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    <title>Luso-Poemas</title>
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    <description>Poemas, frases e mensagens</description>
    <lastBuildDate>Thu, 16 Jul 2026 11:17:14 +0000</lastBuildDate>
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      <title>Luso-Poemas</title>
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      <title>Bizarro </title>
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      <description>Vem-me um suspiro. Não consigo permanecer intacta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só quero deitar-me sobre um manto branco, em relvas como as inglesas, verdes como a cor da esperança, húmidas como o pulmão do sapo, rasas como a minha alma, e deixar-me ao sol, nua. &lt;br /&gt;Deixar-me vulnerávelmente invulnerável. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procuro-me em plataformas de suburbanos de destino fixo, quando eu nunca tive um.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero deitar-me sobre um manto branco e nunca fechar os olhos.&lt;br /&gt;Quero consumir o murmúrio dos patos que ao de longe se ouve, como se caíssem gotas de chuva venenosa em lodos empapados; &lt;em&gt;quac, plac&lt;/em&gt;; como consumo os gritos da minha insatisfação!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os pêlos dos braços eriçam-se-me. &lt;br /&gt;Arrepia-me toda esta vibração interior de raiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Revolto-me. Revolto-me ao ponto do som do despedaçar do vidro, com som de quem me manda parar, ao ponto do rasgar da pele, da dormência física, ao ponto da cegueira total.&lt;br /&gt;Revolto-me ao acordar, revolto-me contra mim mesma. Não há mais ninguém a culpar.´&lt;br /&gt;Olha bem o campo, fotografa-o nas paredes do teu crânio, crava-o a martelo e cúfia diretamente no osso, em relevo se for preciso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olha bem este campo vazio, mudo e isolado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há vento. Não há murmúrios e respirações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A relva apodrece. O cheiro da descomposição do sapo sufoca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite esfaqueou o dia, na sua loucura. O manto branco está ali, estendido sobre a verdura podre, ensopado de ribeiras de raios solares, em manchas abstractas e grossas.&lt;br /&gt;Já não há vida no dia, o manto recorda-o com o seu sangue, com os sinais em linhas recta da pulsação e da simbiose.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabou, viva-se a noite e o seus tremores, o espernear das pernas que sacodem o ar na esperança de se sacudirem a si mesmas do seu demónio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há exorcismo possível. O braço irá para sempre arrepiar-se.&lt;br /&gt;A inconclusividade irá para sempre apodrecer a relva, como a raiva poluiu o lago e intoxicou o sapo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ali jaz ele, em disposição mole para que em seu redor rastejem bichinhos mesquinhos e detestáveis que lhe vêm comer a carcaça.&lt;br /&gt;Gravo esta imagem a martelo nas paredes do crânio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto-me melancólica. De mim parece que uma onda, ou várias, se me apoderam e me embalam, não sei se me tentando salvar ou afogar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um ciclo. A onda remexe-se num som agudo, enche-me a boca de sufoco e sal. &lt;br /&gt;Depois surjo à tona, flutuo embalada por um som grave, testosterónico, o cântico de uma alma que canta lá de longe no horizonte sem vida, como se me contasse a morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Narro-me. &lt;br /&gt;Olha para mim agora, encostada a uma árvore descascada. &lt;br /&gt;Não há cheiro pior que este. Não há cegueira pior que esta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descompõem-se os corpos sem vida.&lt;br /&gt;Come-se o bizarro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morre o sapo, acende-se um cigarro.&lt;br /&gt;Que belo quadro tatuado no crânio!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Laura A. J.</description>
      <pubDate>Thu, 19 Jan 2017 13:15:09 +0000</pubDate>
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      <title>Altar: A Festa Triste</title>
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      <description>Às vezes penso que ainda mastigo sobre o mesmo altar. Como se o tempo não fosse forte o suficiente para abalar com a fortaleza da minha miséria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes não me é suficiente saber que já não arranho os dentes uns contra os outros, às vezes penso apenas que será este o meu infinito, porque é esta a minha natureza, a miséria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sei que já não me fere, mas me não deixa de doer. Admito que a culpa deixou de ser tua já há muito tempo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mastigo sobre o mesmo altar, mesmo que o queixo me doa. Mastigo as mesmas folhas, das mesmas árvores, em estações diferentes. E quando a estação não permite, e a folha não existe, vasculho entre os cantos recortados de cada sala para poder mascar nem que seja lixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mastigo sempre, intermitentemente, por vezes parando para descansar o maxilar, doutra continuando para torturar. É cómico como a tortura e a dormência dormem de mãos dadas, em lados diferentes da cama. Há que se sentir tudo, para não se sentir nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É como se toda as nossas alegorias vivessem em cada poro. É como se tu vigiasse a minha sombra e ficasses para sempre colado a ela, sem nunca me tocar, nem me deixares de tocar. &lt;br /&gt;É uma eterna escuridão e ao mesmo tempo luz, uma eterna graça que me rói e ao mesmo tempo me faz inteira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É como se não pudesse viver sem pensar que estou a morrer aos bocados. &lt;br /&gt;É como se não pudesse ser feliz, se não for para contrapor com a tristeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É esta a minha natureza.&lt;br /&gt;A miséria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A miséria de não poder deixar de mastigar os escombros da tua sombra, de uma alegoria que já não é tua, mas que precisa de rosto e o teu serve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Não arrefeces o ego nem tens vergonha de me cuspir na cara que não me queres a deriva, se não me tiveres ao lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizes-me ser esta a tua paralisia, alimentares-te de mim para que eu também te seja música ou poesia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos de lamuriar, para poder criar. Tu sabe-lo e eu também. Assinámos silenciosamente este contracto, para que nos arrastemos mutuamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cuspo, e levo à boca mais escumalha. Há que mastigar, há que fazer com as que nossas sombras se descolem o suficiente sem deixar que se anulem ou repulsem. Há que deixar o fio algures para puder voltar a ser puxado, em nome da miséria, em nome da criação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É uma constante tortura. É uma constante adrenalina.&lt;br /&gt;O chicote da memória não é, no entanto, mais poderoso que qualquer morfina. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É lembrar para não esquecer. É esquecer para não lembrar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lau&#039;Ra</description>
      <pubDate>Thu, 19 Jan 2017 12:58:05 +0000</pubDate>
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      <title>Pureza </title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=305088</link>
      <description>Tens o meu olhar. Tens o rebento de todo o meu desfecho nessa tua mão.&lt;br /&gt;Pergunto às vozes da minha cabeça se buscam companhia. Pergunto a partes de mim se não se podem calar, que me ensurdecem os ouvidos, ou se podem falar mais alto porque também o vazio nos enche os tímpanos.&lt;br /&gt;Questiono todo o momento em que ressuscito as cinzas de uma chama mal ardida, pelo pavio de uma cera de má qualidade.&lt;br /&gt;Sou a cera de toda a mediocridade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ardo, derreto e endureço.&lt;br /&gt;Ardo, desfaço-me em formas estranhas de ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viajo nas ruas com uma personagem a cada lado.&lt;br /&gt;Amanhã voltas a esta avenida que conheces como não querias conhecer.&lt;br /&gt;Viveste aqui toda o infinito que te corrompe as mãos como lepra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se queres morrer, não te chega a falta de oxigénio.&lt;br /&gt;Foi mais um dia e tu nada tiveste.&lt;br /&gt;Foi mais um dia e tornaste-te imortal. É tarde de mais para matares a tua própria essência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mentiste a ti mesmo o teu tempo impensável aos céus que hoje acreditas tu na mentira que não tem ponta, como uma bola de corrupção violenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tens braços que não sejam feitos de nuvens.&lt;br /&gt;O tempo foge-te das ruas e do resto das estradas do teu rosto.&lt;br /&gt;Sabes que cá amanhã ficas, se eu te deixar.&lt;br /&gt;Se te fores hoje, bem sabes que não fugi de ti, fui corrompida pela imundice de todo este conceito do que se é ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Achas que não te amo, mas como não te posso amar se não te posso anular e tudo o que me resta é a tua impressão inalienável, que consome toda a verdade em mentiras alimentadas por ilusões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A chama só se eleva mais ao céu e derrete-me em formas ainda mais demónicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dispo a roupa, que a mim não me convém a conjugação.&lt;br /&gt;Se a alma me está despida de carne, se alma me foi vendida como veio ao mundo a ele mesmo tiro também a roupa. Mais me vale a coerência, se a insanidade for para prevalecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coerência de louco é admirável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tens medo da coerência, de toda a verdade feita, se ela te embeber todo e não te deixar um único resto ao mundo a que deverias pertencer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas que mundo, mas a quarto, mas que a que cova pertences tu e todos os teus?&lt;br /&gt;Que cova, que mundo será suficientemente grande para que acartes a dentadura, a mentira, o sonho sem asas, as mil almas se habitação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Despes a roupa. Despes a morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficas tu agora nua.&lt;br /&gt;Ficas com uma personagem em cada lado do teu corpo, que te fazem sombra.&lt;br /&gt;Ficas com a mentira como manchas de tabaco entre os dentes e caspa entre o coro, para te a sujidade te vista.&lt;br /&gt;A pureza já não é tua. A pureza pertence aos mortos.&lt;br /&gt;Já se foi o tempo, já se foi a verdade e a cortina que tapava todo o meu teatro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esperam-me as vozes a um canto, com bastões de dúvidas e ideias de criança para me espancarem.&lt;br /&gt;Esperam-me os nomes na esquina da adultidade para me arrancarem os cabelos e me despirem da sujidade.&lt;br /&gt;Esperam-me todos aqueles braços feitos de nuvens que sangram chuva, que apelam a verdade, que apelam a pureza de uns olhos que viam tudo em fundo de luzes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabou-se a juventude.&lt;br /&gt;Acabou-se a inocência.&lt;br /&gt;A vila torna-se hipócrita. Morres levitada pelos fantasmas das tuas crenças, que hoje absorveste em sarcasmo e sorrisos baratos para que te consumam os pensamentos e te façam adulta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Despe-te.&lt;br /&gt;Põe-te pura, põe nua, sem pinturas nem farrapos.&lt;br /&gt;Despe-te e espera que as vozes te tatoem os braços, se não te conseguiram tatoar a mente.&lt;br /&gt;Mas não morrerás sem deitar um último suspiro.&lt;br /&gt;Mas não morrerás senão em paralisia, bufando os nomes dos braços feitos de nuvens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pureza é dos mortos.&lt;br /&gt;Serás nobre, serás pura uma vez mais.&lt;br /&gt;Serás uma cova cheia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Serás pura e sozinha, morta.&lt;br /&gt;Voltarás às raízes da tua essência.&lt;br /&gt;Serás pura e sozinha, como eras quando vieste ao mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabou-se o tecido vermelho da cortina.&lt;br /&gt;Acabou-se o tecido da roupa bem tricotada.&lt;br /&gt;Acabou-se a pintura de um rosto filtrado pela sujidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Serás pura.&lt;br /&gt;Serás cheia.&lt;br /&gt;Serás nuvem.&lt;br /&gt;Serás morte.&lt;br /&gt;Será o meu olhar.&lt;br /&gt;Será o meu desfeito desenhada numa mão deserta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Choverei sobre ti.&lt;br /&gt;Verás por mim.&lt;br /&gt;Morrerei na tua mão, ressuscitarei se os loucos deixarem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seremos puros.&lt;br /&gt;Lau&#039;Ra</description>
      <pubDate>Fri, 29 Jan 2016 04:48:34 +0000</pubDate>
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      <title>Melodia </title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=293158</link>
      <description>Corro entre cidades desertas em noites iluminadas por postes da modernização.&lt;br /&gt;Fecho os olhos no que acho ser o frio do vento.&lt;br /&gt;Fecho as cortinas e digo que está bem assim, um choro para adormecer em vez de uma melodia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os homens das gravatas pretas chegam em surpresa. Os homens das gravatas pretas chegam sempre.&lt;br /&gt;Sentam-se na minha cama e pedem-me que tome conta de mim mesma.&lt;br /&gt;Sentam-se de copos vermelhos nas mãos e cruzam as pernas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro de tudo, diz um, explica-me todo o custo de um poste numa noite escura.&lt;br /&gt;Segundo de tudo, diz o outro, o vazio de todo o aborrecimento da sinceridade.&lt;br /&gt;Terceiramente, remata o último, justifica todas as questões no quadro de cortiça que ainda não foram riscadas a caneta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca percebi. Nunca sei.&lt;br /&gt;Farei o que terei de fazer para calar o silêncio da verdade, para ouvir de perto o som da luz do poste que se ergue na cidade, que poderá cegar-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdi a tua presença debaixo da ponte. Vi dentro do teu espelho o esfumar de uma pistola. &lt;br /&gt;A ideia de morrer jovem consumiu-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caminho da autodestruição é curto e sem cartografia complicada.&lt;br /&gt;Penso que não se pode acreditar sem se sangrar.&lt;br /&gt;Regurgito o papel de cada fotografia que me incita uma memória e que não quero na veia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste últimos dias, o sol parece brilhar sobre o parque da minha solitude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o fim de mim não me interessa.&lt;br /&gt;Não me interessa como a tua conversa alheia me pretende salvar, ou a ideia do teu amor promissor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encostas-me à parede com a frescura que te cobre o corpo e pedes que falemos, cobres-me a boca se o renegar.&lt;br /&gt;A conversa, o teu corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedes-me que volte à vida nem que seja por esta estação. Pedes-me que te olhe, talvez que te minta, talvez que te entregue todas as minhas benções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedes que me sente, que te oiça. Mas quando olhares para mim, estarei a digerir a imagem dos teus pés. &lt;br /&gt;Não me perguntes onde tenho andado. Não tenho conseguido ver por onde tenho ido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chamas-me o nome por alguma razão. Não me queres apanhar o fantasma. &lt;br /&gt;Quando olhar para ti, terás a vaguidão entre os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou um todo reduzível a pó. Sou um todo acanhado no casulo de seda que me é inerente à figura. Desabrochei o quanto podia. Não mais me será possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez seja melhor assim, talvez toda o desespero nocturno desta desumanidade citadina me pese menos nos ossos colares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez seja um acto de fé fechar os olhos, pousar o copo vermelho e desfazer as gravatas de todo o meu egoísmo.&lt;br /&gt;Quem sabe ignorar a cidade, deixá-la por pintar, sem postes nem modernidades obscenas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedes que me ofereça, de alguma maneira-&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percorro as ruelas com trapos vestidos e não me encontro.&lt;br /&gt;Talvez não sentir de todo seja a única forma de sentir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sento-me. Anseio sempre por me sentar.&lt;br /&gt;As mentiras que me mancham a boca como a nicotina me mancha os dedos cansam-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cura à dormência não me é prometida. &lt;br /&gt;O elixir para a mediocridade não é criação possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então eu que não sinta, nem os homens se sentem, nem tu me peças para renascer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedinchas novamente que me sente, pedes mais uma vez que te oiça, mesmo que não te olhe. &lt;br /&gt;Avisas que me queres olhar por dentro, relembras a antiga luta que tomava conta pelas minhas próprias mãos, o sangue vermelho que me corria nas artérias, a vontade de mudança, o êxtase no meu rosto fabricado pelo olhar do outro, o toque do outro, a expressão do outro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não posso mais olhar, não posso olhar mais rostos nem buscá-los na humanidade quando a minha própria se for, toda a minha configuração.&lt;br /&gt;Não posso mais pendura-me sobre o alcatrão nem revisitar os postes cegantes ou a rua regada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sento-me, com os homens de preto. Fecho os olhos para não cegar, cerro o rosto para não sentir.&lt;br /&gt;Adormeço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adeus deserto iluminado;&lt;br /&gt; adeus frio gelado;&lt;br /&gt; adeus copos vermelhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; E de novo, o que já não é uma melodia, mas o som pesado de ambas as nossas almas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lau&#039;Ra</description>
      <pubDate>Tue, 19 May 2015 12:59:49 +0000</pubDate>
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      <title>Fotografia Silenciada </title>
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      <description>Tranço o cabelo. Não há nenhuma dor que me apanhe as pontas dos cabelos sem eu querer que fogo me queime o corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os meus lábios mexem-se e ainda assim não dito nenhum som. Embebedo-me em silêncio, o melhor dos remédios para uma mente que não se acomoda com o ruído de toda a existência de uma cidade tão estritamente desenhada em cinzento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levanto-me e não me deixo abanar.&lt;br /&gt;Sei que a hora de ir não tarda. Sei que toda esta ânsia não durará num quadro que foi pintado em aguarelas , em tempo de nuvens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encosto-me à parede e deixo-me ficar. Sei que um sorriso não viria pedido. Sei que um choro já foi ditado em outros tempos de sol e radiações de nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deito-me no sofá vermelho de uma garagem velha. Oiço o ricochete da guitarra em torno de ferro velho sem dono. Volto às origens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pedra rola se for bem talhada. A pedra talha se não for para rolar.&lt;br /&gt;Quem não vê, pinta. Quem não faz, ensina. Quem não é, tenta ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem não amargura, deixa ficar silenciada a fotografia de tempos.&lt;br /&gt;E quem já não te ama, esquece-te.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lau&#039;Ra</description>
      <pubDate>Wed, 13 May 2015 00:23:53 +0000</pubDate>
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      <title>Ser Saudade</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=285119</link>
      <description>Tenho de me organizar, penso.&lt;br /&gt;Tenho de me colar as peças.&lt;br /&gt;Tenho de me rebuscar em cada ano que me saltou entre os cinco espaços de cada mão.&lt;br /&gt;Tenho de me olhar ao espelho e reconhecer-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E embora eu não me veja, sinto que me assombro em cada reflexo de candeeiros fracos e psicadélicos.&lt;br /&gt;E embora eu não o diga, eu nunca fui a mesma e aceitei-o.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Derreto-me com a febre.&lt;br /&gt;Embebedo-me em receios e ideias.&lt;br /&gt;Chamo o cancro com cada cigarro que me beija o canto da boca e me escurece os dentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do que me vale debater-me, do que me vale o dilema, a alma já há muito que não me é brilhante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oiço tiroteios duplos. Eles que me acertem no peito. &lt;br /&gt;Sentei-me num trono de esperanças moles e pernas perras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentei respirar. &lt;br /&gt;Tentei suspirar embora toda esta dormência que me acomoda à solidão e à paralisia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olha para todos eles, para todos os restos de peças montadas.&lt;br /&gt;Olha para eles e questiona-te sobre o teu próprio jogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sente o frio que te corre por entre a camisola esburacada.&lt;br /&gt;Veste-te de preto para não reconheceres a tua própria sombra.&lt;br /&gt;Sentes-te em observação por olhos que não são teus.&lt;br /&gt;Rodeias-te de almas perdidas e velhas num parque sem nome, numa cidade sem filhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De quem és filha?&lt;br /&gt;De que és criadora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda não encontraste uma forma de te matares, encontraste todas e mais umas.&lt;br /&gt;Morres todos os dias, ficas a metade com os anos.&lt;br /&gt;E todos estes anos que te escaparam pelos dedos não são teus, são da tua sombra talvez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sentes saudade, não sentes nostalgia. &lt;br /&gt;És a saudade, és a nostalgia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que horas são? Diz, são que horas?&lt;br /&gt;Conto o tempo, quem sabe para o levar comigo numa morte lenta, demorada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Doí-te?&lt;br /&gt;Sim, doí-me o tempo. &lt;br /&gt;Doem-me os olhos, as pernas, os joelhos mal formados.&lt;br /&gt;Doí-me toda a proporção deste corpo que me mantém acordada de noite. &lt;br /&gt;Doí-me a saudade. Doí-me a nostalgia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morrem as almas, já velhas.&lt;br /&gt;Fica vazio o parque, renasce o frio.&lt;br /&gt;Fica a saudade, fica a nostalgia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentes?&lt;br /&gt;Não, não sentes, está afogada na dormência e na paralisia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pousa a mão sobre o coração.&lt;br /&gt;Pousa a caneta sobre o cimento.&lt;br /&gt;Deixa-te ficar, como sempre te deixaste.&lt;br /&gt;Deixa-te.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vale a pena a solidão, não vale a pena a comodidade nem os ouvidos que escutam os acordes da tua vida.&lt;br /&gt;Queres impressionar os olhos dos demais, já que os teus não te vêem.&lt;br /&gt;Deixa-te disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morre, enquanto o sol rasga as árvores para iluminar as almas que lá não estão e o sino da Igreja marca as nove horas.&lt;br /&gt;Morre.&lt;br /&gt;Fuma.&lt;br /&gt;Morre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sê só a saudade. Sê só a nostalgia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lau&#039;Ra</description>
      <pubDate>Wed, 31 Dec 2014 05:22:09 +0000</pubDate>
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      <title>Vício</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=277899</link>
      <description>Fumo.&lt;br /&gt;Caio na cama e rebolo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fumo.&lt;br /&gt;Caio na cama e durmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me consolo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me conformo com palavras mascaradas,&lt;br /&gt;Nem com o som do teu sorriso.&lt;br /&gt;Não me consolo com bebidas açucaradas &lt;br /&gt;Ou com a ideia do que preciso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não escrevo com juízo.&lt;br /&gt;Não escrevo com consciência.&lt;br /&gt;Não escrevo nem sei o que escrevo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me atrevo&lt;br /&gt;A te deixar ficar&lt;br /&gt;Nem a não querer que vás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os teus pés são de cabra,&lt;br /&gt;O teu riso é fugaz.&lt;br /&gt;Tens droga na ponta da língua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saltas-me à boca&lt;br /&gt;Sem eu querer que me sejas saliva,&lt;br /&gt;Forças-me os dedos,&lt;br /&gt;Drogas-me e esperas que viva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me vicias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fascina-me a tua antiguidade,&lt;br /&gt;As cicatrizes da tua hipocrisia. &lt;br /&gt;Admito, gosto da tua droga&lt;br /&gt;Mas não me vicia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rebola,&lt;br /&gt;Enrola e&lt;br /&gt;Acalca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há maneiras de emendar&lt;br /&gt;Uma mente que deseja não ser mente,&lt;br /&gt;Um corpo que nâo quer ter corpo&lt;br /&gt;Ou uma ideia que adora ser só uma ideia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corre-te na veia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A frustração,&lt;br /&gt;A utopia,&lt;br /&gt;A inconsciência,&lt;br /&gt;A droga que vicia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não te quero,&lt;br /&gt;Nem te desejo, confesso;&lt;br /&gt;Mas corre-me agora na artéria&lt;br /&gt;A ideia que só quer ser ideia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já rebolada,&lt;br /&gt;Já enrolada,&lt;br /&gt;Já fumada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Obrigada.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lau&#039;Ra</description>
      <pubDate>Wed, 03 Sep 2014 03:31:10 +0000</pubDate>
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      <title>Abutres</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=274884</link>
      <description>Os abutres entraram na sala e vasculharam o lixo espalhado pelo chão de azulejo, tão frio ao toque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cor negra do escuro não te impediu de descobrir o papel fotográfico na boca do animal. Arrancaste-a com a mão da ansiedade e viste-a ali, de rosto carregado e disfarçado pela jovialidade, num contraste tão profundo como toda as palavras que conta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viste-a andar pelas ruas e os teus olhos recordam ainda a sua pele branca e as suas olheiras artísticas. Recordas-lhe o cabelo preso no cimo do crânio, e o cachecol a tapar-lhe o pescoço ossudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembras-te ainda como ela ia sozinha, carregada de retratos pelos dedos de carvão e com os lábios pegajosos das palavras de livros que a beijam à meia noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabes que o sabor dos lábios dela não  sabe a cereja, mas a tabaco e decepção.&lt;br /&gt;Sabes que provavelmente ela não tem sexo, mas que te sexualiza os pêlos erectos do braço.&lt;br /&gt;Sabes que os lábios dela não são para ser tocados, que as mãos dela não são de aço e que os olhos se escondem em negridão dos abutres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os abutres vieram e invadiram.&lt;br /&gt;Os abutres vieram e conquistaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se eu fosse dizer que o chão continua frio? E se eu me quisesse queimar em água e afogar-me em chamas, só para te desconcertar de toda a tua certeza?&lt;br /&gt;E se eu nunca tivesse perdido uma fé que nunca foi minha?&lt;br /&gt;E se estas mãos não fossem minhas, mas eu delas?&lt;br /&gt;E se eu não fosse eu, nem tu, nem uma alma sequer. E se eu fosse apenas um abutre de patas incapazes de sentir o frio e insaciável de lixo.&lt;br /&gt;E se eu vasculhasse ainda o meu lixo, queimado por toda a água dos teus olhos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prendes-me a mão atrás das costas e encostas-me à parede. &lt;br /&gt;São dez para as nove.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrancas-me as mãos, já que não são de aço e que também não são minhas e róis-me a cartilagem das orelhas. &lt;br /&gt;São nove para as dez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passeias pela calçada sem te torcerem os pés e deixas que ele se sente na mesa de plástico vermelha, no meio da rua. Passas por ele e queimas-lhe as pestanas.&lt;br /&gt;Agarras um por uma mão e aclamas outro com a outra. Abocanhas um com conforto e beijas o outro com as íris.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lamentas-te, mas não te sacramentas.&lt;br /&gt;Anulas-te, mas não te atiras às chamas.&lt;br /&gt;Coses-te os olhos sem quereres deixar de ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sabes quem és, mas ainda te entranha o sabor do papel de fotografia na língua.&lt;br /&gt;Deixei-te ir entre os dedos, deixaste-me ir entre os dentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levitas na sala enquanto os abutres urinam na tua cama.&lt;br /&gt;E eu estou de mão atada contra o cimento, já sem maças de rosto e de olhos unidos por linhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guardas a baba que me escorre e pedes-me que te beba o sangue da jugular. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfias os dedos entre as minhas costelas sem pedir que me desfaça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mandas-me contra o corrimão de umas escadas que não me foram talhadas para os pés sem pedir que fique sem anca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedes que fique após me arrancares as pernas. Ajoelhas-te para medires a minha altura e me olhares as olheiras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ajoelhas-te e suplicas que me sacramente e que leve as vozes comigo. &lt;br /&gt;Implora-me então que te deixe sugar-me alma enquanto me forças a testa contra a parede e me consomes o resto do braço, de pêlos caídos.&lt;br /&gt;Mas eu não tenho uma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O relógio soa de novo, são três da manhã. &lt;br /&gt;Os abutres comeram a madrugada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lau&#039;Ra</description>
      <pubDate>Fri, 18 Jul 2014 22:13:44 +0000</pubDate>
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      <title>Escoriações</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=272063</link>
      <description>-Porque é que a amas?&lt;br /&gt;&lt;em&gt;-Porque os cabelos dela são tão negros como a minha alma.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Porque é que o amas?&lt;br /&gt;&lt;em&gt;-Porque os olhos dele são tão  profundos como o poço em que o irei afundar.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beija-lhe a barba, sem lhe arrancares a pele. Beija-o, sem o veres por dentro.&lt;br /&gt;Beija-lhe a gordura dos lábios sabendo que queres consumir todo o interior dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrelacem-se, aceitem e neguem o destino na mesma instância, e não reconheçam a cova moldada à forma dos vossos corpos, altos e moribundos, que caiem para a frente para não terem de olhar para trás e ver os fantasmas escondidos atrás de cada árvore, inquietas à vossa passagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não se amem... finjam-no apenas, porque se o poço for profundo o suficiente como são pesadas as pestanas dela, a humidade consumir-vos-à, encherá cada poro e sufocará os vossos pulmões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, enquanto os tiverem, gritem o vosso silêncio, ainda que as baratas se debatam nas narinas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agarrem as mãos com escoriações e prendam-se à demência um do outro, se é isso que vos atrai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabem que não se pertencem, porque ninguém pertence a nada senão à própria loucura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostam de ser loucos, vocês. Amam a loucura um do outro e então o poço é-vos poético.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poetizem-se. Possuam-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixem-se um ao outro.&lt;br /&gt;Levem-se um ao outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se querem morrer, morram.&lt;br /&gt;Se quiserem viver, as árvores continuarão inquietas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o teu poço é fundo e os meus cabelos negros, e a tua loucura é a minha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então afundemos-nos. Então finjamos que nos amamos, mesmo se não for fingimento, e que os fantasmas não nos encurvam as costas.&lt;br /&gt;Lau&#039;Ra</description>
      <pubDate>Sat, 07 Jun 2014 23:33:16 +0000</pubDate>
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      <title>Preces sem Religião</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=270215</link>
      <description>Sento-me em casa e fumo sozinha, à espera de que o cigarro me fale. Ou que me invada os pulmões de alguma matéria que me reavive ou me apresse a morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não sei o que fazer comigo.&lt;br /&gt;Não chego a nenhuma conclusão,não chego a nenhum fim ou propósito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dentes foram-me talhados para a corrupção, os pés foram-me amputados por uns olhos sem esperança, ou por uns braços enraivecidos pela dormência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se houvesse portões, ou paredes douradas, que me guiassem para fora de mim mesma, os pulmões ser-me-iam enchidos de novos ventos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Digo-me para deixar ir o rugido de lamento, daqueles que eu admiro e não existem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A verdade é que não fui prepotente, ou perversa.&lt;br /&gt;A verdade é que a verdade é relativa.&lt;br /&gt;A verdade é que, de verdade, não existe qualquer verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fixo um olhar de pestanas descaídas e baças num espelho, que vão caindo como as folhas de Outono e pergunto-me se, eventualmente, virá aperceber-se daquilo em que me tornou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal como, mal durmo, mal falo.&lt;br /&gt;Nasci no dia das mentiras. Nasci no dia de um ilusão planeada.&lt;br /&gt;Nasci, sem realmente, ter nascido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Salva-me os pecados, se não os conseguires conter dentro de uma garrafa de escarro.&lt;br /&gt;Salva-me a alma, quando já não me couber nos pulmões.&lt;br /&gt;Salva-me de mim, se não me conseguires amputar também os braços e cegar os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não me importam as preces sem religião.&lt;br /&gt;Já não me importa a teoria de existência.&lt;br /&gt;Já não me importa a importância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amontoa-me os ossos e pega-lhes fogo. Já não faz diferença, as folhas de Outono já caíram.&lt;br /&gt;Não quero saber, por isso cose-me os olhos, passarei o resto da minha vida cega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tapa-me o corpo com uma manta, que toda esta existência estive nua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mata-me, fecha-me os olhos de espanto, cruza-me os braços sobre o peito, descalça-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mata-me, mata-me o reflexo do espelho, mata-me as vozes.&lt;br /&gt;Mata-me o sol, mata-me o vento, mata-me a visão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mata-me, deixa uma carta sobre a cómoda por mim, indiscreta.&lt;br /&gt;Esvazia-me o quarto para o eco o percorra. Tranca a porta.&lt;br /&gt;Corre as cortinas.&lt;br /&gt;Corre-as totalmente, para quando abrirem a porta sintam o silêncio e já não me vejam a mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escreve a última palavra numa letra tremida, que demonstre a incerteza da minha existência, que já o deixou de ser.&lt;br /&gt;E mata-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mata-me esta existência de nada ser.&lt;br /&gt;Lau&#039;Ra</description>
      <pubDate>Tue, 13 May 2014 04:17:19 +0000</pubDate>
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