vi por sobre o ápice de seu volume uma coroa florida cujas flores enriqueciam meu quarto sepulcral. O misto de perfume invadiu-me a mente, trouxe-me rapidamente memórias perdidas. Então, recolhi-me junto ao espelho a cantar meu gentil soneto.

Espelho, sincero espelho meu,
quando findar esta guerra,
como que volta meu pai?
Eu hei de buscá-lo afogado em sorrisos ou
estou desgraçada por Deus?

Espelho, espelho meu,
quem que manda em meu peito?
É Emanuel ou sou eu?
Diz-me verdadeiramente, diz-me,
que eu não choro nunca.

O espelho, irado sempre, acendeu em chamas os olhos, deu-me uma resposta curta, fez-me uma vez mais triste.

Amada princesa,
a quem nunca chamei rainha,
curta resposta terei de dar-te,
padece de enganos ao leito de morte,
em frio, numa grossa chuva,
enfrentando sereno é teu pai.

Um forte vendaval adentra o meu quarto,
bagunçando minha mente e enlouquecendo o sincero espelho, que foge pelo teto.

Quando recobro a consciência, vejo o espelho mágico, valente sempre, escondido entre as vigas de meu teto, envolto todo em terror e fumaça. Retiro-me completamente de meus aposentos, transtornada.

Ao salão principal, a bonita rainha
tem no sorriso o mais belo gesto fraterno,
e seu vestido longo seduz os rapazes,
com um estilhaço de voz, reduziu-me a nada.
Perguntou-me o motivo para ensurdecedor barulho vindo de meu quarto, eu fujo.

Eu fujo para perto de meu espelho, louco sempre, pedindo conselhos, rogando por revelações.

Sem novidades,
só contou-me sobre um tal ritual,
ao que parece, traz consigo mistérios mil.
Em minha nudez absoluta, invoquei o glorioso Jesus, o mágico espelho, sábio sempre, disse para eu não mencionar nazareno nenhum, pois chato ele é.

Assim, comecei invocando a Pã, e cantei alegremente com meu espelho mágico:

Espelho, espelho meu,
diz-me quem manda aqui,
é Emanuel ou sou eu?
E que vibre no cio sutil da luz,
eu sou sua mulher e afã.
A magia, então, se iniciou,
e surgiu, travestido de amor, o deus Pã,
rimando junto ao meu espelho sábio.

Abriu-se o círculo mágico com anões, gnomos,
dragões, princesas, bruxas e rainhas, chamando todos para bailar, é uma festa arrojada.
Quem quiser, pode entrar.


nevermore

 
Autor
Sebastião-Nascimento
 
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