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Poemas : 

Sofro por não ter falta,

 
Sofro por não ter falta,
 








Sofro por não ter falta,
Ausência se faz sentindo
A mesma falta, a partir
Do que não é preciso,

E só dói ao principio,
Eu sofro por não ter falta,
Medito a sós comigo,
Repetindo o mesmo "mantra",

Vezes e vezes sem conta,
Ausência só faz sentido,
Quando há em uma parte
Do corpo, transição.

Eu sou um quarto do caminho,
Desconheço os fins
E a distância, a atitude
É uma doença contagiante,

Congénita, tal como a má morte,
Estou morrendo de conteúdo,
Como morre mudo um pato,
De desmérito, pode ser fraca

E inoportuna ou tamanha,
Sofro por não ter falta,
A felicidade é rara e falsa, a alma não
É minha …nem é dada à sorte.

Sofro por não ter falta,
Finjo, ignoro, sou feliz
Como quando se nasce,
Ausência se faz sentindo,

A morte não se sente,
Embora faça parte do que sinto,
Falta-me do voar a asa e a verdade,
Os deuses não me deram uma,

A outra não a quero,
Não me cabe escolher qual delas minha,
Sofro de não ter falta,
Sofro de ser agora, já tarde ...







Jorge Santos 08/2018
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Jorge Santos, aliás Joel Matos,aliás namastibet

 
Autor
Jorge-Santos
 
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Enviado por Tópico
Jorge-Santos
Publicado: 14/08/2018 22:32  Atualizado: 03/10/2018 10:37
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Enviado por Tópico
Gyl
Publicado: 14/08/2018 22:50  Atualizado: 14/08/2018 22:50
Membro de honra
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Mensagens: 15215
 Re: Sofro por não ter falta,
Você é um poeta de verdade, amigo Jorge! Obrigado!


Enviado por Tópico
Jorge-Santos
Publicado: 15/08/2018 21:20  Atualizado: 03/10/2018 10:36
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Enviado por Tópico
boxer
Publicado: 22/08/2018 11:03  Atualizado: 22/08/2018 11:18
Colaborador
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 Re: Sofro por não ter falta,
.
No passado fim de semana, fui à bienal de Cerveira, onde visitei uma exposição extraordinária de Cruzeiro Seixas, artista que o meu caro amigo talvez aprecie. Caso tenha disponibilidade, vale a pena a viagem :)

Falo nisto a propósito do seu poema -- com a amargura ácida a que já nos habituou e que muito aprecio – que me fez lembrar o que li num caderno de Cruzeiros Seixas que estava na exposição:

"Acusam-me de solidão... E se isso é verdade, a mim me parece que se nasce solitário como se nasce extremamente belo, ou marreco. (...) Na verdade, se a vida não me proporcionou aquilo que consideram alegrias, proporcionou-me viver intensamente, letra a letra, a paixão..."


Enviado por Tópico
Jorge-Santos
Publicado: 09/10/2018 20:01  Atualizado: 09/10/2018 20:01
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 Re: Sofro por não ter falta,
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Enviado por Tópico
Joel-Matos
Publicado: 08/10/2019 20:34  Atualizado: 08/10/2019 20:34
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 O Poema Pouco Original do Medo













O Poema Pouco Original do Medo


O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

*

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos






Alexandre O'Neill, in 'Abandono Viciado'