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Poemas : 

"semper aeternum"

 
"semper aeternum"
 
"semper aeternum"







Memorar nos torna eternos e terrenos,
namorando namorai-vos...
Moraremos em nós até morrer se nos tornarmos intensos,
internos e mecenas
Uns nos outros, sem por fora nos murarmos de
Pedras/muros/tijolos/lanças
Que se quebram como peças,
metralha é apenas louça,
Tornai-vos memoráveis e dignos
e gloriosos e terrenos...heróis de Atenas, Tebas.

(Sejamos ternos qb, "semper aeternum"
herói de ar e penas senão homens de peias sem pernas)






Joel Matos 02/2019
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namastibet, aliás Joel matos

 
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Enviado por Tópico
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Publicado: 01/03/2019 15:19  Atualizado: 01/03/2019 15:28
 Re: "semper aeternum"
Seus clones favoritam seus textos, o que pelas regras do luso é proibido. E é claro, uma falta de ética absurda. Favor pautar-se pelas regras do site.








Enviado por Tópico
Joel-Matos
Publicado: 18/06/2019 10:11  Atualizado: 18/06/2019 10:54
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 Re: "semper aeternum" Homens de tomates
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A História de Portugal encontra-se repleta de actos de bravura e heroísmo que são demonstrados em situações que desafiam a lógica. O que tornou isso possível e com que armas se confrontou um tão escasso número de portugueses contra exércitos substancialmente superiores? O estudo comparativo do armamento utilizado esclarece as razões pelas quais foram assumidos certos riscos. Porém, a superioridade das armas lusas não explica tudo. Sem dúvida que a razão principal reside na coragem, qualidade, fé e convicção dos homens que defendiam as suas vidas, bem como a sua lusa identidade.

Uma obra que narra muitos casos extraordinários de coragem e heroísmo dos portugueses e dá a conhecer as armas de ambos os lados combatentes

«Não houve outra nação a par da portuguesa que, com tão poucos homens, tivesse escrito páginas tão significativas na História da Humanidade.»

Neste Livro:
- 600 portugueses defenderam a fortaleza de Diu num cerco de vários meses contra 70 galés turcas e um exército de terra de 23.000 homens. Após a perda de milhares de homens os turcos desistiram, considerando os portugueses invencíveis. No final do confronto restavam apenas 40 guerreiros portugueses capazes de lutar.
- Um piloto português veio da Índia para Portugal num pequeno barco a remos com uma só vela, tendo o Rei D. João III mandado queimar a minúscula embarcação para não constar que uma viagem destas fosse possível.
- Um português desafiou sozinho um exército turco de milhares de guerreiros para recuperar um capacete perdido que lhe tinha sido emprestado.
- Cinco portugueses tomaram uma galé turca de 150 guerreiros.
- Dois portugueses defenderam um baluarte em ruínas contra 700 turcos, impedindo a sua tomada.
- 120 portugueses conquistaram uma fortaleza defendida por um exército de 50.000 guerreiros.

O tema da influência portuguesa em Marrocos ultrapassa em muito os simples testemunhos edificados, assumindo aspectos pouco esclarecidos, por vezes mesmo desconcertantes, mas sobretudo pouco estudados.

Existe uma conotação do português com o inexplicável, com diversos mitos que fazem parte do imaginário marroquino, por razões mais ou menos compreensíveis, às quais não serão alheios os factos de se encontrarem enraizados em comunidades rurais, com base em histórias com origem suficientemente remota para darem largas à imaginação popular, mas de memória suficientemente recente para que os mais idosos as transmitam de geração em geração.

Podemos dizer que o mito do português L-Bartqiz, com surpreendentes referências a habitantes portugueses de grutas nos confins do deserto ou nas montanhas mais inacessíveis, a autores de pinturas rupestres em tempos imemoriais, a pontes construídas em locais longínquos que os portugueses nunca ocuparam, a prisões de cativos portugueses e até a uma condessa sedutora com pés de camelo, é tão fascinante para o senso comum marroquino, como o mito das mouras encantadas, dos piratas ou dos tapetes voadores é para o senso comum português.
O termo Bartqiz, também sendo comum escrever-se Bertkiz, Brtkiz, Berdqiz, Burtuqass ou mesmo Lburtayqiz, corresponde à adaptação da palavra português na Darija marroquina, dialecto Árabe de Marrocos, surgindo também na sua forma Árabe, Burtughali, sendo traço comum em todas elas o facto de as consoantes P e G não fazerem parte do alifato ou alfabeto Árabe, sendo normalmente substituídas pelo B e Q. Esta referência surge por vezes também nas formas de Nassari (Nazareno ou Cristão), Romi (Romano) ou Iroumi (termo usado pelos amazigh para a palavra Romi).

Por detrás deste mito do português estão razões de ordem cultural, mas também de ordem ideológica, que vários autores têm estudado, no sentido de entender a sua origem e a razão da sua persistência. Para todos eles, a marca do período colonial francês é uma constante, apesar de a entenderem de forma diversa. Para a investigadora Ana Neno Leite, existiu uma enfatização da presença portuguesa em Marrocos por parte do poder colonial francês, que se manifestou, por exemplo, na edição de muitos postais ilustrados com monumentos atribuídos aos portugueses, com o intuito de justificar a própria necessidade da existência do protectorado, de uma presença civilizadora, enquanto garante da modernidade e progresso num meio essencialmente pitoresco, segundo o termo utilizado pela própria autora.

“As imagens reproduzidas em série identificando o património português em Marrocos foram sobretudo as que podiam alimentar a ideia de um império glorioso e não a de um colonizador vencido. O discurso produzido nestes postais é de um domínio monumental europeu, face ao Marrocos pitoresco dos indígenas. O sentido de ser português como sinónimo de antiguidade que encontramos no imaginário de todos os marroquinos era já uma simbologia utilizada pelo Protectorado Francês. A representação pictórica exprime e articula as ideologias imperialistas, que conferem uma espécie de continuidade entre um passado colonial e a dominação europeia do momento moderno.”
Citado pela mesma autora, José Alberto Tavim vai mais longe, fazendo suas as palavras de Simon Levy sobre a generalização da coincidência entre os conceito de testemunho antigo e de português.

“Mas é verdade que, a outros níveis, se Portugal não é um “ilustre desconhecido,” é pelo menos um “ilustre pouco conhecido.” Ali estão os castelos e as cidades da costa abandonados, que todos os marroquinos associam de imediato aos “antigos” portugueses, expulsos pela força do Islão e dos poderes santificados de Marrocos. […] Simon Lévy chama a atenção que a “historiografia popular,” francesa e colonial, atribui aos portugueses tudo o que é anterior ao Protectorado (francês e espanhol), salvo evidentemente as mesquitas.” (TAVIM, 2005, p. 42)

Indubitavelmente, a referência mais desconcertante que qualquer português ouvirá em Marrocos é a da associação dos portugueses à vida nas cavernas, situação que, diga-se em abono da verdade, é bastante comum. No caso das grutas situadas na costa, como as Grutas dos Portugueses em Oualidia, o facto é compreensível, sabendo-se que Portugal ocupava importantes posições junto ao mar, e que as águas do chamado Mar das Éguas ou Golfo de Cádiz estavam pejadas de corsários e piratas portugueses. A situação deixa de fazer sentido quando essas referências são feitas a locais longínquos, situados no interior do país, em lugares tão ermos como o Alto ou Anti-Atlas.
No Alto Atlas central existem comunidades semi-nómadas que habitam sazonalmente grutas situadas em locais de difícil acesso, como em Assaka, no Vale de Ounila, entre Ait Benhaddou e Telouet, ou como em Aoujgal, na região entre Azilal e Imilchil. Estas grutas estão associadas a impressionantes celeiros de falésia, essenciais para a sobrevivências das tribos no Inverno, e motivo de guerras inter-tribais sangrentas.

No Anti-Atlas os celeiros fortificados ou agadires, plural igoudar, são também muito comuns. Os seus habitantes referem-se a eles, inexplicavelmente, como tendo origem portuguesa, chamando-lhes igoudar n-iroumine (agadires dos romanos) ou igoudar n-bertkiz (agadires dos portugueses).

“Na região de Bani e nas encostas Sul do Anti-Atlas, as ruínas de antigas construções situadas no cimo das montanhas e das colinas são também conhecidas pelo termo agadir. Estas são frequentemente atribuídas aos portugueses (berdqiz), aos cristãos/romanos (iroumiyne) (…) Robert Montagne, descreve (…) este postulado fazendo referência aos igoudar n’iroumine: Sabemos que uma lenda espalhada por todo o Atlas marroquino representa os primeiros habitantes das montanhas de Marrocos como cristãos que teriam ocupado os cumes de acesso mais difícil e utilizado as cavernas hoje inacessíveis”.

Parece consensual, na opinião dos vários autores consultados, que o advento da islamização é indissociável deste processo de identificação dos igoudar com os portugueses/cristãos, no sentido de constituir o marco entre duas épocas distintas. No entanto, a discrepância temporal entre esse momento de ruptura e a construção dos igoudar confere a esta situação um carácter ilógico, como fica patente nesta frase de Henri Terrasse citado por Salima Naji na sua obra Greniers collectifs de l’Atlas: patrimoines du sud marocain:

“Nenhum dos agadires que subsistem hoje parecem remontar a mais de dois ou três séculos. Mas em todas as artes berberes, a data absoluta do momento conta bem menos que a antiguidade da tradição que o prolonga”. (NAJI, 2006, p. 223)

Assim, esta conotação dos igoudar aos portugueses tem um carácter extremamente curioso, já que configura uma recusa em aceitar o legado passado, enquanto formador da própria identidade cultural e social. É como se tivesse existido uma descontinuidade na História, segundo a qual, a partir de determinado momento a realidade passasse a ser distinta, como se não existisse memória, quando “o edifício é um símbolo da identidade do grupo, ele focaliza uma memória, ele é entendido na sua relação com os homens e a cultura dos lugares”
Para Salima Naji, problema não é apenas a “referência constante” em relação à identificação de tudo o que é antigo com os portugueses, mas sobretudo a “amplitude dessa referência (…) Afirma-se por todo o lado com a mesma evidência que essas fortalezas arruinadas foram, antigamente, deixadas pelos portugueses”. (NAJI, 2006, p. 225)

“Como os antigos designavam todas as ruínas de celeiros situadas em locais altos como pertencentes aos “Portugueses” (lburteyqaz) a maior parte dos habitantes estão persuadidos que os portugueses habitavam antigamente o país, e encontram mesmo justificações técnicas para afirmar que se trata de construções feitas por estrangeiros.” (NAJI, 2006, p. 226)

Mas o mais surpreendente é a conclusão a que Salima Naji chega, já que o estrangeiro se torna antepassado e o antepassado se torna estrangeiro, sendo ambos um só.

“Assim, os celeiros n’irumin são aqueles onde a memória de uma prática se perdeu: não se armazena aí há muito tempo; por vezes não se sabe mesmo se se tratava de um celeiro. Já que as ruínas permitem identificar uma via central e compartimentos, explica-se que se tratava de lugares de habitação, de uma antiga aldeia. Um lugar que já não tem memória da sua comunidade é um celeiro ou uma ruína de “Portugueses” (…) Por um processo de “vingança simbólica”, os portugueses do século XV e XVI foram assimilados aos autóctones vencidos pelas conquistas muçulmanas. Esta tese fundamentada permite compreender o aparente paradoxo diante do qual estamos colocados. Os antepassados são exteriores: estrangeiros, cristãos, Portugueses. E no entanto, o antepassado é autóctone.”
Para além dos celeiros, outro tipo de ruínas são referenciadas como portuguesas, como a chamada Gara de Medouar, uma suposta prisão na região de Rissani, às portas do deserto, que é uma formação sedimentar do periodo Cambrico-Devoniano em forma de “U” (ROBERT-CHARRUE, 2006, p. 6-7), onde foi construído um muro de pedra com 6.00 metros de altura para o encerrar completamente e permitir o armazenamento de água da chuva. É também conhecida com Montanha Oca. A conotação com os portugueses advirá do facto de ser um local onde foi utilizada muita mão-de-obra escrava proveniente da Africa subsariana, que era posteriormente vendida a traficantes portugueses.

Na mesma região, entre o Vale do Draa e o Vale do Ziz, junto às Gargantas de Mharech, a Norte de Ramlia, existem ruínas de uma aldeia de portugueses, regularmente visitada como tal por grupos de turistas, cujo nome é Cidade Perdida de Ba Hallou. É uma povoação muralhada e abandonada, acessível pela pista que liga Zagora a Taouz, por Tafraoute Sidi Ali, Ramlia e Ouzina. A conotação do local como assentamento português é referida pelos habitantes da região, que asseguram essa sua origem.

Uma das referências mais comuns ao mito de L-Bartqiz é a das chamadas pontes dos portugueses. Existem várias, sobretudo na região de Fez-Meknés, assumindo-se como autênticos monumentos à nostalgia, situação que ainda alimenta mais o mito que já as envolve. Mustapha El Qadery, professor e investigador da Universidade Agdal de Rabat, que tem vindo a estudar o tema das pontes dos portugueses, enquanto marca do Mythe El Bartqiz, refere que a marca do período colonial está na génese desse mito, fazendo menção aos postais ilustrados enquanto meio propagandístico do mesmo:

“Os postais coloniais que ilustram as antigas pontes marroquinas são categóricos. Os edifícios são obra dos Portugueses. Um contra-senso, já que a maior parte das pontes citadas situam-se nas regiões onde os Portugueses nunca puseram os pés!” (EL QADERY, 2015, obra citada)

Para o autor, o objectivo do Protectorado é claro e pretendia afirmar que Marrocos não tinha capacidade de gerir o seu território e levar a cabo esse tipo de obras de engenharia, como que justificando a necessidade de um poder colonial que ajudasse o país a se auto-governar.

El Qadery afirma mesmo que “as pontes medievais de Marrocos são na sua maioria obra das dinastias que se sucederam no território do império xerifiano. Os Almorávidas, mas sobretudo os Almóadas e os Sádidas construíram pontes e aquedutos sem que a História lhes tenha testemunhado essa capacidade. Uma reabilitação abafada durante muito tempo pela falta de interesse nacional, mas igualmente pela propaganda colonial que não se ousa rever”. (EL QADERY, 2015, obra citada)

No entanto, o mesmo autor reconhece que “não há fumo sem fogo” e que as referências aos portugueses não são totalmente infundadas, mas é necessário dar-lhes o devido enquadramento. A explicação mais plausível é a da utilização de trabalho escravo português. A teoria de que as pontes foram construídas por cativos portugueses é a mais lógica e não é nova. Convém não esquecer que só na Batalha de Alcácer-Quibir foram aprisionados 16.000 portugueses, existindo várias referências à sua utilização em trabalhos forçados. Os prisioneiros da chamada guerra do corso eram sem dúvida alguma outra grande fonte de fornecimento de mão-de-obra para as empresas do Reino de Fez. A conotação das pontes com os portugueses poderá assim resultar da utilização de trabalho escravo português, mas também serem exemplos de um estilo importado da arquitectura portuguesa, ou seja, serem construídas à portuguesa.

Esta importação de estilos, ou adopção de tecnologia mais eficaz aconteceu em vários domínios, como por exemplo ao nível das fortificações, como é exemplo o Borj Nord de Fez, fortaleza construída no século XVI por Ahmed El-Mansour de acordo com o modelo português, com recurso a cativos portugueses, quem sabe se projectada por um português.

Otmane Mansouri refere a este propósito:

“Numerosos soldados portugueses foram feitos prisioneiros durante as batalhas contra os exércitos reais portugueses. Tendo em conta o seu número, os portugueses apenas resgatavam os cativos mais nobres. Os que ficavam tornavam-se escravos. Entre esses soldados, havia homens que obtiveram responsabilidades graças às suas competências, que se converteram ao Islão. Um deles, Jaoudar Pacha, célebre oficial do exército Sádida, foi inclusivamente enviado para conquistar o império Songhai do Mali para explorar o ouro do Níger.” (MANSOURI, 2011, p. 33)

El Qadery também refere que os portugueses seriam “construtores, mas cativos (…) Nessa época, o rei Sádida Al-Mansour fizera muitos prisioneiros europeus e utilizou-os para grandes obras como pontes assim como outras construções de carácter militar visando facilitar a mobilidade do exército marroquino”
Inúmeras pontes portuguesas estão referenciadas, como as pontes de Khénifra, Kasbah Tadla e Boulaouane sobre o Oued Oum Er-Rbia, a ponte de Meknés sobre o Oued Boufekarane, destruída em 2002 por uma enxurrada, a ponte de Fez sobre o Oued El-Ahdam, a ponte de Lalla Mimouna sobre o Oued Fouarat, a ponte de Tânger sobre o Oued Halk, a ponte de Mohamedia sobre o Oued El-Maleh, demolida para dar lugar a uma nova ponte, a ponte de Douar Njat sobre o Oued Njat, uma ponte no bairro Seffarine em Fés El-Bali sobre o Oued Fés ou as famosas pontes de Sefrou sobre o Oued Aggai.

Ironicamente, apesar de tantas pontes construídas, os portugueses não construíram uma única para seu uso, já que a ocupação portuguesa da costa de Marrocos se confinava a praças e fortalezas de forma hermética, isolada, sem ligações regulares com o exterior com base em rotas comerciais, estabelecendo as comunicações entre si por via marítima.
Relativamente aos fortes construídos à portuguesa, o Borj Nord de Fez não será o único exemplo. As duas fortalezas existentes em Larache, o Forte Laqbibat ou das Cúpulas e o Forte Laqáliq, ou Castelo das Cegonhas, apesar de não terem sido construídas pelos portugueses, que nunca ocuparam a cidade, são conotadas com a presença portuguesa, sendo o primeiro inclusivamente conhecido como o Forte Português.

Segundo Filipe Themudo Barata as duas fortalezas que hoje existem em Larache foram construídas pelo sultão Ahmed El-Mansur Ad-Dahbi após a Batalha de Alcácer Quibir de 1578, e tiveram mão portuguesa, já que foram desenhadas por um italiano ao serviço de Portugal, de nome João Matteo Benedetti, prisioneiro nessa batalha, e construídas por cativos de portugueses de Alcácer Quibir:

“Segundo todos os testemunhos o indicam e as formas e técnicas construtivas o comprovarão, estes fortes não só terão sido projetados por um engenheiro italiano, trabalhando para o rei português e que terá ficado aprisionado em Alcácer‐Quibir, como também a maior parte da mão‐de‐obra terá sido fornecida, logo em 1578, pelos prisioneiros portugueses da batalha, que, aliás, terão também sido os seus primeiros ocupantes. Ainda hoje, muitos visitantes e mesmo autóctones chamam à primeira dessas fortificações o Castelo Português.”
As prisões dos cativos da guerra do corso são outro elemento referenciado com a presença e influência portuguesa, não apenas pelos milhares de prisioneiros portugueses que aí permaneceram, como por aspectos menos esclarecidos. Algumas delas estão associadas a histórias e mitos, como a Habs Qara de Meknés, a Prisão Portuguesa de Anafé ou a já referida Gara de Medouar.

Talvez a mais conhecida prisão de Marrocos seja a Habs Qara de Meknés. Projectada por um arquitecto português cativo de Mulay Ismail, de nome Cara, era de tal modo extensa que podia acolher 50.000 cativos simultaneamente. A Habs Qara é um imenso labirinto que se desenvolve num raio de cerca de 7 km e se estende por debaixo de toda a cidade de Moulay Ismail. Com o terramoto de 1755 grande parte arruinou-se. O acesso ao seu interior faz-se actualmente apenas a uma zona muito restrita, por razões de segurança e controlo, já que é um espaço demasiado extenso.

Segundo consta, o arquitecto Cara aceitou fazer o projecto a troco da sua libertação. Afinal a libertação nunca aconteceu e Cara fez o projecto à borla, acabando por morrer na prisão que desenhou. Não existem fontes credíveis que falem deste arquitecto Cara, a não ser referências isoladas e que vão passando de boca em boca sem uma base concreta. Constitui assim um verdadeiro mito!

Mas a prisão portuguesa de Anafé será sem dúvida o exemplo mais intrigante sobre a conotação entre lugares de encarceramento e a presença portuguesa.

Portugal nunca ocupou Anafé, tendo arrasado a cidade em 1468, a qual ficou destruída até ao terramoto de 1755, sendo posteriormente reedificada pelo Sultão Sidi Mohamed Ben Abdallah. Durante esse período foi ocupada precariamente por tribos nómadas e por corsários, que aí instalaram uma prisão, que ficou conhecida como Prisão Portuguesa. Aliás, a doca existente frente ao local da antiga prisão ainda era conhecida há poucos anos como doca dos portugueses.

Jean-Luc Pierre, confirma que Casablanca nunca esteve de facto totalmente abandonada. De acordo com as suas investigações, o Almirante Holandês Laurens Reael descreve assim a cidade em 1627:

“El-Anfa é uma cidade morta que parece no entanto ter sido pujante (…) nós chegamos lá no momento em que uma tribo de Árabes acampava nos seus arredores. Gente sem morada fixa, que deambulam através do país (…) estavam em grande número na praia, por detrás das muralhas e sobre as torres”. E continua: “Existe uma mesquita, alguns edifícios são mantidos como alojamentos sazonais (…) os corsários de Salé têm aqui uma enseada secundária e uma prisão acolhe cativos europeus.” (PIERRE, 2002, obra citada)

Segundo Jean-Luc Pierre, foram encontradas inscrições com caracteres latinos nas colunas da prisão.

A chamada Prisão Portuguesa ou Prisão de Anfa, era uma construção de forma rectangular, adossada ao pano Norte da muralha da Ville Ancienne de Casablanca. Apresentava uma nave de dimensões apreciáveis, com uma estrutura interior constituída por um conjunto de arcos apoiados em colunas, em pedra calcária, suportando uma cobertura plana. Foi demolida no âmbito das obras do Plano de Urbanização de Casablanca de Henri Prost, em cujos documentos se referencia o imóvel como Prisão Portuguesa (NEIGER, 2014, obra citada). A demolição da prisão em 1916 foi acompanhada do desmonte e transporte das suas colunas e arcos para o então Parc Lyautey, actual Parc de la Ligue Arabe, onde o arquitecto Laprade as integrou numa pérgola. (PLAZA, 2014, obra citada)

As colunas e os arcos da prisão transformados em pérgola permanecem anónimos no Parc de la Ligue Arabe, com as inscrições gravadas pelos cativos portugueses, lembrando aos poucos Bidaouis (nome dos habitantes de Casablanca) que conhecem história da Prisão Portuguesa, que em tempos idos, prisioneiros portugueses sofreram o castigo do cativeiro à sua sombra.

Um local referenciado como de presença portuguesa é a Kasbah de Agourai, situada a Sul de Meknés. Reza a lenda que o sultão Mulay Ismail contava entre as suas 500 mulheres com uma mulher portuguesa que, ao passar pelo local viu uma fonte e chamou-lhe água do rei, designação que deu origem ao topónimo Agourai, facto que é, no entanto, negado por diversos estudiosos marroquinos que defendem que o termo agourai é seguramente um termo Amazigh. Nesse local Mulay Ismail mandou construir uma Kasbah, a pedido da sua mulher, para acolher cativos portugueses.

Agourai ou Água do Rei, o facto é que o local é identificado com a presença de famílias descendentes de cativos portugueses, que se terão estabelecido aí. Na revista Le Maroc en Mutation, referenciada na bibliografia, pode ler-se que “Fundada pelo Sultão Mulay Ismail, a cidadela de Agourai assegurava funções múltiplas: (…) lugar de encarceramento de piratas (vários descendentes de portugueses, supostamente, vivem ainda a Agourai com um nome arabizado)”. (CHATTOU e GONIN, 2010, p. 43)

De entre esses nomes figura o de Ouled Bertkhiz, ou filhos dos portugueses. Esta história é relevante no sentido de se fazer uma referência aos muitos prováveis portugueses que se terão convertido e integrado na sociedade marroquina, fossem cativos, fossem desertores, fossem degredados enviados para obter informações.

Mas não foi só na guerra que o Mito português perdurou. Foi também no amor, como prova a lenda de Aicha Kandicha. Nos tempos da ocupação da costa de Marrocos pelos portugueses, há notícias do aparecimento nas Praças-Fortes de uma mulher misteriosa e extremamente bela, que seduzia, enfeitiçava e matava os homens com quem se cruzava. Essa mulher chamava-se Aicha Kandicha, a Condessa.

Reza a lenda que Aicha Kandicha era uma condessa portuguesa que se apaixonou por um rico comerciante de Safim, para onde foi com o objectivo de se casar com ele. Não se sabe se o casamento foi consumado ou se foi rejeitada, mas a Condessa converteu-se ao Islão e tomou o nome de Aicha, tendo por hábito passear-se só durante a noite, sem véu e vestida de branco, seduzindo e enlouquecendo os homens que se cruzavam com ela. O nome Kandicha seria assim a adaptação de Condessa na Darija marroquina. Outra versão é a de que Aicha era uma jovem berbere que viva com a sua família na zona de Jorf Lasfar, nos arredores de Mazagão. Os portugueses teriam exterminado a sua tribo e violado Aicha, que passou a utilizar a sua beleza para seduzir os soldados e os atrair para emboscadas. O mito da mulher demoníaca teria, nesta versão, sido construído pelos próprios portugueses para atemorizar e por de sobreaviso os seus soldados.

Condessa portuguesa ou moura encantada, Aicha tornou-se uma lenda e hoje faz parte do imaginário marroquino, um demónio feminino que persegue, atemoriza e enlouquece os homens, receosos de com ela se encontrarem quando andam sós na escuridão da noite, sabendo que serão irremediavelmente seduzidos por essa beldade, que amaldiçoa para toda a vida os que caírem na sua tentação. É também uma espécie de papão que castiga as crianças malcomportadas. A figura de Aicha não é apenas uma lenda, já que tem um papel moralizador em termos sociais, incutindo nos homens o temor de sair à noite e o medo das consequências do adultério, já que aquele que trair a sua mulher com Aicha verá a sua vida conjugal destruída, marcada pela discórdia, impotência, doença e esterilidade. É também uma figura que exprime recalcamentos e fantasmas masculinos, ligados à figura da mãe dominadora e castradora, da irmã mais velha ou da mulher emancipada. É o mito da mulher ardente, da amante ideal que deseja e que procura o prazer. Para as mulheres, Aicha simboliza a rival invisível.
Mas para o senso comum Aicha é sobretudo um demónio feminino, sedutor, enfeitiçador, que enlouquece, mata e devora as suas vítimas e a imagem de Aicha altera-se de acordo as várias regiões. Junto à costa é uma sereia, no interior do país é um demónio com patas de camelo, sendo também comum atribuir-lhe patas de cabra, de burro ou de galinha. A sua beleza está de acordo com o ideal de beleza marroquino, com a pele de uma brancura incrível, olhos com forma de amêndoa, lábios cor de sangue e cabelos negros, soltos até às ancas.

O tema de Aicha Kandicha parece ser inesgotável e controverso, como refere El Qarouni. “Seja o que for que se diga, Aicha Kandicha fica como uma figura indescritível e enigmática do nosso património cultural oral. Ela será sempre um tema de actualidade e controvérsia que alimentará especulações fantasistas e povoará o nosso imaginário popular colectivo.” (EL QAROUNI, 2013, obra citada)

Para nós, portugueses, fica a ideia de que a nossa presença em Marrocos desperta nesse país tanta curiosidade e mistério como Marrocos desperta em nós, como mostra a história desta portuguesa encantada, seja ela a Condessa de Mazagão, de Safim ou de Arzila.

Aicha Conticha

A armada deixa Arzila. Sobre as naus

Brilham uma última vez as armas portuguesas.

Quando os moiros chegarem verão apenas

Uma mulher de negro pelas ruas.

Não resta mais de Portugal: só esse luto

Na cidade deserta e abandonada.

Talvez um amor antigo ou um morto querido

Talvez a luz o branco o sul

Talvez o puro prazer de olhar.

Outros amaram Arzila mas não tanto

Que tivessem de ficar só por amor.

Ela só quis Arzila por Arzila.

Os moiros lhe chamarão Aicha Conticha

E enquanto a armada se despede lentamente

Ela só é senhora da cidade.

De negro está vestida

Ela só na cidade abandonada.

E nunca mais Arzila será perdida

E nunca mais Arzila será tomada.

Poema de Manuel Alegre (ALEGRE, 1989, p. 239-240)