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Poemas : 

Sopro

 

Há um cansaço líquido a pesar
nos ramos das árvores. De dentro dos muros
uma voz de ave acena segredos
guardados nas pontas dos dedos.

Não sei se foi um sopro
pressentido por mero acaso
ou erro humano.

Talvez um vazio profundo
a passear rumores noturnos
ou apenas a vontade de estender
as mãos para além do corpo.

Ou um silêncio sem rosto
paradoxo de sílabas baloiçando memórias
a escrever o presente
num calendário qualquer.


"Fizeste da tua vida
Uma catedral abandonada
Horas esquecidas
Em adoração nocturna
Pedindo silêncio
A tudo o que perdeste."

Luís Falcão, in "Pétalas negras ardem nos teus olhos"


 
Autor
evelina
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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 15/04/2020 18:25  Atualizado: 16/04/2020 16:02
 Re: Sopro
.
O pleonasmo (o poeta, não o vício de linguagem) talvez tenha alguma razão quando diz que tendemos sempre a ler e a comentar os mesmos autores.

Li os seus textos e gostei de todos eles, em especial este e o "Redenção". Acho curioso o facto de parecerem rimar uns com os outros, no vocabulário, no ritmo pausado, nas assonâncias.

Neste "Sopro", atraiu-me desde logo o "cansaço líquido", a lembrar um pensador que muito aprecio, o Zygmunt Bauman, que usa este adjetivo como título de várias obras (Amor Líquido, Modernidade Líquida, Medo Líquido...)

Encontro no seu texto uma ideia semelhante, o caráter fugidio do tempo, não por ser rápido, mas por se desintegrar na experiência humana de passado / presente / futuro. Como me identifico com "a vontade de estender / as mãos para além do corpo"...

Parabéns pelos seus trabalhos, que certamente continuarei a acompanhar.