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Poemas : 

Decifração

 

Fazer destas paredes a folha em branco
dedos de árvores a pintarem um tempo nu
uma porta de entrada
um recomeço de vozes
ou de palavras

_sabe-se lá_

Fazer deste momento uma lentidão
a passar-me pelas horas
um céu suspenso na imensidão azulada
uma serena linguagem de mar
longínqua viagem de gaivotas

_ou o manto inocente do silêncio que me rodeia_

 
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evelina
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Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 07/05/2020 22:31  Atualizado: 20/05/2020 07:03
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Usuário desde: 06/11/2007
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Mensagens: 1865
 Re: Decifração
Este poema, para alguém como eu, é um convite quase irrecusável.
Venho ao comentário com a intenção deliberada de falhar.
Sobretudo pelo título. Estar na disposição de decifrar uma decifração, ou está-se demasiado dentro da pele do autor, conhecendo-o intimamente, por exemplo, e este é um “livro aberto”, ou estamos condenados ao insucesso, ou temos uma pitada de bom senso e sorte.
A cifra pode ter várias hipóteses, mas a chave geralmente dá-nos o teor do conteúdo.
Sem abraçar muito o que está proposto nos vários versos, olho para a estrutura e encontro algumas particularidades, quatro estrofes, dois quintetos ou quintilhas e no fim de cada uma um verso, quase não verso pela forma quase em parenteses.
As simetrias são notórias nos quintetos. Desde o “fazer” no primeiro verso, ao “um” e “uma” (se bem que com a ordem invertida) no terceiro e quarto.
A alusão a espaço fechado e seguro que aparece na primeira estrofe, ao espaço aberto e arejado na segunda. A simultaneidade da linguagem e da palavra nas duas. A claridade. Fosse na “...folha em branco...” ou na “...imensidão azulada...”
O poder das “...árvores...” e da “...lentidão...”
O desabafo dum “_sabe-se lá_” cheio de indecisão e de questões. O “...recomeço...” como algo que custa, mas que se saúda, apenas pela perseverança, ou pela esperança (a última a morrer).
Ora se as gaivotas em terra são tempestade no mar, o que fazer?
Um poema que diz muito dos revezes e das voltas que a vida dá, das portas que se abrem, amiúde inesperadamente, e que acaba com um verso que traz um pouco de inocência a quem o lê.
Bem hajas.

Abraço
Obviamente que a decifração ficou por fazer, mas fica para a próxima...