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    <title>Luso-Poemas</title>
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    <description>Poemas, frases e mensagens</description>
    <lastBuildDate>Sat, 13 Jun 2026 12:19:29 +0000</lastBuildDate>
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      <title>Luso-Poemas</title>
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      <title>O CHAPÉU DO FIEL</title>
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      <description>Essa Minas não sai de dentro mim.&lt;br /&gt;Tardes arrastadas nas praças&lt;br /&gt;e a bagunça dos pardais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantos caminhos de terra batida: Cruzília,&lt;br /&gt;Airuoca, Baependi, Carrancas, São Thomé das Letras,&lt;br /&gt;São Vicente de Minas e Minduri.&lt;br /&gt;Cada cidadezinha que surge detrás de uma montanha,&lt;br /&gt;descubro um pouco mais de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejo a serra da Mamica em Luminárias.&lt;br /&gt;(A natureza imitou a mulher ou a mulher imitou a natureza?)&lt;br /&gt;E a Serra das Ninfas, depois do leprosário Santa Fé, tão linda!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As cruzadas nas esquinas&lt;br /&gt;e os campinhos de futebol de grama úmida beirando o lago de Lambari.&lt;br /&gt;Assistir ao clássico sul-mineiro:&lt;br /&gt;- Atlético de Três Corações contra o Flamengo de Varginha&lt;br /&gt;Acordar em manhãs geladas com as alvoradas da banda militar.&lt;br /&gt;Jogos de botão sobre o ladrilho frio na varanda&lt;br /&gt;e vejo o caminhãozinho verde-musgo&lt;br /&gt;que entregava carne no açougue do seu Enê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andando por outros lugares do mundo, carrego essa Minas dentro de mim.&lt;br /&gt;Ela nunca sai. Está dentro das células, na memória e percorre o meu sangue.&lt;br /&gt;Percorrem o meu sangue os minerais: é o quartzito respirado na serra. Mais o arenito dendrítico.&lt;br /&gt;Ainda o ouro escuro que havia na lavra da Pedra Preta.&lt;br /&gt;E sinto na boca o gosto ferruginoso das águas de Cambuquira.&lt;br /&gt;Gosto de sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E também não sai&lt;br /&gt;a memória dos cheiros: brincando sobre sacas de café na fazenda do Capão.&lt;br /&gt;E o cheiro de goiabada no ar do coleginho de Itajubá&lt;br /&gt;(a fábrica ao lado).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa Minas não sai de dentro de mim.&lt;br /&gt;Aonde for carrego como uma maldição,&lt;br /&gt;uma sorte do destino.&lt;br /&gt;Suas procissões abertas a todos os pecadores.&lt;br /&gt;O som das matracas e os passos sobre as pedras.&lt;br /&gt;O sino grave e a subida íngreme para o cemitério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subo numa daquelas torres de igreja&lt;br /&gt;e tento ver o mundo a partir do meu sul de Minas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro de meu pai que pagava promessa à imagem de Nossa Senhora na cidade de Campanha&lt;br /&gt;e não me esqueço do chapéu do fiel voando de cima do caminhão.&lt;br /&gt;(Meu pai falou que o fiel obteria uma graça).&lt;br /&gt;Essa imagem invadiu como uma intrusa e estranha em minhas lembranças, e nunca se apagou:&lt;br /&gt;-o chapéu do fiel em de cima do caminhão. E o vento levando.&lt;br /&gt;</description>
      <pubDate>Sun, 01 Jun 2025 22:11:47 +0000</pubDate>
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      <title>A DIVISÃO DOS EUS</title>
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      <description>Existe um eu social&lt;br /&gt;que ri&lt;br /&gt;e conta piadas,&lt;br /&gt;esse é fake.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O outro eu escapista&lt;br /&gt;que vive na fantasia&lt;br /&gt;num mundo tangenciado&lt;br /&gt;e abstrato,&lt;br /&gt;este é verdadeiro.&lt;br /&gt;</description>
      <pubDate>Sat, 06 Jun 2020 22:24:49 +0000</pubDate>
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      <title>Paisagem ReVelada</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=349253</link>
      <description>a paisagem se revela &lt;br /&gt;em você, amor&lt;br /&gt;pode durar até amanhã&lt;br /&gt;nossos desejos ancestrais&lt;br /&gt;numa cidade anfitriã&lt;br /&gt;tua pele, teu corpo e as montanhas&lt;br /&gt;trilha encantada que tento explorar&lt;br /&gt;trilha encantada&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;vejo saveiros  &lt;br /&gt;no mar noturno, amor&lt;br /&gt;escunas e espumas&lt;br /&gt;ao redor &lt;br /&gt;o farol da ilha&lt;br /&gt;ilumina&lt;br /&gt;a solidão dos navegantes&lt;br /&gt;muito antes&lt;br /&gt;te procurei&lt;br /&gt;rota perdida que tento reencontrar&lt;br /&gt;rota perdida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ao sair do túnel, me deslumbro,&lt;br /&gt;amor,&lt;br /&gt;a pedra, o céu e a lagoa&lt;br /&gt;o movimento das canoas&lt;br /&gt;no leblon&lt;br /&gt;pensei no tom&lt;br /&gt;em ipanema&lt;br /&gt;nasceu o poema&lt;br /&gt;não vou fugir do tema&lt;br /&gt;que fiz pra você&lt;br /&gt;pra te reconquistar.</description>
      <pubDate>Sun, 12 Apr 2020 22:58:24 +0000</pubDate>
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      <title>COISAS PARA LEVAR</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=349136</link>
      <description>Deste planeta, se pudesse,&lt;br /&gt;gostaria de levar algumas coisas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cheiro de terra molhada no início da chuva.&lt;br /&gt;A visão esplendorosa de uma noite estrelada.&lt;br /&gt;E o som da passarada ao amanhecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se pudesse, gostaria de levar &lt;br /&gt;algumas coisas deste planeta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cheiro, a cor, o gosto de muitas frutas:&lt;br /&gt;a manga-rosa, o abacaxi, o pêssego e a uva.&lt;br /&gt;A visão do mar - ah olhar para o mar - sem parar.&lt;br /&gt;E o som da algazarra da criançada quando sai para&lt;br /&gt;o recreio da escolinha municipal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vou me estender na lista das coisas que gostaria&lt;br /&gt;de levar.&lt;br /&gt;Esses itens acima já seriam um bom início.  &lt;br /&gt;</description>
      <pubDate>Tue, 07 Apr 2020 00:42:58 +0000</pubDate>
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      <title>FRISCO BAY (BAÍA DE SÃO FRANCISCO)</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=338734</link>
      <description>Esse mar já viu tanta coisa&lt;br /&gt;Mesmo essas águas mansas que se renovam&lt;br /&gt;e ainda, o morro, a montanha &lt;br /&gt;assistiram: famílias que se separaram&lt;br /&gt;seus  capos como Al Capone&lt;br /&gt;chegando sozinhos&lt;br /&gt;humilhados e algemados&lt;br /&gt;para habitar o presídio de Alcatraz&lt;br /&gt;sombrio e solitário no alto da ilha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E depois jovens que deliravam&lt;br /&gt;nos labirintos espelhados &lt;br /&gt;de eus multiplicados &lt;br /&gt;que aqui vinham&lt;br /&gt;depositar as suas dúvidas.&lt;br /&gt;A paisagem não reage&lt;br /&gt;permanece inalterada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele final da tarde, no vento frio de dezembro&lt;br /&gt;o músico canta e toca no banjo Lady Madona &lt;br /&gt;para turistas congelados.&lt;br /&gt;O leão marinho ruge&lt;br /&gt;e aquele albatroz, sozinho na beira do Pacífico&lt;br /&gt;ajambrado e com um gorro na cabeça, sou eu.&lt;br /&gt;</description>
      <pubDate>Mon, 27 Aug 2018 00:36:47 +0000</pubDate>
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      <title>PELOS TRILHOS DE BOSTON</title>
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      <description>Orientais e latinos na estação&lt;br /&gt;esperando o bonde.&lt;br /&gt;Um casal me olha&lt;br /&gt;O marido me lembra Pete Townshend,&lt;br /&gt;guitarrista do The Who.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bonde barulhento&lt;br /&gt;trafega pelos trilhos de Boston&lt;br /&gt;É a primavera da Nova Inglaterra&lt;br /&gt;se parece com o inverno &lt;br /&gt;do meu sul de Minas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As moças claras usam shorts curtos.&lt;br /&gt;Com o olhar do estrangeiro curioso,&lt;br /&gt;observo este povo.&lt;br /&gt;Pelo menos três pessoas no vagão&lt;br /&gt;estão debruçadas sobre livros.&lt;br /&gt;A moça lê um romance. &lt;br /&gt;O rapaz lê sobre o nazismo. &lt;br /&gt;E um outro rapaz  lê “Viagem a Ixtlan”, &lt;br /&gt;de Carlos Castaneda.&lt;br /&gt;E uma moça&lt;br /&gt;carrega um livro do poeta T.S. Eliot.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me equilibro com as malas &lt;br /&gt;e o motorneiro, um homem negro, &lt;br /&gt;reclama dos passageiros que obstruem&lt;br /&gt;as portas do bonde lotado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moça do livro de T.S. Eliot sorriu e conversou comigo:&lt;br /&gt;- é estudante de literatura no Boston College.&lt;br /&gt;Num outro banco, vejo um homem de gravata borboleta&lt;br /&gt;parece professor de química (em Harvard?).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Boston é a terra dos Kennedy&lt;br /&gt;e também dos fantasmas.&lt;br /&gt;O escritor Jack Kerouac é de bem perto:&lt;br /&gt;Lowell. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andando a esmo, entrei no cemitério.&lt;br /&gt;Num dos túmulos tinha um canhão&lt;br /&gt;da Guerra da Secessão – o herói descansa lá&lt;br /&gt;sob as árvores e o canto dos pássaros.&lt;br /&gt;Procuro o túmulo de Edgar Allan Poe,&lt;br /&gt;do poema do corvo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apenas alguns rouxinóis&lt;br /&gt;saltitavam e cantavam no cemitério.&lt;br /&gt;Subitamente&lt;br /&gt;um passo-preto surgiu a minha frente&lt;br /&gt;e me guiou de volta pra rua.&lt;br /&gt;</description>
      <pubDate>Sun, 19 Aug 2018 23:19:17 +0000</pubDate>
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      <title>O CORAÇÃO DA PEDRA</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=337830</link>
      <description>&lt;div style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;em&gt;Apesar de o homem ser tanto quanto possível, &lt;br /&gt;diferente da pedra, o seu centro mais íntimo é, &lt;br /&gt;de uma maneira estranha e muito especial,&lt;br /&gt;bastante semelhante a ela (talvez porque &lt;br /&gt;a pedra simbolize a existência  pura, &lt;br /&gt;estando o mais possível distanciada das emoções, &lt;br /&gt;sentimentos, fantasias e do pensamento discursivo &lt;br /&gt;do nosso ego consciente). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carl G. Jung &lt;/div&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho para o coração da pedra&lt;br /&gt;e tento vislumbrar&lt;br /&gt;o que ela traz de outras eras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho para a pedra com simpatia&lt;br /&gt;o que temos em comum:&lt;br /&gt;minerais nos meus ossos&lt;br /&gt;que se temporizam&lt;br /&gt;e se dissolvem&lt;br /&gt;sob as chuvas dos meus anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela resiste quase uma eternidade&lt;br /&gt;deve se gabar&lt;br /&gt;diante de minha brevidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nós tão humanos&lt;br /&gt;enquanto elas tão pedras&lt;br /&gt;às vezes os reinos&lt;br /&gt;não se encontram.&lt;br /&gt;Os eretos, ilusoriamente geométricos&lt;br /&gt;e elas, as curvas, disformes e estáticas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho para o coração da pedra&lt;br /&gt;e tento vislumbrar&lt;br /&gt;o que ela traz de outras eras&lt;br /&gt;até o meu tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu tempo é sopro&lt;br /&gt;enquanto reino, crente&lt;br /&gt;que sou rei&lt;br /&gt;ignorando que no final&lt;br /&gt;dos meus dias&lt;br /&gt;ela olhará com indiferença&lt;br /&gt;pensando que em sete mil anos&lt;br /&gt;é apenas mais um orgânico&lt;br /&gt;que viu nascer, crescer, viver&lt;br /&gt;e depois retornar ao reino mineral.&lt;br /&gt;</description>
      <pubDate>Sun, 22 Jul 2018 20:35:38 +0000</pubDate>
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      <title>ODISSEIA DE UM SOBREVIVENTE</title>
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      <description>&lt;img src=&#039;https://www.luso-poemas.net/uploads/img59f5c5f6e52d9.jpeg&#039; class=&#039;img-responsive center&#039; border=&#039;0&#039; alt=&#039;&#039; onload=&quot;javascript:imageResize(this, 420)&quot;/&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style=&quot;font-size: medium;&quot;&gt;Não fui tão monstro como supôs a memória&lt;br /&gt;&lt;em&gt;ebriad&lt;/em&gt;a de rancor.&lt;br /&gt;Não morri das espadas como minha consciência&lt;br /&gt;insistia em construir meu caixão de remorsos.&lt;br /&gt;Mas jamais fui herói.&lt;br /&gt;Fui sempre pintado com a cor das tintas transparentes&lt;br /&gt;e sendo assim,&lt;br /&gt;ninguém jamais pensou no caos vivo que corria dentro de mim.&lt;br /&gt;Nem no pânico e terror das minhas emoções de bambu&lt;br /&gt;que rangiam ao vento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deslizei, não sei como, por caminhos pouco comuns&lt;br /&gt;tais como encanamentos de pias, bueiros, porões & tetos.&lt;br /&gt;Tiro a camisa e torço o sangue das trilhas sem glória.&lt;br /&gt;Não repetirei quantas vezes morri de fome e de sede.&lt;br /&gt;Quantas vezes minhas mãos nada tinham a afagar.&lt;br /&gt;Não falarei da neblina de tédio que cobria a minha cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrarei apenas do menino que nasceu puro amando &lt;br /&gt;o colorido das manhãs azuis...&lt;br /&gt;Do menino que não disse palavra e viveu &lt;br /&gt;o eterno verão de um pônei selvagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vim a nascer depois um cacto calado e paciente na espera do amor.&lt;br /&gt;Crescia em mim a natureza da solidão &lt;br /&gt;dando liberdade para que ocupassem o meu corpo&lt;br /&gt;todo o mato, galhos & cipós.&lt;br /&gt;Eles não faziam mal algum, nem incomodavam o coração&lt;br /&gt;que já estava igual a uma velha casa fechada e abandonada&lt;br /&gt;no meio das jabuticabeiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Moisés seguia pelo deserto guiado por uma nuvem&lt;br /&gt;e nós, na condição de mendigos&lt;br /&gt;apenas abríamos as bocas de misericórdia&lt;br /&gt;quando chovia o milagre.&lt;br /&gt;Eu amava a moça que perseguia os mistérios da Lua.&lt;br /&gt;As estrelas se alegravam em nós &lt;br /&gt;no alto dos montes. &lt;br /&gt;Os ufos nos cumprimentavam à distância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ainda sinto pelas noites perdidas no mofo&lt;br /&gt;em que meu corpo era como um armário velho e envergado&lt;br /&gt;e meu cérebro funcionava como uma maquininha burocrática.&lt;br /&gt;Bichinho social?! Me esqueci das essências:&lt;br /&gt;- Que navegar no mar do peito, é muito mais necessário.&lt;br /&gt;- Que navegar nos teus olhos é muito mais necessário.&lt;br /&gt;- Que amar é muito mais que necessário!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda me inspiro às margens do Verde.&lt;br /&gt;Ainda construo polígonos de estrelas às margens do Verde&lt;br /&gt;e vejo a canoa deslizar. &lt;br /&gt;Ainda faço guerra às margens do Verde. &lt;br /&gt;Minha aldeia é tolhida e mesquinha como eu mesmo.&lt;br /&gt;Mas a minha certeza no céu é bem maior.&lt;br /&gt;E além do mais,&lt;br /&gt;sempre terei que me ajoelhar diante do Princípio.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;</description>
      <pubDate>Mon, 09 Jul 2018 23:57:16 +0000</pubDate>
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      <title>O SONHO DE SER JOGADOR DE FUTEBOL</title>
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      <description>Nestas noites tropicais tenho que ir à varanda. Os grilos cantam a sinfonia deste final de verão, enquanto os pernilongos desafinam. Algumas estrelas lançam seu jorro do infinito enquanto uma tênue brisa vinda do rio Paraíba nos visita e alivia o calor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E da varanda fico assistindo a partida de futebol no campo de areia diante do meu prédio. A moçada joga com vontade, alguns levam a sério demais. Eles arriscam uma torção do tornozelo, a fratura da tíbia, luxação do perônio. Ninguém é de ferro e ninguém é profissional.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Talvez faça parte da fantasia masculina. Ainda um brinquedo de meninos, em substituição aos cavalos de pau, espadas e capas com a toalha de banho. Heroísmos que povoaram a mente desde a infância. &lt;br /&gt;Quantos jogadores frustrados ali no campo! Eu mesmo, mero espectador, sou um deles. Gostaria de ter sido um Leivinha, craque do Palmeiras na década de 70, ou ter a cadência de um Ademir da Guia, regente da Academia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonhos perdidos ainda presentes no inconsciente. Ser um astro: jogador de futebol ou cantor de rock. Semelhanças entre si: as luzes e a plateia.&lt;br /&gt;Mas a moçada ali no campo não convive com a fama, nem com o estrelato. Todos têm vidas comuns e cumprem as suas rotinas nos escritórios e nas fábricas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E reparo o senhor meio calvo e de barba, barriga supérflua e de pernas finas que se destaca dos demais jogadores. E se destaca porque os outros são razoáveis como amadores. Mas, ele não mostra qualquer destreza com a esfera. Corre como se tivesse as duas pernas amarradas. Não tem vergonha de dar vexame. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que a vida é assim mesmo. Tenho que repetir um antigo clichê: aqueles que estão na média, passam despercebidos, enquanto que os gênios e os loucos deixam o seu registro na história. &lt;br /&gt;E ele se desloca de um lado para o outro, livre de marcação. Mas os companheiros não passam a bola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a bola sobra após uma dividida, o chute sai enviesado e torto. Depois leva um drible desconcertante. Alguém solta do alambrado o velho grito das touradas de Madri: - Olé!&lt;br /&gt;- Vamos pegar na marcação! – grita como se fosse o capitão do time.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Volta! – dá o comando. &lt;br /&gt;O companheiro erra o passe. &lt;br /&gt;- Valeu! – mantém o incentivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meu julgamento implacável de observador de sacada, pergunto que se ele não fosse tão ruim de bola, seria solidário com os companheiros como demonstra ser? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E faço suposições sobre a sua vida profissional e o que faz pra ganhar a vida. Deve vestir terno e gravata nestes dias quentes e visitar os clientes tentando vender um produto da firma. Pode também trabalhar num escritório fazendo balancetes contábeis. Ou ainda, ser o responsável pelas devoluções de mercadorias e escutar as reclamações dos clientes de um supermercado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seja lá qual for a sua profissão, deve exercê-la com presteza. Atura tudo, todas as chateações, porque à noite tem a recompensa. Na imaginação sempre acontece um grande clássico. Mesmo que seja um perna de pau, joga com muito prazer e alma as suas peladas no campinho de futebol de areia.&lt;br /&gt;</description>
      <pubDate>Sat, 16 Jun 2018 23:22:15 +0000</pubDate>
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      <title>PAIÉRRALI</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=335464</link>
      <description>Ninguém  pretendia ficar “zapeando” diante da TV no quarto do hotel. O grupo que estava ali era formado por cientistas e pesquisadores de várias partes do mundo que participavam de um congresso científico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se formou a roda em torno de uma mesa: conversas soltas, discutindo-se assuntos diversos e até se buscando uma certa descontração. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu compadre Brandão conversava com alguns físicos. E fez uma pequena provocação:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Vocês físicos estudam o Maya que para o oriental é a ilusão. Todo este mundo fenomênico é Maya.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-	Ou seja, vocês estudam a ilusão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-	Como pode um cara estudar a explosão de uma estrela que aconteceu há dois milhões de ano-luz?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-	O outro, um indiano, estuda poeira cósmica!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-	Isto é trabalho? Trabalho pra mim tem que ser algo mais prático. Assim como o médico que opera o &lt;br /&gt;paciente, o motorista que dirige o ônibus e o contador que contabiliza os patrimônios de uma empresa. Bens palpáveis: ações, apólices, contas, apartamentos, carros...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;       E Brandão continuou a argumentar:&lt;br /&gt;       - O que muda em minha vida, se uma estrela explodiu há dois milhões de anos-luz?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;       Um dos físicos respondeu calmamente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - A ciência pura não tem que responder imediatamente a fins utilitários. Mas o que se estuda, pode um dia gerar alguma descoberta  importante para a humanidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas aquele grupo não queria discutir propriamente ciência naquele momento. E o grupo começou a ressaltar a cultura de cada um dos representantes ali presente. Começou com o italiano. E temos uma afeição especial pelos italianos, tão presentes na formação  do Brasil  pela miscigenação,   cultura e culinária. Digo que sou descendente dos  Thiengo para o italiano que parece um pouco com o Omar Sharif quando contracenava com a Sophia Loren. Aliás, Omar Sharif nasceu no Egito. Conhece algum Thiengo na Itália? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah!! Muitos – ele responde. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um bando de picaretas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Non, non, tutti buena gente! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Italianos, imperialistas na era dos Césares, mas deixaram muita coisa boa para o  mundo: Da Vinci,  Galileu, Fellini, macarroni, cinema Paradiso de Giuseppe Tornatore. Ora, aí está a alma latina. Humana e emocionada. Isto está fazendo falta pro mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E também nos lembramos de Roberto Bagio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Viva Roberto Bagio pelo pênalti perdido na Copa de 94 e o Brasil foi tetra!&lt;br /&gt;- Agora vamos falar sobre a Grécia! E olhamos para o cientista grego que queria conhecer a constelação do Cruzeiro do Sul. Fizemos um esforço pra mostrar-lhe a constelação. É uma coisa importante e ele queria aproveitar a oportunidade de estar no hemisfério sul. As luzes remotas da cidade atrapalhavam um pouco a visão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será pouco falarmos em Platão, Sócrates, Cícero, Demócrito como as contribuições da Grécia para o mundo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-  Viva os filósofos gregos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na outra extremidade da mesa, estava um norte americano com um boné na cabeça. Escutava calado, sorria e acompanhava as conversas. Perguntamos se ele estava conseguindo acompanhar a nossa conversa num inglês latinizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Yeah! Yeah! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assentada sobre a mesa estava a mulher russa que se chama Marina, como na música do Dorival Caymmi. Era uma mulher loira e alta, assim como penso que deve ser uma russa. E falava, e argumentava como quem tem vodca correndo no sangue. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos falar da Rússia.  Quem leu Dostoiévsky? – perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém se habilita a responder que leu Dostoiévsky, com a exceção de Marina. Ela leu por obrigação, no colégio,  assim como éramos obrigados a ler José de Alencar e Machado de Assis, no Brasil. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E alguém se lembrou  de falar em Yúri, o primeiro homem a ver que a nossa casa é azul e redonda. Marina diz que ele falou outra coisa que foi marcante, além de dizer que a Terra é azul:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Paiérrali!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Paiérrali? O que significa isto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Há de seguir, a pé, a cavalo, de moto ou de caminhão. Não importa como. Há de seguir, sempre.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tiro a carteira do bolso e anoto num pequeno pedaço de papel a palavra e o significado.&lt;br /&gt;Não sei onde a conversa mudou de rumo e caiu no desvão da religião, aquilo que está presente em &lt;br /&gt;cada povo de uma forma particular, íntima e inexplicável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marina foi firme na afirmação: - Coca cola também é religião!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- I don’t agree! – rebateu o norte americano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Coca cola também é religião! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu amigo Brandão falou que aquilo era o reinício da guerra fria. Era de madrugada. As plantas respiravam o orvalho da serra e os galos já anunciavam  o dia. Após uma foto com todo o grupo, um rapaz mexicano de cavanhaque e sem bigode, falou que “fotografias aprisionan el alma, como hablan el indígenas”..&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos todos com as almas aprisionadas. Mas devíamos seguir:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Paiérrali! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Paiérrali!  - Todos responderam alegremente.&lt;br /&gt;</description>
      <pubDate>Sun, 29 Apr 2018 02:01:32 +0000</pubDate>
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