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Poemas : 

ofício dos egressos

 
sabem quando ficamos mudos
com o vogar de uma gaivota
no útero do firmamento?
quando tudo no reino dos homens
parece vitral e é ausência?
aqueles dias em que já não se quer ser real
antes que a realidade chegue?

por alguma razão a maior palavra da minha língua
é uma doença

outrora já houve cânticos, adornos e vinho
já houve o torso negro de uma hebreia
e um escapulário de esperança

era o tempo do oráculo e dos sismos

mas a solenidade do outono
encontrou-nos despidos sobre as estepes
e viu a nossa fuga e inverteu-nos o rumo,
tocados a sinais

foi o tempo do cativeiro e do exílio

seguindo a lei
habitámos esta câmara ardente
que deita, dia sim dia não,
para um horizonte de têmporas e cantochão
onde antes só se encapelava
o estuário das nossas bocas

cruzávamo-nos uma e outra vez
e desdenhávamos o engenho que se entrega
a outros de menos conta:
nunca aprendemos a descoser a sintaxe
e a pontear rimas
(que nos perdêssemos pelo rigor mortis,
não por destoarmos no coro dominical)

certa noite cingimos a pele com braçais de luto
e contemplámos mais uma vez
as linhas de fogo que nascem e morrem
com o vento suão:
eram as vozes que nos amortalhavam
para o deserto

seria o tempo do abandono e da entrega

não mais me trago comigo
não me peçam contas do que se passou
tendes versos
haverá melhor herança?

 
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boxer
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Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 05/10/2018 13:45  Atualizado: 05/10/2018 13:45
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Usuário desde: 06/11/2007
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 Re: ofício dos egressos
Não, se versos destes é o que procuro, respondendo a uma (a última) das perguntas.

Por vezes, ou muitas ou quase sempre, não nos reconhecemos, deixamos de ser quem fomos e até o que seremos.
Brindas-nos invariavelmente com um vocabulário rico, com metáforas sobre metáforas bem criadas, com imaginação e qualidade.

"...por alguma razão a palavra maior da minha língua é uma doença..."

Somos uma carne estranha, sim. E resiliente e com acabrunhamentos negativos intrínsecos. Com muitas partidas e abandonos.

Alguns regressos depois de vários egressos (obrigado por mais uma ida ao dicionário).

Apesar do desencanto e da marcha em fuga que o teu poema exprime, e das contas e dos contos pagos a versos que herdamos (uma vez que o sujeito poético vive sem si), cabe-nos a nós leitores, fazer a mesma vida.

Aguardar qualquer outro que surja, certamente pior.

Porque melhor, parece-me a mim difícil.

favoritei.

abraço irmão