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Poemas : 

Uma letra sentada

 
Procuram-me os segredos
contidos à solta,
que correm como as crianças
e os rios.

Inguardados.

Vêm-me falar
com a emergência dos provérbios,
de dentro da sua prisão.

Ao ouvido que cedo
murmuram na voz do grito,

oiço.

Impressos em mim,
sou o seu corpo e o seu sangue,
pergaminho sem penitência.

Sob juras
repito:

Assim como todos os dias o mundo acaba
cada um é de festa.
Feliz dia novo!


A minha pátria é a língua portuguesa.
Bernardo Soares

Saibam que agradeço todos os comentários, de coração...
Por regra não respondo.



 
Autor
Rogério Beça
 
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Enviado por Tópico
Margô_T
Publicado: 27/01/2020 10:10  Atualizado: 27/01/2020 10:10
Da casa!
Usuário desde: 27/06/2016
Localidade: Lisboa
Mensagens: 281
 Re: Uma letra sentada
“Uma letra sentada” aguardando um novo dia?

Adoro a primeira estrofe!
Rebeldes, os “segredos” dispersam-se por aí, “contidos à solta”, fugindo do nosso mais requintado escrutínio… como crianças correndo nos campos ou rios escorrendo neles.

O “contidos”, remetendo para uma implosão, para algo interior, para algo que se dobra sobre si mesmo e se esconde, contrasta com o “à solta” – com a liberdade de movimento, com a correria.
E os segredos são isso mesmo: algo interior, oculto perante olhares alheios, que, todavia, se escapa dos outros mantendo a sua exteriorização deles, a sua autonomia, a sua impenetrabilidade. Por isso o segredo desta estrofe está nesta fuga que me faz, e neste desejo que me desperta em alcançá-la – ou, pelo menos, antevê-la, enquanto se esgueira.

Mas que segredos se procuram? Os “Inguardados” (delicioso o neo-adjectivo…)
Os segredos que por aí andam à solta, mas que nos dão alguma possibilidade de lhes atingir o cerne… já que um segredo demasiado “hard to get” seria um saque demasiado utópico para valer sequer o esforço - é preciso haver algo no segredo de tangível… assim como é preciso haver algo num poema de decifrável para que não nos sintamos a olhar para uma opacidade árida, repleta de nós.

A sabedoria dos provérbios está nesses segredos inguardados, nesses segredos que, “dentro da sua prisão”, do que ocultam, possuem possíveis lições. Estes segredos dialogam connosco (“Vêm-me falar”), aproximam-se do nosso ouvido expectante, e nele murmuram gritando (“murmuram na voz do grito”… belo verso!)…
Gritam porque o inguardado neles se quer revelar, porque têm a “emergência dos provérbios”, porque há um ouvido disposto a decifrá-los.

Do ouvido, o segredo passa para o que se é, o modo como se sente, o modo como se vive (“Impressos em mim,/sou seu corpo e o seu sangue”), para esse “pergaminho” que originou este poema, dado que, apesar das “juras”, resolveu contar o segredo dos segredos sorrateiros: a mensagem de que “assim como todos os dias o mundo acaba”, cada novo dia é uma possibilidade de recomeço. O fim e o início das coisas andam de mãos dadas a cada dia… cabe a cada um de nós escolher a mentalidade que melhor nos serve para cada uma das situações.

Gostei bastante!
Os dois últimos versos acho que poderiam estar um pouco mais elaborados para não “quebrarem” a força que vem em ascendente do poema.


Beijinhos e “feliz dia novo!”