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Poemas : 

A temporã.

 
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O pó cobre os corpos
cobre o verde desértico
da vegetação teimosa
da planície arenosa e das escarpas
E, ao sopé dos montes
pegadas de pés descalços
de mulheres voltando das fontes
aos seus lares
...
Regresso com seus temores
e tristes olhares
sem as cantigas peculiares
de seus santos ajudadores

Hoje não tem não
carne-seca nem água no feijão

"Hoje não sairão banhar-se todas
contemplando às estrelas
em um conto regional de morrerem
e um dia sê-las"

Hoje tem
a fome circundando os quintais
cantada pela desgraça do violeiro
que fala dos temporais
que fala do rio transbordando
mas nunca por ele navegou.

"O pôr-do-sol é um quadro horizontal
maravilhoso demais e, ausente
faria secar a tristeza dessa gente"

Aves nômades rumam para o mar
as daqui já foram nativas
...
E tantos animais de costelas salientes
tombam impotentes
e tantos animaisgente
tombam indo e vindo
sedentos da chuva chegar
...

e o barro dos açudes amarelos
e o barro ocre-marrom
e o barro ocre-marrom-cobre
cobre de doença, "mata a fome"
perpassando as tripas da barriga
...
e só a água cristalina
guardada na retina
não faria essa gente ó Deus
ó Deus não faria
essa gente sentir-se tão pobre


O caminhão-pipa não chega
A espera é um alento
para os pais sentinelas
e suas crianças magrelas
que as mães esperam
alheias ao frescor do vento

Um Relâmpago!!!
Esperança!

Um sorriso fugaz de todos
de todos sentirem a chuva
a lama do pó
do pó na entranha
que molha o pó de lágrimas




(scsul, 1998)


#AUTOBIOGRAFIA
DELÍRIOS, SÓ O CHÁ
O PSEUDO VIVER
CORROMPE MEU IMO
ENFEIA MEU BEABÁ
REHGGE


 
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poemus
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Enviado por Tópico
Jmattos
Publicado: 15/05/2018 12:34  Atualizado: 15/05/2018 12:34
Colaborador
Usuário desde: 03/09/2012
Localidade:
Mensagens: 15134
 Re: A temporã.
Poeta
E assim muitas famílias vivem até hoje no Sertão, fortes e na esperança dos dias de chuva, de bonança, enfim, de dias melhores!
Adorei a leitura!
Abraços!
Janna


Enviado por Tópico
Joel-Matos
Publicado: 16/05/2018 12:41  Atualizado: 16/05/2018 15:31
Subscritor
Usuário desde: 24/02/2017
Localidade: Setúbal, Portugal, Azeitão
Mensagens: 1217
 Poema do homem rã .. António Gedeão 1957
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POEMA DO HOMEM-RÃ
Sou feliz por ter nascido
no tempo dos homens-rãs
que descem ao mar perdido
na doçura das manhãs.
Mergulham, imponderáveis,
por entre as águas tranquilas,
enquanto singram, em filas,
peixinhos de cores amáveis.
Vão e vêm, serpenteiam,
em compassos de ballet.
Seus lentos gestos penteiam
madeixas que ninguém vê.

Com barbatanas calçadas
e pulmões a tiracolo,
roçam-se os homens no solo
sob um céu de águas paradas.

Sob o luminoso feixe
correm de um lado para outro,
montam no lombo de um peixe
como no dorso de um potro.

Onde as sereias de espuma?
Tritões escorrendo babugem?
E os monstros cor de ferrugem
rolando trovões na bruma?

Eu sou o homem. O Homem.
Desço ao mar e subo ao céu.
Não há temores que me domem
É tudo meu, tudo meu.