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Menor crença no tempo

 
Tags:  poesia    escrita    introspeção  
 
se somos os meses que não terminam,
haja ar que nos intervalos das hesitações
nos proíba de esperar,
avançando,
com passos soltos,
para desenrolar estes receios
de sentir o sangue a viver,...

e para que valha a pena o momento
contornado com húmus,
nem sei por onde continuar a refletir,
apenas acreditar,
que um ano arredonda o tempo
em chuva

 
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theartist_lc
 
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Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 09/10/2018 10:48  Atualizado: 29/12/2018 01:32
Colaborador
Usuário desde: 06/11/2007
Localidade:
Mensagens: 1588
 Re: Menor crença no tempo
Carpe diem.

"sou eu quem escreve os poemas mais bonitos" já disseste num tom desafiador, irónico, fingido, colocando o leitor na pele de quem procura a beleza das rimas, das ideias, sem ter bem a certeza do que é belo.
Há beleza quanto baste num murro no estômago.

Depois atiras-te sem medo ao sol.
Com e sem.. De como hão luzes que nos empurram definitivamente para o abismo. Nos dão vida, onde muitas vezes não devia de haver.
Fez-me pensar na "casa branca" de Sophia de Mello Breyner Andresen, na qual faço uma leitura de a realidade do visível nem sempre é o que queremos ou precisamos (escrito em pleno estado novo), mais vale a noite que ela saúda, ou o escuro.
O que faríamos sem a iluminação nocturna. Imagens dos egípcios e o seu deus Amon-Rá ou de Apolo, nos gregos. De como o sol é bonança e colheitas fartas.
Neste teu caso apresentas um e condenas o apresentado no mesmo momento. Num final fortíssimo.

Agora o tempo.
Vi em zapping num canal quaquer da tv por fibra um filme chamado Lucy.
A um dado momento o insight do cientista representado pelo Morgan Freeman, chega à conclusão que a realidade (e a sua unidade de medida ao nível do comos) é o tempo.
O tempo é um dos meus assuntos para divagar preferidos.
Começas muito bem no primeiro verso com "os meses que não terminam". Gostei dessa unidade de tempo porque o habitual é segundos, dias, anos (com que acabas) e optaste pelo pouco habitual, mas igualmente demonstrativo.
E porque efectivamente temos sempre um pouco a ilusão da imortalidade. Mais na juventude e menos na velhice, mas ainda esses...
Segues na estrofe com boas metáforas.
O papel do ar nas hesitações fez-me ir de encontro ao que procura o poema. Esse desenrolar com uma vida que vivemos sem ela. Sem darmos conta de que não a vivemos no seu pleno e a desperdiçamos. Muito ou quase sempre.

Antes de haver o sistema internacional métrico que estabelece o segundo e seus pares, a palavra "momento" foi uma unidade de tempo (equivalente a 90s). Os ingleses falam em momentum, numa força de impulsão.
Nós resolvemos cristalizá-lo.

Viver intensamente é uma prova de esforço que a nossa preguiça natural dificilmente está disposta a fazer.

A menor crença no tempo, é claramente debatível filosófica e poeticamente.
Porque o tempo é todo ele uma questão de credo inevitável.
Como não acreditar no futuro? O futuro é uma ilusão. É um pressuposto que nós temos, tendo em conta as repetições que se sucedem e que podemos registar através da nossa memória.
Até o agora é uma criação.
Uma possibilidade do poder da abstração que todos nós temos. Uns mais do que outros.

Gosto da tua linguagem.
Ao fim do terceiro poema posso afirmar que não é fruto do acaso nem caso de momento de sorte.

Espero que continues neste registo.
Precisamos de poemas como os teus\estes.

Bem-vindo(a) aos meus favoritos.