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Poemas -> Reflexão : 

A cabeça de touro

 
Descobriu-se, certo dia,
Em alguma parte ao norte
Da península balcânica,
Onde havia toda a sorte
De gente da arqueologia,
Objeto de alheio corte.
Antiguidade: sofria a
Peça corrosão galvânica.

Estava aparentemente
Quebrado o ilustre tesouro;
Mas notava-se que havia
Uma cabeça de touro
Na sua altura saliente.
Sobre a cabeça do touro,
Outra, mais inteligente,
Inclinou a fronte esguia.

Após longa reflexão
Entregou o objeto à ciência:
Em algures na Panônia
Houvera a existência
De uma antiga religião
Que prestava reverência
E ritos de devoção
Ao touro, o Deus da colônia.

Somadas copiosas provas,
Um museu catalogou
E etiquetou a relíquia.
Foi da Argentina à Moscou,
Exposta como a mais nova
Peça archéologie-nouveau.
Enfim, na aclamada Mostra
Britânica de Arqueologia,

Encarou, curioso, a peça,
Um arqueólogo inglês.
Tão logo suas mãos tocaram
O objeto, ele, com agudez,
Afirmou que aquilo era
Mero utensílio burguês:
Um abridor de conservas
Produzido em Birmingham,

Que chegara aos Balcãs
Pelo descuido de algum
Arqueólogo faminto.
Eis o final incomum
Da tal peça charlatã:
Abrindo latas de atum
Numa cozinha alemã
Suja e sem qualquer requinto.

 
Autor
WesMic
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