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Poemas : 

O meu asno não tem nome

 
 
Esta minha coincidência cava-me
e sei como me acabo,

sentado a trote.

Maldito momento em que os meus pétreos olhos
se cruzaram com os do meu amo
que não nasci escudeiro.

Esses que galopam pela lua,
que procuram sempre o bem
e ignoram os males do amor...

Eles que lutam pela verdade em cada mentira desdita,
pela justiça dos pardais,
pela virtude cega,
por nós,
nele.

Num mundo tão vazio de coração.

Ali,
quando o meu sangue escolheu ser derramado,
fugir destas veias para consigo ir.

Então
resta-me ser
voz de moinhos,
ecoar o escárnio das rameiras,
o maldizer dos taberneiros nas tabernas,
o silêncio ermo e frio das ruínas dos castelos,
o travão de todas as batalhas perdidas à nascença.

Ai,
que maldigo
os meus olhares secos,
os campos, esterilizados cirurgicamente.
Os estiletes em riste, os espaçadores em ângulos obtusos,
os fios de Kirschner no lugar...

Os meus olhos mudos caem sempre no chão.

Se fujo ao que vejo,
prevejo desgraças iminentes,
ainda que em mim não haja qualquer prever!

E, mais que a sua triste figura, sei:
triste ficarei com os seus olhares, ausentes.


me resta segui-lo,
já que da fama não me livro.


A minha pátria é a língua portuguesa.
Bernardo Soares
www.poemassagem.blogspot.pt

Saibam que agradeço todos os comentários, de coração...
Por regra não respondo.



Quem achar pertinente, e o fizer duma forma descomprometida, pode o ler como uma continuação invulgar doutro meu intitulado "Moinhos".
 
Autor
Rogério Beça
 
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Enviado por Tópico
IsabelRFonseca
Publicado: 14/04/2018 10:22  Atualizado: 14/04/2018 10:22
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Usuário desde: 25/05/2013
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Mensagens: 1232
Online!
 Re: O meu asno não tem nome
Maldito momento em que os meus pétreos olhos
se cruzaram com os do meu amo
que não nasci escudeiro.
Um abraço Rogério Beça

Enviado por Tópico
RoqueSilveira
Publicado: 14/04/2018 11:51  Atualizado: 14/04/2018 11:51
Colaborador
Usuário desde: 31/03/2008
Localidade: Braga
Mensagens: 8140
 Re: O meu asno não tem nome
que importa ser voz de moinhos? vale coração e consciência, e se a vida é que nos leva lá terá seus motivos; em algum momento todos somos asnos, um belo animal

Enviado por Tópico
Gyl
Publicado: 14/04/2018 15:26  Atualizado: 14/04/2018 15:26
Membro de honra
Usuário desde: 08/08/2009
Localidade: Brasil
Mensagens: 13203
 Re: O meu asno não tem nome
Eu tenho verdadeira fascinação pelo romance do Dom Quixote, tanto que o releio todos os anos, as duas partes. O poeta amigo sabe tecer o que lhe cai na alma com muita originalidade e estilo. É muito fácil distingui-lo da turba. Destaco:
"Ai,
que maldigo
os meus olhares secos,
os campos, esterilizados cirurgicamente.
Os estiletes em riste, os espaçadores em ângulos obtusos,
os fios de Kirschner no lugar..."
Um enorme prazer poder interagir e aprender contigo, meu amigo e irmão das letras.