https://www.poetris.com/
 
Poemas : 

Certidão de procedência

 
Certidão de procedência
 





Certidão de procedência


Qualquer coisa em mim se parece agora mais comigo,
Pálpebras de besta, coração de gente,
Sensação de vácuo omnipresente, amargo
De boca agreste, ombros do tamanho dum touro,

Qualquer coisa em mim pressente que morro,
Que tudo seja fantasia, asseguro que não mudo,
Não mudo as pálpebras para o peito,
Não me iludo com o que antevejo,

Desligo o passo, do real faço absurdo,
Bocejo quanto a boca pode, como forasteiro,
Procedo a uma aceitação das coisas leves,
Indiferente aos valores, nada há que explicar

A um defunto que seja lúcido quanto o ferro
E saiba a sangue ou o prazer que existe
Na dor caseira, hoje é a lembrança que penetro,
Que magoa, plantei os olhos numa maçã

Gamboa, elogio a loucura, gabo-me ao metro
De não ser do que padeço mas da cura,
Vivo com impressão que não me pertenço
Pálpebras de besta, coração de mula,

Em negrito, “New Roman” que mais se pareça
Comigo, salário mísero e sem remédio,
A gula é privilégio da embriaguez de eunucos
E eu procedo do lado duro, sobretudo domino-me

Pela preguiça …


Jorge Santos 04/2019
http://namastibetpoems.blogspot.com






 
Autor
Jorge-Santos
 
Texto
Data
Leituras
353
Favoritos
2
Licença
Esta obra está protegida pela licença Creative Commons
24 pontos
4
2
2
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Enviado por Tópico
Joel-Matos
Publicado: 01/04/2019 20:39  Atualizado: 01/04/2019 20:39
Subscritor
Usuário desde: 24/02/2017
Localidade:
Mensagens: 1786
 Re: Certidão de procedência.
Open in new window


Enviado por Tópico
Namas-tibet
Publicado: 16/04/2019 16:00  Atualizado: 16/04/2019 16:17
Colaborador
Usuário desde: 17/07/2018
Localidade:
Mensagens: 657
 Dama da Luz ou "O que eu sou"






Notre-Dame de Paris encontra-se para além do comum entendimento religioso, conventual, monástico e conceitual das religiões cristãs e católica, tem raízes num ideal mais ancestral e mesmo atribuível a um paganismo saxónico e apesar da dedicação ao espírito santo em forma de ave branca e mulher fabulosa e esotérica, um pouco como as idealizadas amazonas guerreiras, mais pacífica todavia mas e ainda a própria natureza primeva, o universo rugindo e aspergindo luz branca, a lua das proto-religiões que fundamentaram o homem caçador recolector e lugar da magia que sempre rodeou e emanou desta ilha no centro da cidade de Paris e do continente Europeu para o mundo e para o universo e aqui por baixo muito bem dito por Teixeira de Pascoaes .......













O Que Eu Sou


Nocturna e dubia luz
Meu sêr esboça e tudo quanto existe...
Sou, num alto de monte, negra cruz,
Onde bate o luar em noite triste...

Sou o espirito triste que murmura
Neste silencio lúgubre das Cousas...
Eu é que sou o Espectro, a Sombra escura
De falecidas formas mentirosas.

E tu, Sombra infantil do meu Amôr,
És o Sêr vivo, o Sêr Espiritual,
A Presença radiosa...
Eu sou a Dôr,
Sou a tragica Ausencia glacial...

Pois tu vives, em mim, a vida nova,
E eu já não vivo em ti...
Mas quem morreu?
Fôste tu que baixaste á fria cova?
Oh, não! Fui eu! Fui eu!

Horrivel cataclismo e negra sorte!
Tu fôste um mundo ideal que se desfez
E onde sonhei viver apoz a morte!
Vendo teus lindos olhos, quanta vez,
Dizia para mim: eis o logar
Da minha espiritual, futura imagem...
E viverei á luz daquele olhar,
Divino sol de mistica Paisagem.

Era minha ambição primordial
Legar-lhe a minha imagem de saudade;
Mas um vento cruel de temporal,
Vento de eternidade,
Arrebatou meu sonho! E fugitiva
Deste mundo se fez minha alegria;
Mais morta do que viva,
Partiu comtigo, Amôr, á luz do dia
Que doirou de tristêsa o teu caixão...
Partiu comtigo, ao pé de ti murmura;
É maguada voz na solidão,
Dôce alvor de luar na noite escura...
E beija o teu sepulcro pequenino;
Sobre ele vôa e erra,
Porque o teu Sêr amado é já divino
E o teu sepulcro, abrindo-se na terra,
Penetrou-a de luz e santidade...
E para mim a terra é um grande templo
E, dentro dele, a Imagem da Saudade...
E reso de joelhos, e contemplo
Meu triste coração, saudoso altar
Alumiado de sombra, escura luz...
Nele deitado estás como a sonhar,
Meu pequenino e mistico Jesus...
Lágrimas dos meus olhos são as flôres
Que a teus pés eu deponho...
Enfeitam tua Imagem minhas dôres,
E alumia-te, ás noites, o meu sonho.

Todo me dou em sacrificio á tua
Imagem que eu adoro.
Sou branco incenso à triste luz da lua:
Eu sou, em nevoa, as lagrimas que choro...

Teixeira de Pascoaes