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Crónicas : 

ASSOMBRAÇÃO

 
 
Ouvir conversas adultas quando desautorizadas sempre foi dos grandes dons inerente ao dna da criança. Amedrontar-se com esses mesmos relatos, sem sombra de dúvidas, o maior.

Nessas elucubrações proibidas, cujo o impedimento apenas motiva ainda mais encontrar meios de burlá-lo; minha mãe narrou sobre uma mão surgida do chão chamando-a. Cinco dedos flutuantes de unhas feitas fazendo o movimento – sabe-se lá como – pedindo aproximação. Minha mãe, dentro da coerência esperada, afastou-se o máximo possível. Tremendo.

Foi chocante. Primeiro me dar conta da incrível durabilidade desse esmalte, post-mortem, de eficácia comprovada. Embora eu não pudesse precisar a pré-existência de testes em pias entupidas de louças. Mas tratava-se da mãe. E mães não tem permissão para mentir. Essa prerrogativa está autenticada em sete vias no cartório celestial. Qualquer pequenino de três anos já tem consciência disso. Quanto mais eu, no auge dos meus sete anos, pronto para guerrear contra extraterrestres.

Porque dos medos colossais, apenas a ideia de fantasmas fazia-me paralisar, ainda mais sendo apenas a mão de uma mulher. Como determinar canhota ou destra? Mesmo eu tendo outras obrigações, como defender as pessoas dos alienígenas, a reflexão metafísica sobre a ação da retirada das cutículas fazia-se necessária.

Os marcianos poderiam estar próximos, bem verdade. Porém, toda noite punha-me em guarda na cama, entre o pai e a mãe, observando o vitrô, procurando qualquer mínimo sinal avermelhado (luzes de disco-voadores são sabidamente vermelhas por algum motivo: combustível ou apenas para facilitar a visualização dos nativos.) E nada.

Seres provenientes de outros planetas têm pequeno porte. Eu poderia encará-los. Agora convites de mãos aleatórias ficavam em outro departamento.

Então, naquele anoitecer me coloquei mais cedo na cama, com dois cobertores, acaso surgisse a necessidade de defesa mais incisiva como, por exemplo, cobrir a cabeça.

Infelizmente, a invasão nas horas subsequentes, faria o planeta perder um de seus guerreiros. Entretanto, segurança em primeiro lugar. E ao que parece deu tudo certo. A Terra permanece intacta. Virgem de visitas alienígenas. Exceto se considerar o testemunho das vacas.



Lucas Luiz nasceu em Guararema, em 1991.
Continua em pé, embora carregue a sequela
da invisibilidade.  Nunca ganhou medalhas
ou qualquer prêmio. Iniciou publicando
crônicas no “Jornal D’Guararema” e depois
poemas no site de variedades “Guararema T...

 
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LuscaLuiz
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Enviado por Tópico
Joel-Matos
Publicado: 26/06/2019 12:10  Atualizado: 26/06/2019 12:10
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 Re: ASSOMBRAÇÃO artística
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