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    <title>Luso-Poemas</title>
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    <description>Poemas, frases e mensagens</description>
    <lastBuildDate>Thu, 16 Jul 2026 10:04:40 +0000</lastBuildDate>
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      <title>Luso-Poemas</title>
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      <title>Houve um tempo</title>
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      <description>Houve um tempo&lt;br /&gt;Em que havia flores o ano inteiro&lt;br /&gt;O sol cheirava a janeiro&lt;br /&gt;Estrelas acendiam luzeiros&lt;br /&gt;A música vinha do rio&lt;br /&gt;E o rio era o diapasão da vida&lt;br /&gt;Destino, Necessidade, Sabedoria da Transformação&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um tempo&lt;br /&gt;Em que não se precisava esperar papai Noel&lt;br /&gt;A vida era o presente de todos os dias&lt;br /&gt;E o brinquedo mais interessante&lt;br /&gt;Mais do que pular ondas no mar&lt;br /&gt;E carregar baldinhos d&#039;água para erguer castelos na areia&lt;br /&gt;A vida era cega, terna, doida, insonte&lt;br /&gt;A vida era pra ontem&lt;br /&gt;A vida era incomum&lt;br /&gt;E amor era o nome de todos os dias, de todos os meses&lt;br /&gt;E de ternura chamavam-se as eternidades dos anos&lt;br /&gt;Por entre calendários rabiscados de tempos e gestos absolutos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um tempo&lt;br /&gt;Em que o vento soprava recados teus&lt;br /&gt;A chuva caia e se molhava e se banhava toda&lt;br /&gt;E se acumulava nas poças do quintal refletindo um pedaço de telhado,&lt;br /&gt;Uma nuvem encardida pela tempestade,&lt;br /&gt;O sonho nos olhos, o beijo nos lábios,&lt;br /&gt;O silêncio e o medo do silêncio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um tempo&lt;br /&gt;Em que os pássaros pousavam na janela&lt;br /&gt;E trinavam inquietos, miúdos e maviosos&lt;br /&gt;A janela já não há mais&lt;br /&gt;O dia já não levita ao gorjeio dos pássaros&lt;br /&gt;Tampouco é mais a incoercível fantasia&lt;br /&gt;Ainda hoje se ouve o trinar dos pássaros,&lt;br /&gt;Mas são outros pássaros,&lt;br /&gt;Outro tempo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um tempo&lt;br /&gt;Onde havia princesas e castelos&lt;br /&gt;E a vida evolavasse da solidão do sol&lt;br /&gt;E do amor que estremecia feito versos entre os meus dedos&lt;br /&gt;E onde borboletas declamavam os dias&lt;br /&gt;E beijavam flores&lt;br /&gt;E sopravam os ventos&lt;br /&gt;Trazendo o entardecer&lt;br /&gt;E o pranto argênteo da lua&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um tempo&lt;br /&gt;No qual giravam carrosséis coloridos&lt;br /&gt;E rodas-gigantes amarelas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um tempo&lt;br /&gt;Onde havia você </description>
      <pubDate>Sun, 12 Jul 2015 20:15:43 +0000</pubDate>
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      <title>Manhã de domingo</title>
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      <description>Manhã de domingo&lt;br /&gt;Dia nublado&lt;br /&gt;A vida acorda sem o instante amarelo e menino do sol&lt;br /&gt;Na rua soa a monotonia dos ruídos dos carros &lt;br /&gt;a encobrir a vida e ignorar a barulhenta certeza&lt;br /&gt;da sandice que o homem acalenta&lt;br /&gt;O homo sapiens sapiens fere a cidade suprimindo o silêncio&lt;br /&gt;e encobrindo a Voz imanente à Alma&lt;br /&gt;E a cidade geme e explode e grita... &lt;br /&gt;Um alarme dispara &lt;br /&gt;para proclamar em voz alta a insensatez humana&lt;br /&gt;Indiferentes à insanidade pássaros cantam&lt;br /&gt;Nas árvores os pássaros aliam-se aos anjos, e cantam,&lt;br /&gt;por que é de ser pássaro cantar&lt;br /&gt;Em algum lugar um bem-te-vi&lt;br /&gt;lança, súbito no ar, o seu mantra:&lt;br /&gt;bem-te-viiii&lt;br /&gt;Outros pássaros se manifestam,&lt;br /&gt;cada um no seu idioma,&lt;br /&gt;encobertos pelo ruído dos carros&lt;br /&gt;São tristezas a vida nesta incessante&lt;br /&gt;dicotomia,&lt;br /&gt;nesta afronta plangente&lt;br /&gt;onde a vida caminha para o ignaro fim&lt;br /&gt;Em algum lugar da cidade nasce uma flor,&lt;br /&gt;em um jardim?&lt;br /&gt;Uma flor irremovível,&lt;br /&gt;que alguém espera&lt;br /&gt;Nasce a flor &lt;br /&gt;e com ela nasce mais um verso &lt;br /&gt;e quando a chuva cair o verso se fará poesia,&lt;br /&gt;independente da ignomínia daqueles para quem &lt;br /&gt;o amor e a poesia têm outra existência,&lt;br /&gt;outro devir que não o de ser amor e poesia&lt;br /&gt;Mas, a flor desabrocha, &lt;br /&gt;por que é do sentido da vida da flor desabrochar &lt;br /&gt;Flor de orvalho e eflúvios de estrelas&lt;br /&gt;mais um acalanto de ternura dos poetas,&lt;br /&gt;mais um milagre em busca do equilíbrio&lt;br /&gt;Nasce a flor e o som da flor nascendo&lt;br /&gt;confunde-se com o som do Universo &lt;br /&gt;expandindo-se e contraindo-se&lt;br /&gt;Há na vida e na morte expansão e contração&lt;br /&gt;Nascer é fazer um pacto silente com a morte&lt;br /&gt;e a cada instante a impermanência entoa, nua,&lt;br /&gt;o cântico cego do tempo a passar indolente&lt;br /&gt;após o giro da ampulheta,&lt;br /&gt;após a intimidade do amor&lt;br /&gt;Após o exílio silencioso da minha face na&lt;br /&gt;candura do teu colo&lt;br /&gt;e dos versos trêmulos &lt;br /&gt;que leio de olhos fechados, com as pontas dos dedos &lt;br /&gt;na manhã nublada de domingo&lt;br /&gt;onde borboletas voejam aprendendo as flores&lt;br /&gt;para apagar as noites crispadas pelo teu nome nos ventos&lt;br /&gt;Os pássaros cantam sonora e comoventemente &lt;br /&gt;compondo a claridade do verão &lt;br /&gt;com a qual o Amor entrará pela minha janela&lt;br /&gt;e o sol se fará&lt;br /&gt;atado ao instante absorto dos meus olhos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(*É a poesia ficando repentinamente como a lembrança&lt;br /&gt;  da primeira noite em todas as outras noites...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Lêdo Ivo in Poesia Completa - 1940 - 2004 </description>
      <pubDate>Sun, 20 Jan 2013 12:33:38 +0000</pubDate>
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      <title>Canteiros</title>
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      <description>Minha casa não tinha jardim,&lt;br /&gt;mas tinha um canteiro de flores,&lt;br /&gt;colado ao muro,&lt;br /&gt;onde a chuva que caia do telhado no quintal&lt;br /&gt;respingava nas plantas o gosto imanente das águas&lt;br /&gt;No canteiro havia&lt;br /&gt;rosas rubras feito um soneto a um amor antigo&lt;br /&gt;cravos brancos e as rimas rugosas &lt;br /&gt;das suas pétalas&lt;br /&gt;pequeninos pés de maria-sem-vergonha&lt;br /&gt;multicores, pintadas pela luz macia das estações&lt;br /&gt;margaridas de um amarelo pra vida inteira,&lt;br /&gt;antúrios e suas flores fálicas&lt;br /&gt;Tinha outras flores que ficaram pelo tempo&lt;br /&gt;Outros tempos que ficaram neste rosto&lt;br /&gt;que busca o passado do outro lado do espelho&lt;br /&gt;Nas lembranças, visitantes noturnas,&lt;br /&gt;que me dizem coisas da infância&lt;br /&gt;Nesta mão trêmula de agora,&lt;br /&gt;Nestes olhos que quando olham olham  o mar&lt;br /&gt;e as praias ao crepúsculo tecendo cores túrgidas de sol e sal&lt;br /&gt;e os passos na areia fofa que vão ficando como um sinete&lt;br /&gt;do silêncio que me leva ao mar &lt;br /&gt;e o ser fechado para a poesia &lt;br /&gt;que tateando na escuridão ignota&lt;br /&gt;faz das palavras&lt;br /&gt;pássaros sem asas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do canteiro e sua floração saiu a primeira flor&lt;br /&gt;para a primeira namorada,&lt;br /&gt;Enquanto entregava a flor, &lt;br /&gt;a meninada na rua, &lt;br /&gt;devagar, soprava&lt;br /&gt;diáfanas bolas de sabão, &lt;br /&gt;translucidas,&lt;br /&gt;que o vento levava&lt;br /&gt;até onde os anjos brincavam&lt;br /&gt;com as crianças,&lt;br /&gt;soprando-as, &lt;br /&gt;com suas bocas sonhadoras&lt;br /&gt;no ar azul da tarde bordada de sol,&lt;br /&gt;perpassada de sonhos e de faz de conta,&lt;br /&gt;onde brilhavam pequeninas gotas de chuva,&lt;br /&gt;ornando a verde folha,&lt;br /&gt;escorrendo pela pétala &lt;br /&gt;reordenando, suavemente, a beleza da natureza&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas noites sem lua a negra cortina escondia o canteiro&lt;br /&gt;Noite sem estrelas,&lt;br /&gt;só mantos de nuvens &lt;br /&gt;onde a meninada construía os seus sonhos&lt;br /&gt;e os seus medos e o medo do medo alheio,&lt;br /&gt;noites imensas na escuridão,&lt;br /&gt;longe da primavera&lt;br /&gt;soprando a brisa vinda de um mar intangível&lt;br /&gt;ondulando os lírios brancos&lt;br /&gt;e as rosas em suas longas hastes &lt;br /&gt;dentro de uma noite antiga a despedir-se &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É preciso lançar os barcos aos mares&lt;br /&gt;como as folhas que caem na correnteza dos rios,&lt;br /&gt;e são levadas pela pureza dos anjos&lt;br /&gt;É preciso o escuro da noite,&lt;br /&gt;sem lua,&lt;br /&gt;sem estrelas,&lt;br /&gt;para ouvir as antigas vozes,&lt;br /&gt;a primeira lágrima&lt;br /&gt;de um antigo amor,&lt;br /&gt;de uma nova saudade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É essencial cultivar os canteiros&lt;br /&gt;e as palavras&lt;br /&gt;que podem ser flores, &lt;br /&gt;mares,&lt;br /&gt;amores,&lt;br /&gt;poesia,&lt;br /&gt;pequenos gestos de amor&lt;br /&gt;dentro de um amor imensurável&lt;br /&gt;o azul e a sombra do azul,&lt;br /&gt;o sonho que&lt;br /&gt;dorme náufrago e anônimo na minha existência&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É essencial cultivar os canteiros&lt;br /&gt;e o inaudito murmúrio dos ventos.&lt;br /&gt;o belo,&lt;br /&gt;o encanto,&lt;br /&gt;o indescritível&lt;br /&gt;É essencial resgatar&lt;br /&gt;a inefável alegria da infância&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As manhãs, sejam azuis ou cinzas ou douradas,&lt;br /&gt;caminham sem tempo que as tolham, &lt;br /&gt;sem ruídos de agoras&lt;br /&gt;trazem o canteiro da infância&lt;br /&gt;e as flores vicejam&lt;br /&gt;por entre as emoções que irrompem&lt;br /&gt;somente no absoluto da poesia&lt;br /&gt;inexprimível &lt;br /&gt;como os ventos imponderáveis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No canteiro do meu quintal há flores no outono,&lt;br /&gt;do outro lado do nevoeiro&lt;br /&gt;por detrás de qualquer domingo&lt;br /&gt;no qual se ouve ao longe uma flauta que toca&lt;br /&gt;para nossos sonhos imaturos&lt;br /&gt;sedentos de estesia&lt;br /&gt;como o amor sedento de amor&lt;br /&gt;como o poeta sedento de um verso&lt;br /&gt;meigo e suave&lt;br /&gt;como o beijo de um colibri&lt;br /&gt;como o sorriso de um palhaço&lt;br /&gt;como o amanhecer que floresce nos quintais&lt;br /&gt;das infâncias imperecíveis &lt;br /&gt;e onde começa a infinda poesia </description>
      <pubDate>Sun, 20 Jan 2013 12:08:01 +0000</pubDate>
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      <title>Depois da chuva</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=239853</link>
      <description>Depois da chuva a tarde se fez dourada&lt;br /&gt;O sol debruando em vermelhos o vento que passa&lt;br /&gt;E canta&lt;br /&gt;Canta a canção &lt;br /&gt;E entoa os versos candentes da ausência&lt;br /&gt;Suspeitando do sentido da vida pouca&lt;br /&gt;Da pouca vida&lt;br /&gt;Dos parcos passos miúdos e urgentes&lt;br /&gt;Cantam os pássaros outras razões&lt;br /&gt;São melodia e compasso da tarde que se farta&lt;br /&gt;De cores e sons e incandescentes vermelhos&lt;br /&gt;A tarde flana na quietude dos jardins&lt;br /&gt;E na presciência das flores nos jardins&lt;br /&gt;Está tudo tão quieto...&lt;br /&gt;Tudo tão longe&lt;br /&gt;Este silêncio sem voz&lt;br /&gt;Estes segredos agonizantes no ar&lt;br /&gt;Esta pele perfumando a vida em volta&lt;br /&gt;Esta esfinge que me inquiri incansavelmente&lt;br /&gt;Estes caminhos remotos&lt;br /&gt;Onde já não me sei&lt;br /&gt;Quando já não me sou&lt;br /&gt;Fecho meus olhos cansados de não ver&lt;br /&gt;E sinto o ar difuso no labirinto das perguntas sem respostas&lt;br /&gt;Respostas que não há ou, se houver, &lt;br /&gt;São grades e colunas a sustentarem &lt;br /&gt;As prisões erguidas sobre os campos de crenças e ilusões&lt;br /&gt;Nada existe independente da sombra e da luz&lt;br /&gt;Tudo é sonho e engano fora do Amor&lt;br /&gt;Mara é o sonho vígil&lt;br /&gt;De onde só há uma porta para a fuga&lt;br /&gt;Arde no horizonte o sol poente e o enigma de todos os dias&lt;br /&gt;Minhas mãos fugidiças &lt;br /&gt;E úmidas da mais plena solidão&lt;br /&gt;Selam os lábios à memória dos olhos negros&lt;br /&gt;Que desde cedo me fitam&lt;br /&gt;Que desde sempre me têm&lt;br /&gt;Olhos que o amor primeiro pôs no barquinho de papel&lt;br /&gt;Rumo à ilha que emerge nos pingos da chuva&lt;br /&gt;Rumo às sombras abandonadas de uma vida pouca&lt;br /&gt;Sentimentos poucos&lt;br /&gt;Muitos medos&lt;br /&gt;A ilusão que baste&lt;br /&gt;Mas há a renitente expressão do amor&lt;br /&gt;Ou do que fizeram dele &lt;br /&gt;Há a indelével sombra do mar&lt;br /&gt;A sombra do mar é o que as palavras não são&lt;br /&gt;Sinto saudades do cheiro do mar&lt;br /&gt;Da maresia&lt;br /&gt;O intangível mar desenhando agonias na areia&lt;br /&gt;Ouço o mar esbatendo os vermelhos da tarde&lt;br /&gt;Ouço aqui, sozinho, a canção da tarde calma&lt;br /&gt;A tarde é o momento cravado no vazio de um tempo ignoto&lt;br /&gt;É pouca para o destino que os dias roubam ao eco dos caminhos&lt;br /&gt;E é pouca a tarde para tanto amor&lt;br /&gt;É pouca a tarde para o carinho&lt;br /&gt;É pouca a tarde&lt;br /&gt;Vaga e alheia&lt;br /&gt;Escondida entre palavras distantes e dissimuladas&lt;br /&gt;Encoberta pelo véu da indiferença&lt;br /&gt;Onde o que eu sou é quase nada&lt;br /&gt;Não fosse esta rosa branca no jardim&lt;br /&gt;(Que só existe e floresce dentro de mim) </description>
      <pubDate>Sun, 20 Jan 2013 10:52:22 +0000</pubDate>
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      <title>Soturno</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=237415</link>
      <description>A aurora dissolve-se na mancha&lt;br /&gt;vermelha alaranjada do sol &lt;br /&gt;ressumando na manhã &lt;br /&gt;esbaforindo a face triste do chão ressecado &lt;br /&gt;a tremeluzir tudo o que é no horizonte&lt;br /&gt;O menino nu come o barro queimado &lt;br /&gt;das paredes da casa&lt;br /&gt;Os dedos dessangrados&lt;br /&gt;de cavocar as paredes mortas&lt;br /&gt;pelo sol desgarrado&lt;br /&gt;No infinito da paisagem desolada, &lt;br /&gt;ondulando no ar,&lt;br /&gt;galhos secos e uma cisma de esperança&lt;br /&gt;A esfera rubra do sol soluça de sede&lt;br /&gt;abrasando as pedras que assomam sobre &lt;br /&gt;as estações desfeitas &lt;br /&gt;em poeira vermelha e pegajosa&lt;br /&gt;Nem inverno nem verão&lt;br /&gt;nem outono nem primavera&lt;br /&gt;Tudo a mesma poeira grossa,&lt;br /&gt;o mesmo torrão rachado de chão,&lt;br /&gt;as mesmas mãos vazias,&lt;br /&gt;o mesmo olhar sedento para o céu &lt;br /&gt;A vida passando sem pressa&lt;br /&gt;morosa em se acabar &lt;br /&gt;enchendo o vento de soluços&lt;br /&gt;As flores e os frutos não se modelam &lt;br /&gt;no barro seco indistinto &lt;br /&gt;e na paciência dos quintais&lt;br /&gt;que sangram o que um dia foi mar&lt;br /&gt;As mulheres carpem os cântaros vazios &lt;br /&gt;sorvendo dos lábios a sede&lt;br /&gt;No céu nenhuma ave, &lt;br /&gt;na terra nenhuma criação sob as sombras &lt;br /&gt;dos galhos secos das árvores&lt;br /&gt;A vida carecendo de sentido e de tamanho&lt;br /&gt;Carecendo de saberes e outras palavras&lt;br /&gt;tão uivantes quanto o silêncio que, &lt;br /&gt;embaraçado nos gravetos &lt;br /&gt;que rolam pela terra em fogo,&lt;br /&gt;insiste em ser a trilha dos dias&lt;br /&gt;amorfos e anônimos&lt;br /&gt;onde o rio inexiste sem rumo&lt;br /&gt;e só o vento quente tem vida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O menino nu carece do barro custoso das paredes&lt;br /&gt;e de um olhar de esquecimento&lt;br /&gt;que esqueça a sombra da tristeza&lt;br /&gt;e do desassossego &lt;br /&gt;que o tire da letargia destas terras&lt;br /&gt;que evolam-se no ar esturricado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chora o menino nos seus poucos anos&lt;br /&gt;a tocaia que a vida deserta de si inventou&lt;br /&gt;Suja os pés neste ar solitário que seca&lt;br /&gt;a lágrima no rosto vincado pela terra&lt;br /&gt;e pelo medo&lt;br /&gt;máscara informe de poeira e suor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao longe a tarde crepita em brasas&lt;br /&gt;tremeluzindo o braseiro de tudo a sua volta&lt;br /&gt;O sol oscila num céu se dissolvendo&lt;br /&gt;em vermelhos &lt;br /&gt;O olhar incendiado pressente a noite&lt;br /&gt;adejando portas e janelas&lt;br /&gt;O dia mastigou o menino e deixou-o&lt;br /&gt;nos braços magros da noite inerte que se rompe&lt;br /&gt;nas lascas das paredes em soluços&lt;br /&gt;A terra ressequida não dá cor ao noturno cantochão&lt;br /&gt;com que a noite põe fim ao dia&lt;br /&gt;A noite denota a imarcescível lua e um ror &lt;br /&gt;de estrelas, colunas de um antigo templo,&lt;br /&gt;de um antigo tempo, de antigos guias&lt;br /&gt;poeira derramada nos milhões de anos,&lt;br /&gt;trazendo para as noites seus olhos afeitos&lt;br /&gt;a viajarem nos céus de poeiras também&lt;br /&gt;A fome deita o menino e seus olhos cansados&lt;br /&gt;Ouve-se soluços entremeados de suspiros&lt;br /&gt;As indagações adormecem&lt;br /&gt;nas ilhas sonâmbulas dos astros &lt;br /&gt;e na impermanência do destino &lt;br /&gt;A noite se aquieta&lt;br /&gt;Silenciam as pedras que há pouco crepitavam&lt;br /&gt;sob o braseiro urdido com as mãos coruscantes&lt;br /&gt;de um sol que parecia brotar &lt;br /&gt;do centro flamante da terra&lt;br /&gt;O menino dorme &lt;br /&gt;a sua infância exilada&lt;br /&gt;Num canto escuro da vida&lt;br /&gt;a casa geme ao passar do vento pelas taquaras&lt;br /&gt;A lua, silente, alumia as veredas insones&lt;br /&gt;Nestes cantos não tem flores nem jardins&lt;br /&gt;Só a poeira grossa igual &lt;br /&gt;a dos meses e anos anteriores&lt;br /&gt;e as crassas paredes que se vai comendo&lt;br /&gt;aos pouquinhos&lt;br /&gt;conforme a carência e a tristeza&lt;br /&gt;esquecidas, aqui, em todo lugar </description>
      <pubDate>Wed, 12 Dec 2012 19:27:30 +0000</pubDate>
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      <title>Maio</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=237212</link>
      <description>Por que maio?&lt;br /&gt;e não outro mês qualquer&lt;br /&gt;Talvez porque em maio&lt;br /&gt;as manhãs acordavam entre&lt;br /&gt;neblinas e a graça do teu&lt;br /&gt;sorriso inocente&lt;br /&gt;Talvez porque em maio&lt;br /&gt;você enlaçava o meu pescoço&lt;br /&gt;e me dava beijinhos de &lt;br /&gt;esquimó&lt;br /&gt;tão frios nossos narizes&lt;br /&gt;tão linda a tua maneira&lt;br /&gt;de se deixar existir&lt;br /&gt;Sorrias quando eu dizia que&lt;br /&gt;a poesia é como jardins&lt;br /&gt;e que as palavras florescem&lt;br /&gt;nestes segredos suspensos&lt;br /&gt;em nuvens vermelhas&lt;br /&gt;em ramos de vento &lt;br /&gt;em flores de luas&lt;br /&gt;O ano?&lt;br /&gt;O ano não importa&lt;br /&gt;Infindável é o tempo&lt;br /&gt;e a chama que o consome&lt;br /&gt;Importante mesmo &lt;br /&gt;era que fosse maio&lt;br /&gt;e que o beijo&lt;br /&gt;me atordoando &lt;br /&gt;em ofegantes salivas&lt;br /&gt;dissolvesse-me, menino&lt;br /&gt;O beijo pousado no teu colo&lt;br /&gt;no teu ventre&lt;br /&gt;Nas nossas mãos enlaçadas&lt;br /&gt;nos nossos olhos fechados&lt;br /&gt;faziamos o dia conforme&lt;br /&gt;a nossa magia de lentos segundos&lt;br /&gt;o tempo parado em cada fibra&lt;br /&gt;em cada toque flamante&lt;br /&gt;E o amor era maio&lt;br /&gt;e de dentro da bruma&lt;br /&gt;de um mar que não tinhamos&lt;br /&gt;vinham teus olhos &lt;br /&gt;de menina&lt;br /&gt;tua boca miúda&lt;br /&gt;os dedos sobre os lábios&lt;br /&gt;entoando o silêncio repentino&lt;br /&gt;os segredos ainda úmidos&lt;br /&gt;zonzos&lt;br /&gt;Meu corpo o mesmo que o teu&lt;br /&gt;lenta poesia a desnudar-nos&lt;br /&gt;nos teus limites da bruma&lt;br /&gt;nos teus calores de sóis&lt;br /&gt;nos teus olhos de noite &lt;br /&gt;casualmente sem lua&lt;br /&gt;Em maio inclinavam-se os dias&lt;br /&gt;que traziam você e as tardes&lt;br /&gt;de incandescentes ternuras&lt;br /&gt;traziam o teu carinho&lt;br /&gt;e risos de era uma vez&lt;br /&gt;traziam a canção de amor &lt;br /&gt;tocando no rádio&lt;br /&gt;e a flor ressumando no jardim&lt;br /&gt;e brincos de princesa&lt;br /&gt;e lírios florescendo no &lt;br /&gt;horizonte&lt;br /&gt;entre mar e terra&lt;br /&gt;para o meu instante&lt;br /&gt;de bardo&lt;br /&gt;para os meus versos&lt;br /&gt;imaturos&lt;br /&gt;Vinham os versos&lt;br /&gt;com o silêncio&lt;br /&gt;que teus dedos &lt;br /&gt;em mim compunham&lt;br /&gt;sublimes&lt;br /&gt;inquietantes&lt;br /&gt;inefáveis sonhos&lt;br /&gt;a brincar com nossos dias&lt;br /&gt;com nossos maios&lt;br /&gt;a brincar com amanheceres&lt;br /&gt;que ficaram em mim&lt;br /&gt;como a estrela esquecida&lt;br /&gt;ficou no céu da nossa manhã&lt;br /&gt;rondó decifrando a lua&lt;br /&gt;e a tua ausência despida&lt;br /&gt;ante os meus versos noturnos&lt;br /&gt;ante o preto e o branco da vida&lt;br /&gt;Eu ainda posso ver&lt;br /&gt;teus olhos negros&lt;br /&gt;indeléveis&lt;br /&gt;me sorrindo&lt;br /&gt;desde as rendas diáfanas da neblina&lt;br /&gt;dissolvendo-se, assim, &lt;br /&gt;na sede da aurora&lt;br /&gt;e dos primeiros raios de sol&lt;br /&gt;Com a última estrela da manhã&lt;br /&gt;eu sinto que o tempo passou,&lt;br /&gt;incerto&lt;br /&gt;molhando com o teu nome&lt;br /&gt;este passado onde me escondi&lt;br /&gt;Pingo...&lt;br /&gt;para mim serás sempre Pingo &lt;br /&gt;Pingo d&#039;água&lt;br /&gt;da onde sorvi da tua boca&lt;br /&gt;a gota da minha &lt;br /&gt;primeira lágrima de amor&lt;br /&gt;e de inauditos maios&lt;br /&gt;que hoje me trazem os ventos&lt;br /&gt;entre cantigas e poesias&lt;br /&gt;entre pétreas solidões&lt;br /&gt;desvelando esta saudade&lt;br /&gt;e este silêncio&lt;br /&gt;com os quais recito o teu nome&lt;br /&gt;reescrito no lago dos meus sonhos&lt;br /&gt;e nas poesias que não te fiz&lt;br /&gt;e que adormecem nos meus dias&lt;br /&gt;e que derramam nas noites&lt;br /&gt;lembranças dentro de mim </description>
      <pubDate>Sun, 09 Dec 2012 20:31:29 +0000</pubDate>
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      <title>Versos úmidos</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=237210</link>
      <description>No rio hierático e cativo da poesia&lt;br /&gt;dormitam todos os sonhos que&lt;br /&gt;eu não soube sonhar&lt;br /&gt;cabem todos os sígnos &lt;br /&gt;e tantas outras palavras cuja&lt;br /&gt;simples expressão faz o &lt;br /&gt;tempo difuso flutuar &lt;br /&gt;e os dias e as noites&lt;br /&gt;perpassarem implacáveis&lt;br /&gt;nos vales onde correm e soluçam&lt;br /&gt;as águas perenes e avermelhadas&lt;br /&gt;dos rios que choram e suspiram&lt;br /&gt;ao  ouvirem as pétalas dos versos&lt;br /&gt;que caem &lt;br /&gt; e pelo perfume da névoa umedecendo&lt;br /&gt;o sussurro da aragem ondulando&lt;br /&gt;no bambuzal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta brisa soprando nas noites azuis&lt;br /&gt;evolam-se estrelas deitando fagulhas &lt;br /&gt;ao vento&lt;br /&gt;urdindo nuvens de algodão&lt;br /&gt;e abrindo o remanso onde cabem os &lt;br /&gt;meus silêncios quietos e vulneráveis&lt;br /&gt;cabem estes ecos de nostalgia&lt;br /&gt;e aonde acorre meus olhos &lt;br /&gt;buscando teus passos nas&lt;br /&gt;tardes iluminadas pela ternura&lt;br /&gt;transparente e comovida de um sol &lt;br /&gt;caminhando para a noite sem sono&lt;br /&gt;e onde uma lua derramando prata&lt;br /&gt;admira na inquietude da madrugada&lt;br /&gt;os sinos a dobrarem as horas&lt;br /&gt;e a voz do vento doce e distante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta chuva turva que embaça o dia&lt;br /&gt;lanço barquinhos de papel&lt;br /&gt;Ouço saudades tamborilando no telhado&lt;br /&gt;no plim plim plim dos pingos pingando&lt;br /&gt;É final de primavera&lt;br /&gt;O ypê já floriu e suas flores pequenas&lt;br /&gt;cobriram o solo em sombras amarelas&lt;br /&gt;brancas luas&lt;br /&gt;ametistas roxas&lt;br /&gt;A noite treme sobre o mar&lt;br /&gt;e o vento recita versos solitários de sal&lt;br /&gt;e séculos na noite que freme sobrer o mar&lt;br /&gt;No poema que se abre e fere a tua lembrança&lt;br /&gt;morre um menino&lt;br /&gt;pequeno viajante de tempos e de sonhos&lt;br /&gt;tão pequeno e já envolto em solidões&lt;br /&gt;tão pequeno para a angústia dos séculos&lt;br /&gt;corpo sem alma&lt;br /&gt;guarda sua lata de barbante e areia&lt;br /&gt;para o incognoscível amanhã&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nestas mãos que amalgamam o ar em busca&lt;br /&gt;de desertas madrugadas &lt;br /&gt;cabem o anjo&lt;br /&gt;e o aroma angelical dos jasmins&lt;br /&gt;cabem a voz da flor&lt;br /&gt;e a aurora que resplandece em ouros e azuis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nestas mãos que tocam o noturno escuro&lt;br /&gt;e vário&lt;br /&gt;e que tocaram teu rosto&lt;br /&gt;enlaçaram a tua mão&lt;br /&gt;acarinharam teus cabelos&lt;br /&gt;acenaram um adeus no vento triste de uma&lt;br /&gt;tarde sem nome&lt;br /&gt;nestas mãos ficou a nívea flor dos teus seios&lt;br /&gt;e todo o lento silêncio que embebe a poesia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estas mãos,&lt;br /&gt;molhadas pelas chamas das lágrimas, &lt;br /&gt;não sabem da saudade que&lt;br /&gt;eu sinto dos caminhos que andei&lt;br /&gt;sob espelhos&lt;br /&gt;A imagem invertida fazia voar meus pés&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estas mãos...&lt;br /&gt;Estas mãos não sabem da saudade que &lt;br /&gt;eu sinto da noite negra dos teus olhos&lt;br /&gt;Nem estas mãos &lt;br /&gt;nem os anos todos que passaram,&lt;br /&gt;nem as estrelas que cairam sobre o&lt;br /&gt;caminho de pedra&lt;br /&gt;enquanto eu te esperava&lt;br /&gt;nem as noites &lt;br /&gt;nas quais teu beijo não era meu&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E na rua, entre teus braços,&lt;br /&gt;a noite escondia a eternidade&lt;br /&gt;A lua, lírica esfera sob o pêndulo negro&lt;br /&gt;do céu, vestia de cinza o extenso mar &lt;br /&gt;cortado pelas ondas e entregue às terras&lt;br /&gt;pelas marés&lt;br /&gt;As águas  erram na penumbra indecifrável&lt;br /&gt;que a tua ausência deixou&lt;br /&gt;e levam consigo as canções e os versos, &lt;br /&gt;sem métrica e sem limites,&lt;br /&gt;com os quais te amei </description>
      <pubDate>Sun, 09 Dec 2012 20:25:22 +0000</pubDate>
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      <title>Também</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=236688</link>
      <description> Também deste poema se morre&lt;br /&gt; letra após letra&lt;br /&gt; o som inteiro e intenso da palavra&lt;br /&gt; que cria rios e desertos e miragens&lt;br /&gt; grises como o meio da noite&lt;br /&gt; onde o poema descreve arabescos&lt;br /&gt; e o agora dissolve os segundos&lt;br /&gt; na farsa do tempo que é morte&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; Também destas horas se fartam&lt;br /&gt; o incandescente amargor coleante&lt;br /&gt; da areia escorrendo amarela &lt;br /&gt; como um rio ruminante&lt;br /&gt; entre o passado soturno&lt;br /&gt; e o futuro incognoscível&lt;br /&gt; que nos mantêm de joelhos&lt;br /&gt; há 512 anos&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; Também nas madrugadas se chora&lt;br /&gt; o choro longo ou breve&lt;br /&gt; como chora o rio fora do seu leito&lt;br /&gt; um choro que se pensa infindo&lt;br /&gt; que se chora até se adormecer&lt;br /&gt; no engano &lt;br /&gt; e na absorta cachaça do sono&lt;br /&gt; onde dormem os olhos incompreendidos&lt;br /&gt; da infância&lt;br /&gt; que nem você conseguiu consolar&lt;br /&gt; trazendo a flor ébria e a cinza neblina&lt;br /&gt; que se esvaneceu deixando&lt;br /&gt; a primeira palavra do poema&lt;br /&gt; sem resposta&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; Também se vive a contemplar o mundo&lt;br /&gt; constrangido&lt;br /&gt; náufrago&lt;br /&gt; anacoreta&lt;br /&gt; a estacar diante das reticências da vida&lt;br /&gt; a mergulhar no espesso lamento da dor&lt;br /&gt; das guerras profetizadas nos gabinetes&lt;br /&gt; incesto e morte  &lt;br /&gt; e o desespero natimorto da platéia &lt;br /&gt; diante da face do medo&lt;br /&gt; diante do cansaço da espera exilada&lt;br /&gt; e da ausência de perguntas&lt;br /&gt; enredadas na vontade empoeirada&lt;br /&gt; de quem, sequer, vê o muro&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; Também de fome se vive&lt;br /&gt; de sonâmbulas bocas esquecidas&lt;br /&gt; esperando o pão nosso de cada dia&lt;br /&gt; ardendo em febres &lt;br /&gt; e esperanças forretas&lt;br /&gt; Pai,&lt;br /&gt; perdoai a nossa inércia&lt;br /&gt; assim como nós perdoamos&lt;br /&gt; a quem nos tem debicado&lt;br /&gt; não deixeis cair o parco pão&lt;br /&gt; no chão conspurcado&lt;br /&gt; pela nossa apatia &lt;br /&gt; e pela nossa &quot;candura&quot;&lt;br /&gt; livrai-nos dos néscios &lt;br /&gt; e da submissão&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Amém </description>
      <pubDate>Sun, 02 Dec 2012 09:13:20 +0000</pubDate>
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        <item>
      <title>Momentos</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=236641</link>
      <description> Há momentos em que sentir&lt;br /&gt; é como a ausência do postigo&lt;br /&gt; por onde poderia, se houvesse,&lt;br /&gt; infiltrar-se a voz melíflua do poema&lt;br /&gt; É como a carência das manhãs transcedentes&lt;br /&gt; e o constante perfume do orvalho no ar&lt;br /&gt; É como a garrafa lançada ao mar viajando&lt;br /&gt; sob estrelas que por sua vez viajam o éter&lt;br /&gt; trazendo mensagens (poemas?) do inicio das eras&lt;br /&gt; É como a solidão que se instala transbordando&lt;br /&gt; tudo que eu ainda não disse/não fiz&lt;br /&gt; É como o som das insidiosas máquinas de guerra&lt;br /&gt; que ca(n)tam as velhas canções&lt;br /&gt; e reverberam a cantilena de velhos discursos&lt;br /&gt; É como o choro silencioso,&lt;br /&gt; sem gesto,&lt;br /&gt; sem destino,&lt;br /&gt; sem começo&lt;br /&gt; e sem fim&lt;br /&gt; É como um labirinto&lt;br /&gt; infinito&lt;br /&gt; onde a esperança repousa ingente&lt;br /&gt; É como a inelutável noite&lt;br /&gt; que envolve e acorda vendavais&lt;br /&gt; e a chuva cai&lt;br /&gt; parando o tempo,&lt;br /&gt; revirando passados&lt;br /&gt; reverberando ao som do vento nas telhas&lt;br /&gt; E, afinal, que querem as lembranças?&lt;br /&gt; Querem um convívio forçado&lt;br /&gt; estes sentimentos que tombam e vibram&lt;br /&gt; Não sei conviver&lt;br /&gt; Há sempre razões definitivas,&lt;br /&gt; certezas indubitáveis&lt;br /&gt; e a noite que cessa &lt;br /&gt; em todas as janelas&lt;br /&gt; onde a parca luz amarelada&lt;br /&gt; agoniza junto com a minha emoção&lt;br /&gt; Onde as imagens se evolam&lt;br /&gt; e o tempo é um truque de um mágico&lt;br /&gt; que transforma a eternidade&lt;br /&gt; nestes fugidios instantes&lt;br /&gt; Às vezes instantes longos,&lt;br /&gt; páginas em branco,&lt;br /&gt; às vezes cheios de emoção,&lt;br /&gt; umedecidos de suspiros&lt;br /&gt; que o tempo folheia impunimente&lt;br /&gt; A poeisa estremece o singular&lt;br /&gt; mistério da noite&lt;br /&gt; e dá ao meu sentimento&lt;br /&gt; este invisível caminho&lt;br /&gt; e esta inefável possiblidade&lt;br /&gt; de anotar e rabiscar&lt;br /&gt; até perder a razão&lt;br /&gt; e colher das flores as cores&lt;br /&gt; e o perfume inocente&lt;br /&gt; de um verso que chora&lt;br /&gt; ou que ri comigo&lt;br /&gt; de uma realidade que só existe nele,&lt;br /&gt; no verso&lt;br /&gt; Eu o olho e o ouço como&lt;br /&gt; um menino me olha e me ouve...&lt;br /&gt; como se me conhecesse&lt;br /&gt; há muito tempo...&lt;br /&gt; Um tempo em que só havia poesia&lt;br /&gt; no acaso inseguro das manhãs,&lt;br /&gt; na tarde que me visita &lt;br /&gt; e me espera nos jardins &lt;br /&gt; onde flores de papel sorvem &lt;br /&gt; as palavras que dizem da brisa&lt;br /&gt; crispando as águas do rio,&lt;br /&gt; bebendo as pequenas ondas &lt;br /&gt; que desaparecem na areia&lt;br /&gt; Houve um tempo em que tudo era poesia,&lt;br /&gt; madrigais, odes, elegias&lt;br /&gt; Versos inconsúteis &lt;br /&gt; escritos à cinzas&lt;br /&gt; nas páginas da distância&lt;br /&gt; e dos momentos onde sentir&lt;br /&gt; é o escorrer da chuva&lt;br /&gt; no silêncio dissoluto do espinho &lt;br /&gt; da rosa que não há&lt;br /&gt; e o perfume da rosa, esbatido pelo vento,&lt;br /&gt; ondula em teus cabelos onde dorme a noite&lt;br /&gt; O vento argumenta sua quase tristeza,&lt;br /&gt; arremete, debalde, as naus contra os portos,&lt;br /&gt; acorda meus velhos sonhos sonolentos&lt;br /&gt; e empresta-lhes a face de uma lua cheia &lt;br /&gt; de um dezembro que ainda não veio&lt;br /&gt; Há momentos em que sentir&lt;br /&gt; é só como estes sentimentos cativos&lt;br /&gt; e estes caminhos cobertos por folhas secas&lt;br /&gt; caídas com o vento e com as chuvas&lt;br /&gt; nas madrugadas onde me esqueci&lt;br /&gt; e me esquecendo&lt;br /&gt; o tempo, possesso, &lt;br /&gt; me resgata deste teatro&lt;br /&gt; e da contumaz mentira&lt;br /&gt; que transforma o meu hoje&lt;br /&gt; em um ontem irrefreável&lt;br /&gt; acumulando-se aurora após aurora&lt;br /&gt; ansiando por ser poesia e liberdade&lt;br /&gt; Nestes momentos em que sentir&lt;br /&gt; é como o menino jogando as cinco pedrinhas&lt;br /&gt; na praça deserta &lt;br /&gt; antes de decidir morrer&lt;br /&gt; Quando eu me for qual flor brotará?&lt;br /&gt; Branca, vermelha, amarela, lilás, azul...?&lt;br /&gt; Que importa?&lt;br /&gt; As flores brotarão e levarão &lt;br /&gt; o pânico da minha noite&lt;br /&gt; e atearão fogo à minha suposta &quot;poesia&quot;&lt;br /&gt; incorrigível e alquebrada&lt;br /&gt; sentindo o que não sente&lt;br /&gt; virando o mundo às avessas&lt;br /&gt; antes que a aurora refreie &lt;br /&gt; a voz do poeta  &lt;br /&gt; e este, então, adormeça </description>
      <pubDate>Sat, 01 Dec 2012 13:10:51 +0000</pubDate>
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      <title>Escrevo a poesia que ninguém lerá</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=236617</link>
      <description> Ao longe a música chia&lt;br /&gt; no antigo gramofone do dia&lt;br /&gt; quente deste final de novembro&lt;br /&gt; apagando o trinar dos passáros&lt;br /&gt; que os céus levam até o mar&lt;br /&gt; debruado com as velas ao vento&lt;br /&gt; dos barcos executando os acordes&lt;br /&gt; das canções de alguma infância&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; Gaivotas voam acima dos meus medos,&lt;br /&gt; acima das canções inacabadas,&lt;br /&gt; da angústia inútil de não esquecer&lt;br /&gt; e da poesia escrita na bruma da manhã&lt;br /&gt; estampada na primeira hora&lt;br /&gt; atada ao dia que veio com o vento&lt;br /&gt; na primeira flor&lt;br /&gt; na primeira dor&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; Escrevo a poesia que ninguém lerá&lt;br /&gt; Escrevo para as sombras &lt;br /&gt; da minha infância&lt;br /&gt; Escrevo porque sinto&lt;br /&gt; e porque a palavra me liberta&lt;br /&gt; E é esta é a minha culpa maior:&lt;br /&gt; dizer o que não fui,&lt;br /&gt; falar do inapto que ainda sou&lt;br /&gt; Só o que sinto&lt;br /&gt; e o que minto &lt;br /&gt; de mim para mim&lt;br /&gt; é o que fica de mim na aléia&lt;br /&gt; por onde caminha o Mistério&lt;br /&gt; na poeira quente das estradas&lt;br /&gt; sem encontros,&lt;br /&gt; nem companhia&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; Ando a olhar para o céu&lt;br /&gt; buscando no trilar das aves,&lt;br /&gt; os pássaros origami&lt;br /&gt; que me habitam &lt;br /&gt; e me trazem, assim,&lt;br /&gt; este amor impossível&lt;br /&gt; pela coisas instadas,&lt;br /&gt; pelas estrelas &lt;br /&gt; e seus poemas,&lt;br /&gt; que não se extinguem&lt;br /&gt; e movem-se sem cessar&lt;br /&gt; ao nosso encontro?&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; No velho espelho contemplo &lt;br /&gt; a chama da infância&lt;br /&gt; Tuas mãos pequeninas &lt;br /&gt; aquecidas ao sol&lt;br /&gt; de um inverno ofuscando,&lt;br /&gt; os teus olhos negros,&lt;br /&gt; teu corpo recendendo&lt;br /&gt; à paixão e à ternura&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; Da janela do quarto&lt;br /&gt; ainda vejo dormir a noite&lt;br /&gt; Vejo dormitar o passado&lt;br /&gt; sob a luz de candeia &lt;br /&gt; de uma lua iluminando a alma,&lt;br /&gt; sem, no entanto, separar&lt;br /&gt; a solidão destes versos&lt;br /&gt; que me sopram&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; Os pássaros regressam de muito longe&lt;br /&gt; atravessam a noite,&lt;br /&gt; inocentes,&lt;br /&gt; desfazendo o silêncio&lt;br /&gt; com o branco das suas asas&lt;br /&gt; Procuro no escuro,&lt;br /&gt; tateio suas silhuetas esguias,&lt;br /&gt; da onde virão?&lt;br /&gt; Trarão um ramo no bico?&lt;br /&gt; Os pés molhados de mar?&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; Em meio as estrelas adormecidas&lt;br /&gt; a lua irrompe pela janela dos sonhos&lt;br /&gt; Encosto a mão na face molhada do sono,&lt;br /&gt; digo um segredo,&lt;br /&gt; calo um grito,&lt;br /&gt; sussurro o desejo de partir,&lt;br /&gt; sentindo a areia fria das dunas&lt;br /&gt; como se a areia houvesse sido o meu mundo,&lt;br /&gt; só e esbatido pelas gotas de sereno&lt;br /&gt; que serão o orvalho da manhã sem nome&lt;br /&gt; e que não demora a chegar na praça&lt;br /&gt; acordando os pombos e os seus arrulhos&lt;br /&gt; balançando as matas ao rumor do dia&lt;br /&gt; lançando as primeiras gotas no mar &lt;br /&gt; resplandecendo nos rochedos&lt;br /&gt; caminhando para o verão &lt;br /&gt; perfumado de primaveras,&lt;br /&gt; refletindo luzes de outonos,&lt;br /&gt; sob um céu nacarado de inverno&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; As nuvens passam singrando os céus,&lt;br /&gt; barcos de algodão,&lt;br /&gt; rendas no jardim onde brotam&lt;br /&gt; os versos que podem dizer às almas&lt;br /&gt; o ouro da liberdade latente no átomo&lt;br /&gt; imarcescível de cada novo dia,&lt;br /&gt; abstrato como o papiro &lt;br /&gt; a escorrer as palavras do que seria&lt;br /&gt; um poema &lt;br /&gt; ou a chuva caindo &lt;br /&gt;                  errante&lt;br /&gt;                   e terna&lt;br /&gt; </description>
      <pubDate>Sat, 01 Dec 2012 01:30:07 +0000</pubDate>
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