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Poemas : 

Doce manifesto da vida

 
Doce manifesto da vida
 





Doce manifesto da vida …





Complexa expressão de tributo, presta
A arte à dor como impressão de prazer divino.
Se eu soubesse que a tal me completaria,
Deixava completamente de a ter, amarga,

Substituía-a por outra abominável sensação,
Que evocasse o vazio nulo que contemplo,
Sendo seu falso monarca ou subordinado atento,
Como só grandes homens o são, condenados

A um paliativo degredo, ainda que imposto
A quem homenageia, numa manifestação
De triunfo, a amargura complexa, mimética
Igual quanto a dor é e desperta em mim,

Nivela-me a quantos têm na vida grandes
Sonhos, sem que os ponham de lado, levando
Consigo demasiados bocados da alma e pés,
Sem terem quem os reanime, batidos, derrotados.

Nada mais me dói senão a lucidez do dia,
De facto atrai-me o que repele aos outros,
Não me submeto ao conforto da opinião alheia
Como uma panaceia, cultivo a liberdade

De espírito assim como o desprezo do real,
Pois só o temos do lado que vemos, não do
Aposto do olho, deselegante e rude, porém
Divino tanto quanto pode ser a dor, um doce

Manifesto de vida…






Joel Matos 09/2019

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Jorge Santos - aliás Joel Matos

 
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Jorge/Joel
 
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Enviado por Tópico
Jorge/Joel
Publicado: 03/07/2020 12:17  Atualizado: 06/07/2020 11:18
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 A suprema decisão humana é ver ...



Emoção é ser tudo aquilo que vejo,


A suprema decisão humana é ver,
E eu vim a este mundo vi-o correr, sorrio
Quando me ponho a pensar, sinto-o
De mim pra mim e o que ceguei,

Ao ponto de não ter nada novo
Pra ver, senão o fim da estrada, o fosso
Poça parada, baça e finita, nada e eu
Sozinho entre espada e parede deslavada,

Somente planície, deserto e uma derradeira
Frase, sempre a mesma decisão tomada,
Ver através do lume, aponto teorias
Que não consigo perceber de todo,

Nem de nenhum lado, a nostalgia
É uma avença, um pau de dois bicos,
Tendo de um, a crença pouca e a minha
Ideia n'outra ponta, que é não depender,

Pondo de parte a visão dos outros,
Feia, exterior à minha, vedada por instinto
Euclidiano de conservação do ar que bebo
P'lo nariz e p'los nós dos dedos, dezoito

Mandalas sendo que só uma é minha
Em representação do eu fraccionário,
Giz e mais nada, pó d'estrada, vaga-lume,
Feliz seria eu se me visse com definição

E do que sou feito, talvez Pedra-Hume
Moldável ou areia do deserto Tártaro,
Não muito diferente, o do Sahra se o visse
E o sorvesse, pois que emoção é, não só ver,

Mas ser também daquilo que vejo e ouço...





J.M.




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Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas—a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.



Alberto Caeiro