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Poemas : 

Em letra pequena

 

Aprender a duração da tarde
sem que no vento
se suspendam as palavras.

Reconstruir o espelho
e
no alvoroço da espera

entrar por dentro do infinito
e recolher no tempo
as rosas prometidas.

As rosas prometidas.

Desfolhadas em sílabas
divididas em hemisférios
de neve e lava.

Uma história a nascer.

Ainda sem um ramo de mar
ou uma rua respirável.

Em letra pequena
mas com cheiros de planície.

E os rostos facetados
do silêncio e da nostalgia.

A escutar as vozes do indecifrável
a cerrar lentamente a luz
que se verte dos olhos

como um rio que não correu.


"Fizeste da tua vida
Uma catedral abandonada
Horas esquecidas
Em adoração nocturna
Pedindo silêncio
A tudo o que perdeste."

Luís Falcão, in "Pétalas negras ardem nos teus olhos"


 
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evelina
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Enviado por Tópico
RoqueSilveira
Publicado: 23/05/2020 16:34  Atualizado: 23/05/2020 16:34
Colaborador
Usuário desde: 31/03/2008
Localidade: Braga
Mensagens: 8260
 Re: Em letra pequena
este site, ou seja, os seus leitores podiam fazer por merecer esta autora. fantástico.


Enviado por Tópico
Margô_T
Publicado: 26/05/2020 12:11  Atualizado: 26/05/2020 12:13
Da casa!
Usuário desde: 27/06/2016
Localidade: Lisboa
Mensagens: 309
 Re: Em letra pequena
Fantástico poema! Todo ele muitíssimo fluido e com imagens que nos prendem e guiam.
A delicadeza de trechos como:
“Aprender a duração da tarde
sem que no vento
se suspendam as palavras.”

fazem-nos respirar poesia.
Já jogos de palavras como “espelho” e “espera”, com sons semelhantes, trazem ritmo intrínseco ao verso.
E mais um “entrar por dentro do infinito” que nos remete para as ilustrações de Escher onde início e fim inexistem pela própria noção de infinito que lhes está inerente.

Destaco, também, esta forma de divisão:

“Desfolhadas em sílabas
divididas em hemisférios
de neve e lava.”

mais uma vez, um trecho que nos apanha de surpresa. Com a “neve” e a “lava” a contrastarem e a encher-nos os olhos de imagens extremamente sugestivas e apelativas.
Fico com a ligeira sensação que o que aqui tens são vários poemas encadeados que, por já terem tanto conteúdo eles mesmos, talvez merecessem um lugar aparte, o de um poema por direito próprio. Não porque as várias estrofes não se integrem, mas porque são todas tão cheias de imagens e possíveis sentidos que se torna uma espécie de “overdose poética”: o leitor nem sabe para onde se há-de virar porque tudo o incita e prende de uma forma extasiante, sendo-lhe impossível dar vazão a toda a atenção requerida por todas estas imagens maravilhosamente poéticas.

“A escutar as vozes do indecifrável
a cerrar lentamente a luz
que se verte dos olhos”

Este é um poema que se verte perante o nosso olhar.
Surpreendente.
Parabéns.