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Crónicas : 

ORDINÁRIO

 
 
Ser jogador de futebol é o sonho mais sepultado deste solo. Praticamente todo brasileiro vislumbrou a vibração de um estádio lotado após estufar as redes.

Pelo pequeno gramado de casa obtive minhas melhores atuações. Dribles de craque. Finalizações primorosas. Correndo e narrando aos berros a epopeia particular enquanto a bola rolava entre dois tijolos.

Das poucas coisas que consegui fazer com algum destaque na vida, jogar futebol foi uma delas. Derrubar coisas nas pessoas, outra. Mas até aquela altura conhecia apenas os meninos do bairro. Quase nenhum tinha aptidão para correr. Então, eis o brilhareco. Pois eu corria o tempo inteiro sozinho pelo quintal chutando qualquer objeto redondo. Existia uma vantagem.

Na hora de dividir os times era sempre o primeiro a ser escolhido. Sem muitos méritos por conta da média baixa. Ainda assim o primeiro. Até a chegada do Alex. Ele surgiu numa tarde de sábado qualquer, ao largo da disputadíssima peleja, limitou-se a observar. Fez como qualquer criança de dez anos quando quer algo: não disse uma palavra sequer.

Convidado a entrar para o adversário, começou a tocar a pelota aqui e acolá. Na minha cabeça a necessidade de marcar território, dribla-lo para mostrar quem mandava naquele campinho. E fui. Uma. Duas. Três vezes. Nada. Ele roubava a bola. Quatro. Cinco. Seis. Nenhum efeito. Os súditos começavam a notar o desequilíbrio na força. Foram necessárias poucas semanas para estabelecer-se a nova hierarquia. Eu já não era mais o destaque. Bem verdade, encaixava-se melhor para mim, o ordinário.

Outros Alex surgiram depois trazendo à tona a verdade inabalável sobre meu superpoder: ser mediano. Passar despercebido em meio a multidão. Aquele da voz baixinha quase inaudível dando a resposta certa para o problema enquanto outro repete em tom respeitável ganhando os créditos. Fosse como fosse compreendi, eu até poderia ser bom em algo, mas surgiriam melhores. Sempre. Destaque semelhante na vida consegui apenas quando derrubei refrigerante na camiseta branca da menina mais bonita da escola.


Lucas Luiz nasceu em Guararema, em 1991.
Continua em pé, embora carregue a sequela
da invisibilidade.  Nunca ganhou medalhas
ou qualquer prêmio. Iniciou publicando
crônicas no “Jornal D’Guararema” e depois
poemas no site de variedades “Guararema T...

 
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LuscaLuiz
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Enviado por Tópico
Branca
Publicado: 08/11/2018 14:42  Atualizado: 08/11/2018 14:42
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Mensagens: 2957
 Re: ORDINÁRIO
Foi um prazer ler teu texto.
A narrativa veio bem escrita e me prendeu atenção.
E, sim, ele traz uma lição... sempre vem outros melhores na vida.
Parabéns.

Branca.