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Poemas : 

genitivo

 
que diurna condição é esta,
que me conduz à luz dos bosques?
ao momento em que nascemos
um do outro?

olho à volta
sempre foi a minha única forma de olhar
para dentro

temo os umbrais de fogo
que são os teus
cabelos nos meus lençóis

devolve-me quem eu fui
à virtude de ser azul
como uma faixa nua de lua nova

(na verdade antes
de ti nunca escrevia com cores)

sabes que não passo de mais um verso
pesado lento pretensioso deserdado
pelo vento

sabes que estou a um fôlego
de distância mas
nunca tive muito jeito para respirar

o estertor do tempo veio dar à costa
é urgente estarmos juntos
é urgente separarmo-nos

tu celebras o temporal
eu sigo pelas falésias

 
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boxer
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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 05/03/2019 19:12  Atualizado: 05/03/2019 19:12
 Re: genitivo
É urgente estarmos juntos
É urgente separarmo-nos

Tu celebras o temporal,
Eu sigo pelas faĺésias


Muito lindo!
Grata pela partilha

Enviado por Tópico
karinna*
Publicado: 06/03/2019 01:30  Atualizado: 06/03/2019 01:30
Super Participativo
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 Re: genitivo
*aprecio como pontuas o sentimento em imagens poéticas soberbas.
Abraço de admiração
K*

Enviado por Tópico
Jmattos
Publicado: 06/03/2019 10:42  Atualizado: 06/03/2019 10:42
Colaborador
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Mensagens: 16211
 Re: genitivo
Boxer

devolve-me quem eu fui
à virtude de ser azul
como uma faixa nua de lua nova

(na verdade antes
de ti nunca escrevia com cores)


Gostei imensamente!
Beijos!
Janna

Enviado por Tópico
boxer
Publicado: 08/03/2019 11:27  Atualizado: 08/03/2019 11:27
Colaborador
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Mensagens: 748
 Re: genitivo
.
É tão bom quando os amigos nos visitam para deixar uma palavra amável de incentivo!
Muito obrigado e até ao próximo poema.

Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 11/03/2019 18:09  Atualizado: 13/03/2019 09:31
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Mensagens: 1599
 Re: genitivo
Genitivo

Tem origem em.
O sujeito poético começa neste teu poema com várias questões do foro íntimo. Ou talvez sejam apenas duas que parecem mais.
O adjectivo “diurna” para condição, soou-me a exótico, algo bastante comum na tua linguagem.
Fui inclinado para lhe dar expressão de frequência. Como referência pessoal a período do dia (minha) contrário a nocturno, pareceu-me um pleonasmo se conjugado com a “luz” do verso seguinte. A luz do bosque já me retira (e muito) a força dessa luz, como se o pleonasmo se anulasse.
Como nos primeiros dois versos já me tinha intrigado com o, digamos, anti-nocturno, fui ao dicionário ler que outros sentidos o adjectivo pode ter (gosto muito).
No Priberam, a quinta e última hipótese é “livro de orações” figuração eclesiástica. Como sei-te muito religioso (permite-me a ironia) percebi logo que podia ter algo a haver.

“ao momento em que nascemos
um do outro?”
Não há dúvida que surgem expressões de relação muito intensas nestes versos.
O momentum no ponto de vista físico, e como palavra anglo-saxónica, é a força impulsionadora ou de propulsão. Ou unidade de tempo pré-sistema internacional (aproximadamente 90 segundos). Ou ponto de partida.
No sujeito poético, cria uma dinâmica muito bela de interdependência.
Costumo dizer que os meus filhos me ensinam a ser pai.

A segunda estrofe parece querer responder a estas perguntas. Tenho de citá-la na integra. Com a sua simplicidade tem algo de aforístico, mas também de muito profundo e universal.
“olho à volta
sempre foi a minha maneira de olhar
para dentro”
Empatia. É uma arte difícil. Pormo-nos no lugar dos outros.
Ou talvez seja um insight grandioso que explique que, a reflexão, o pensamento, nada mais é que a repetição dos outros, levando-nos erradamente a nos acharmos únicos, quando na realidade, somos todos o produto de aculturações e hereditariedades (biológicas e sociais/familiares).
O olhar como expressão física que explica o interior, metafísico.

Seguindo as estrofes seguintes, o tom penumbroso dos bosques surge com um enorme peso.
Porque o sujeito poético pede que lhe seja devolvida uma identidade perdida no tempo, “o que fui”.
A “faixa nua da lua nova”, um elemento de anti-luz peculiar, porque leva o leitor a pensar nas resplandecentes luas cheias, iluminando a noite. Curiosa a rima.
O azul quase negro (curioso haver uma cor com o nome de “azul da meia-noite”) como prece, ainda que com a pureza da nudez, tem um lado perturbador.

“(na verdade antes
de ti nunca escrevi com cores)” que belo.

Depois começam os “sabes”.
A confissão tem sido uma característica deste poema.

Acho fantásticas as duas estrofes. A adjectivação negativista, onde o sujeito poético parece entrar num circo para se ir ver ao espelho. Então, entra numa sala com espelhos que o deformam.
A ligação do “vento” que o deserda com o “fôlego” da estrofe seguinte é muito inteligente.
O tom mantém-se, com um cómico “nunca tive jeito para respirar”.
Inspiração tens muita (pelo menos em qualidade), expiração, é este Genitivo. Ou será irónico? Para mim, escolho mais o último…
O "estertor", como dificuldade respiratória, é mais um exemplo exemplar de como seguir um fio condutor ao nível da ideia.

O tempo marca o fim do poema.
A urgência é um sinal dos tempos, precisamente quando a noção de intemporalidade desvanece.

A inevitabilidade acontece:
“Estarmos juntos” e “separarmo-nos”, numa relação que o sujeito poético tem estabelecida.
Como se dum casamento indivorciável se tratasse.

Eu diria:

O temporal celebra-te…

Abraço irmão


Enviado por Tópico
ZESILVEIRADOBRASIL
Publicado: 11/03/2019 19:28  Atualizado: 11/03/2019 19:29
Membro de honra
Usuário desde: 22/11/2018
Localidade: RIO - Brasil
Mensagens: 227
 Re: genitivo
após a dissertação magistral do Beça; deixo apenas n registro do meu olha, não arriscarei qualquer descaminho e desenlace, pois;

Como se dum casamento indivorciável se tratasse.

e assim é essa poesia. cumprimentos.

meu abraço caRIOca