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Poemas : 

poros

 
o pai no banho
usava sempre
sabão clarim

não valho mais
que o pano-cru
das lavadeiras de mundão


tenho uma aula
para preparar
e chove

 
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boxer
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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 28/09/2019 14:24  Atualizado: 28/09/2019 14:24
 Re: poros
o pai no banho
a mãe no duche
(que desgraça!)
a antiga fábrica de sabão floral (fábrica da cuf, porto...)
foi extinta e hoje
no lugar dela, aqui mesmo, no coração d´oiro, existe
um hotel de luxo

(boxer é o titulo do meu album sagrado! boxer, the national) bom fim de semana







Enviado por Tópico
Nocheluz
Publicado: 03/10/2019 12:24  Atualizado: 03/10/2019 12:24
Participativo
Usuário desde: 23/03/2016
Localidade:
Mensagens: 21
 Re: poros
Ótimo, prazer em lê-lo. Gosto do seu ritmo.


Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 12/10/2019 13:06  Atualizado: 14/10/2019 22:14
Colaborador
Usuário desde: 06/11/2007
Localidade:
Mensagens: 1604
 Re: poros
Os poros, literalmente, segundo as fontes de dicionários, são passagens, segundo a etimologia grega.
O que os diferencia de outras é serem invisíveis a olho nu. Não são, contudo, objecto da metafísica. Um microscópio e resolve-se o assunto.
Que ferramenta é que teremos de usar para tornar, neste poema, essa passagem mais perceptível?
Será um insight que teremos de procurar na nossa psiqué?
Na primeira estrofe a palavra composta sabão-macaco não me sai da ideia.
Nunca soube a marca do sabão azul e branco que o meu pai usava. Como gel de banho, como shampoo, como gel de barbear, para tudo. Um tempo de escassez, mas também de virilidade, em que facilmente encontrávamos heróis, e carrascos.
E aquele cheiro. Que ficava inclusive na roupa, porque os tanques não conheciam sabonetes.
Seria Clarim? Apanhava as barras sempre pela metade, já a marca tinha sido comida pelo tempo.
Cheiros que ficam.
Como as vozes.
O meu pai a dizer:
- Estuda! Estuda rapaz!
Noutras vezes:
- Nunca fumes!
- Se te apanho a fumar!...
Os olhares que aos quarentas ainda me fazem tremer…

A segunda estrofe é um pouco desconcertante. O itálico sugere uma intervenção, uma deixa que parece ser dum pai.
Mundão, além de ser em Viseu, tem a coincidência de ser o antónimo de mundinho, que é o universo demasiado fechado em que nos vemos frequentemente. A estrofe é também a declaração de uma humildade perdida no tempo, que escravizou gerações e ainda afecta a auto-estima da nação de Mundão.

A terceira estrofe parece que traz o leitor para o momento presente.

Há efectivamente, na divisão do poema em estrofes, uma alusão a passado na primeira, a presente na segunda, até pela conjugação do tempo verbal, e a futuro na última.

O sujeito poético ganha voz, e a chuva põe-nos em contacto com a invernia, e como a chuva pode ser uma metáfora para lágrimas e tristeza, parece que tudo se passou num momento em que o trabalho pedia uma pausa e as memórias invadiram o quotidiano.

Respondendo às perguntas que fui fazendo, no fundo tudo são poros, tudo passa, ainda que se agarre à pele na história familiar e pessoal de cada um.

Obrigado.

Abraço, irmão