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Sonetos : 

S.

 
É triste ver as coisas como estão
e nem saber se um dia foram boas.
Em qual vento outonal a tua folha
embalou-se e perdeu-se-me das mãos?

Eu que nunca procurei-te, e entretanto
encontrou-me de colo limpo e braços
desprendidos; agora, nem um lasso
beijo de teus olhos toca-me os cantos.

Nunca fôra o sossêgo nossa alçada,
eu sei, tampouco nossa sorte o abrigo;
só resta-me, por ora, olhar o nada

que me outorgaste e meditar, sozinho:
agora que te encontras sepultada,
eu preferia estar no teu jazigo.

 
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WesMic
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Enviado por Tópico
Mr.Sergius
Publicado: 24/09/2022 22:31  Atualizado: 24/09/2022 22:31
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Mensagens: 1595
 Re: S.
A melancolia salta do poema quando levanta a mais difícil questão que se pode enfrentar: a dificuldade de avaliar o tempo anterior que a incerteza invadiu e ocluiu sua natureza. Os ontens seriam tempos melhores ou ilusões? Seria o que um dia foi pretendido? Porém sabe-se que nada girou nos domínios da tranquilidade ou da conciliação. E, tanto pior, que todas as questões estão e ficarão sem respostas. O que me chama a atenção é que não pude depreender se a pretendida substituição no barco de Caronte se deve ao amor que doa sua própria existência em favor de nossa caríssima parceira ou essa troca traria o alívio da certeza da morte em contra as dúvidas cáusticas dos dias. Excepcional poema. Ganhei meu dia por lê-lo. Saudações.