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Poemas : 

Estrela Matutina.

 
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ESTRELA MATUTINA





lá no campo eu me engalfinhava
ficava até se apagar minha estrela
querendo sê-la
numa estorinha de ninar

quem me esperava era dona Quirina
mulata cara de menina
messalina nos confins do Pará

me enchia de macaxeira
de açaí pra pele brilhar
pra agradar painho
de anel e cordão de ouro
de terno branco
de dentes podres encapados
do chapelão cobrindo-lhe a calvície
que desde cedo eu e mainha
fazia no seu colo sentar

quando já mocinha
me tocava duma maneira
que tenho vergonha de contar

e os machos da fábrica
vinham com presentinhos sem valor
meu picuá lotar
e com eles eu punha-me a rolar

depois
eu ia até a lagoa
nadava com um peixe
pintado no rosto
de vermelho do urucum
do roxo da amora madura
de jenipapo, enfim
com fé de um dia
chegar ao mar

até a hora que mainha
subia na escarpa
gritava pr'eu ir trabalhar

"menina berebenta
vê se não empaca
vá catar os ossos do boi morrido
na clareira da mata

vê se estica esse cabelo
escova a boca com sal no dedo
tem que sair lindos santinhos desses ossos

passa vinagre no arranhão da mão
não fica abestada
querendo fugir do lar".

"mas mãe
a dor mais doída
é minha própria vida
sou moleca selvagem
pé rachado
de correr livre no estradão".

e brincando com os moleques serelepes
lá no canavial eu vomitei
senti uma zonzura estranha
pra mainha eu contei

minha barriga foi crescendo
uma vida dentro de mim nascendo
e à luz uma menina eu dei

pus-lhe o nome de Estrela Matutina Luz e Sol
filha cabocla da terra vermelha
das campinas de ventos brandos
que cresceu e se foi sem adeus
ser minha estrela nas ruas de Belém
e nem se lembra mais de mim
do meu cheiro
dos nossos banhos de alecrim

nem se lembra
mas vou lembrando
que minha vida se foi assim
ao redor
da usina desativada
envelhecida enferrujada

e desta beira estrada
com minha trouxa na cabeça
canto e choro
porque ninguém chora por mim

painho morreu duelando com seus filhos meio-irmãos
mainha a carrocinha veio buscar
ela dorme bem perto do rio
se foi
esperando que a lenda do boto
que me contava às noitinhas
se torne realidade

"estrela matutina me guia
há tanto tempo
que o tempo me definha,
há tanto tempo
que nem me lembro
que fui menina."










***


.......................................................
tudo que provir, advir
há de vir, há de vir...


Rehgge



 
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poemus
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Enviado por Tópico
poemus
Publicado: 16/03/2019 07:27  Atualizado: 16/03/2019 07:27
Da casa!
Usuário desde: 01/05/2018
Localidade:
Mensagens: 362
 Re: ESTRELA MATUTINA.

Enviado por Tópico
IsabelRFonseca
Publicado: 16/03/2019 09:40  Atualizado: 16/03/2019 09:40
Colaborador
Usuário desde: 25/05/2013
Localidade: Algures em Portugal
Mensagens: 2687
 Re: Estrela Matutina.


Pois...
é vida real de muitas meninas em todo mundo


um abraço poeta poemus


Enviado por Tópico
Juvenal Nunes
Publicado: 25/03/2019 09:38  Atualizado: 25/03/2019 09:38
Da casa!
Usuário desde: 28/07/2013
Localidade: Douro Litoral
Mensagens: 423
 Re: Estrela Matutina.
Interessante poema que evoca uma realidade social expresso em termos que revelam a riqueza variada da lusofonia.

Juvenal Nunes


Enviado por Tópico
Volena
Publicado: 25/03/2019 11:41  Atualizado: 25/03/2019 11:41
Colaborador
Usuário desde: 10/10/2012
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Mensagens: 12396
 Re: Estrela Matutina. P/poemus
Muito interessante e penoso na sua verdade, gostei muito, abraço Vó