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    <title>Luso-Poemas</title>
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    <description>Poemas, frases e mensagens</description>
    <lastBuildDate>Sun, 15 Mar 2026 12:03:05 +0000</lastBuildDate>
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      <title>Epístolas de Philautos </title>
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      <description>Bitínia, pridie Nonas Martias - (6 de Março)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, Lucílio! Quanto tempo não nos vemos, meu estimado e muito amado amigo! Envio-te esta missiva, pelas mãos de Herculano, para que saibas das novidades que acontecem na minha estadia na Bitínia e das infinitas alegrias que acometem as fibras do meu saltitante coração!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como tu bem sabes, fui convidado para representar meus trabalhos por aqui, pelas maravilhosas paragens dessa &quot; Mikrá Asía&quot;.  Mal  meus pés tocaram o cais do porto e já fui abordado por uma multidão de adoradores. Vieram cronistas, escribas, agentes  públicos e pessoas de todas as castas, distintas entre si, para receber-me. Não imaginas, Lucílio, o quão feliz fiquei em ser reconhecido ao longo do Mar Euxino! Eu já pressentia que minha fama tinha ultrapassado os picos nevados e as margens do Rio Don. Afinal, sou reconhecido  como um dos mais exímios escultores da nossa contemporaneidade. Entretanto, não imaginava que eu era tão amado e admirado assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O magistrado da cidade recebeu-me de forma efusiva, esbanjando sorrisos e concedeu-me o honroso Título de Proxenos, ato que quase me comoveu publicamente. Houve sons de harpas, liras e cítaras, tocadas de forma esplendorosa pelos bitínios, e até vestais vieram, descalças,  com alvas vestes que varriam as ruas por onde eu passava, em meio ao tumulto da turba ensandecida pela minha preciosa presença. Confesso-te que o ego não se deteve ao sentir-se massageado, e o espírito foi amansado pelos tantos afagos, presentes e homenagens que recebi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bitínia, VIII Idus Augustas - (6 de Agosto)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, meu amado Lucílio! Como estou feliz de estar respirando estes novos ares! Não poderia deixar de escrever-te, essa que agora trazes em tuas mãos,  e diante dos teus olhos, para relatar-te o que se passa nas férteis margens da Propôntida! Nem imaginas, Lucílio, o bem que estes ventos têm feito ao meu espírito e à minha inspiração! Ontem fui recebido pela comissão que irá analisar a obra que a mim fora incumbida. Disseram-me que fui o eleito entre dezenas de outros artistas que só o nosso profícuo mundo romano pode oferecer à posteridade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A comissão julgadora concede-me a honra de criar uma escultura que represente as virtudes, a coragem e a resiliência da Bitínia. Como bem sabes, sou o mais afamado e aclamado escultor do mundo clássico. Eu relatei  aos organizadores  que faria tal monumento somente à noite e que teria o luar como  minha única referência luminosa. Confio piamente no meu cinzel e em minhas prodigiosas mãos, Lucílio!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mandes minhas considerações aos nossos patrícios romanos. Dize a eles que Philautos, teu velho amigo, será um dos poucos artistas da nossa civilizada terra que será lembrado pelos homens do porvir!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bitínia, VIII Idus Decembres - (6 de Dezembro)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó, Lucílio, querido! Não imaginas as desgraças que acometeram este teu fiel e amado amigo! Estava eu concluindo o trabalho a mim encomendado, de que fiz menção nas pretéritas epístolas, quando uma desgraça sem igual acometeu o meu  desalentado destino!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como eu estava lhe dizendo, Lucílio querido, eu estava lapidando a pedra bruta somente nas noites de lua cheia. Eu queria mostrar ao mundo o meu talento, a minha magnitude; que meu cinzel era o bastão de Esculápio, não o calcanhar de Aquiles! Ai, Lucílio! Ai!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui lascando a marmórea pedra, descascando-a e buscando a beleza artística. Eu findava o hercúleo trabalho, e o  cobria com um sedoso pano,  quando a Aurora, com seus longos dedos rosados, iniciava a abrir as sanguíneas raias do dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai, Lucílio!  Nunc vero res se habent! Ao invés de óbolos, recebi opróbrios! Ao invés de  ovações, recebi escárnios! Ao invés de beijos, recebi escarros! No dia da inauguração da tão esperada estátua, houve festejo nas casas e o povo se reuniu na ágora da Bitínia. Todos esperavam a queda do linho ao chão, quando abriram-se as cortinas... Quanta decepção! O que surgiu foi uma estátua horrorosa, disforme e deformada! A minha criação era minha cópia distorcida! Era uma aberração de mim mesmo!&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Vide: Agora compreendo, Lucílio, quando dizias- me que &quot;somente quem se desprender dos desejos poderá ser livre, que  só tem prazer aquele que despreza os prazeres&quot;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;</description>
      <pubDate>Mon, 09 Feb 2026 20:31:26 +0000</pubDate>
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      <title>Depois do Expediente </title>
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      <description>Quanto tempo tenho estado aqui?  &lt;br /&gt;Adormeci lendo a tradução de um romance grego que jurava ser espanhol. Cheguei à biblioteca do bairro às seis da tarde, após um expediente estafante como almoxarife numa empresa de ônibus de viagem. Hoje não quero ir para casa. Já são oito da noite e ninguém veio me acordar. Até que horas esta biblioteca comunitária fica aberta? Os livros são as melhores companhias que eu poderia ter. Meu celular descarregou e não faz diferença nenhuma, já que quase ninguém me liga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra sexta-feira, precisamente a segunda após o Carnaval, quando a folia ainda ecoa distante como um tambor morrendo por inanição. O mundo se agita lá fora. Pessoas sem rostos transitam sem saber por quê. Carros endiabrados enlouquecem o ar — menos os meus ouvidos. Por isso me recolho sempre a esta biblioteca nos meus momentos de martírio. Hoje foi um dia de cão: suor, sangue e lágrimas. Todos os dias são assim. Hoje matei um leão. Amanhã não mato nem uma jaguatirica. Amanhã repouso nos braços do ócio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto isso, fico por aqui. Até agora não vi a bibliotecária. Não perco mais meu tempo com livros soníferos; preciso daqueles que incendeiem meu espírito. Hoje preciso descansar a alma — e os livros costumam me dar esse alívio, mas não este que me levou ao equívoco. Esta biblioteca é antiga, cheia de exemplares gastos pelo tempo. Quase nunca vejo pessoas aqui. Nem a bibliotecária. Sempre que venho, encontro-me só entre os livros — e é justamente por isso que aqui estou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levanto-me e passo os olhos pelo corredor da Literatura Nacional. Não gosto de escritores contemporâneos. Ali está *Quarto de Despejo*; logo à frente, *Dom Casmurro* e, acolá, repousa *O Triste Fim de Policarpo Quaresma*. Hoje não vou para casa. Vou ficando por aqui, como se o tempo também pudesse ser guardado nessas estantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, Fernanda me vem à mente. Lembro daquele dia no parque ecológico: uma excursão da escola. Eu odiava passeios escolares, mas amava Fernanda e isso bastava. Fernanda era a carta de alforria do regime ao qual eu estava atrelado. Por isso fui. Não gosto quando retiram um livro da prateleira e o colocam em outra. Fernanda não me sai da cabeça. Por onde andará? A última vez que a vi foi na noite em que brigamos. Meu amor-próprio afasta as pessoas de mim. Foi assim com meu irmão, com Fernanda e com o mundo. Estou falando do meu irmão caçula, que foi embora para os Estados Unidos em 1º de junho de 2009. Nunca mais nos falamos. Tudo por causa de Fernanda, que foi morar com ele. Não quero remoer esse sentimento, mas ele insiste em voltar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ali, na prateleira do meio, vejo alguns clássicos universais. O que mais se destaca é o tomo imenso de *Dom Quixote*, capa dura, verde. Aquele Balzac eu nunca li. Gosto do cheiro que sai dos alfarrábios. Sei que, com meu irmão, Fernanda está melhor. Ele pode dar a ela tudo o que merece. Eu só podia dar a mim mesmo — e, muitas vezes, só a gente não é o suficiente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O último Natal foi tão ruim quanto os outros. A mesmice natalina e a hipocrisia capitalista me aborrecem. Não é porque não tenho capital — tenho o suficiente para sobreviver. O que eu queria mesmo era lecionar História. O pecúlio de almoxarife garante o aluguel da kitnet. O almoço pago com ticket-refeição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha vontade era lecionar História em povoados com menos de mil habitantes. Abordaria o século XVI com tal euforia que Gabriel Soares de Sousa se orgulharia de mim. Não faria como Ambrósio Brandão, tampouco tão minucioso quanto Frei Vicente do Salvador, prolixo como Padre Vieira ou aborrecido como Padre Perereca. Relataria o Ciclo do Pau-Brasil com maestria, levaria os alunos aos engenhos de açúcar sem sequer citar Antonil. Ao Ciclo do Ouro Mineiro, contaria todas as nuances do entusiasmo de Tiradentes e do carrasco Januário. Meu objetivo seria educar no sertão para que as pessoas tivessem ferramentas para se desenvolver em termos socioeconômicos e culturais, evitando, assim, o êxodo rural e pátrio. Tenho tantos planos na mente… mas 2009 ficou com uma parte de mim. Os Estados Unidos também levaram outro pedaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde estará a bibliotecária? Já são oito e meia da noite. Como estará Fernanda? Será feliz ao lado de Augusto? De repente, passos arrastados ecoam pelo corredor da Literatura Francesa. Não os percebi de imediato. Pareciam passos de Fernanda. Eu gostava de vê-la caminhar quando andávamos de mãos dadas da escola até a casa dela. Sendo honesto, eu gostava de tudo nela — até quando se chateava com minhas brincadeiras sem graça. A graça estava na fisionomia daquela garota. Era inteligente, leitora de Kafka e Dostoiévski. Só conheci Tolstói por sua insistência. Hoje, Fernanda é apenas uma lembrança boa de algo que se foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os passos eram da bibliotecária. Pela primeira vez eu a via. Uma senhora adiposa, pernas inchadas, cabelos curtos e olhos perdidamente verdes. Disse que a biblioteca fecharia às nove e meia. Eu não queria sair dali. O perfume dos livros velhos me sedava deliciosamente. Abri ao acaso um volume e li:  &lt;br /&gt;“Após uma noite de sonhos inquietantes, Gregor Samsa amanheceu transformado…”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se hoje flerto com a poesia e estou nesta biblioteca, é porque aqui foi o lugar do nosso primeiro beijo — entre Tchékhov e Cervantes. O primeiro amor a gente nunca esquece. Nunca me esqueci de Fernanda. Fernanda me amou durante nove meses. Quando nosso amor ia parir um filho, algo abortivo surgiu dentro do útero do afeto, do carinho e da consideração. O útero se tornou túmulo. Ninguém sabe como começou. Augusto não escondeu, nem traiu o irmão. Ele também sofreu, e ninguém é culpado por amar. Fernanda não pôde se conter. Começaram com brincadeiras pueris, risinhos, convivência diária e, quando menos se espera, uma serpente nos envolve e vai apertando tanto que, quando abrimos a boca, ela pinga o fatal veneno, como diria um conhecido escritor. Ninguém tem culpa em amar. Augusto amou Fernanda — e foi retribuído.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já estou na rua e são onze horas da noite. Caminho sem Ovídio rumo ao Aqueronte. Desde que cheguei na cidade grande encontro-me em uma bifurcação &quot;aliciana&quot;, sem um sorriso de Cheshire para me nortear. Faz meses que não chove. Telhados e avenidas imundos. A chuva lava a alma, lava tudo — só não lava 2009. Parece que ele está lá, pregado, estático, na parede da minha memória. Um corvo alanesco pousa nos umbrais da minha vida, repetindo: “Never more! Never more! Never more!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade se agita. Eu me recolho dentro de mim mesmo, caramujamente. A cidade nunca dorme. Mãos nos bolsos, mochila nas costas e mil pensamentos intrusivos na cachola. Luzes de néon sinalizam um bar onde salgados se perpetuam dentro de gordurosas estufas. Peço cachaça e um cigarro picado. Bebo, fumo e encho a mão com amendoim torrado. Tudo ali me lembra miséria: sujeira, putrefação, bolor, gente estranha igual a mim — cada um com seus problemas, alegrias e tristezas. Na TV de tubo, algo se ensaia. Augusto é um bom rapaz. Fernanda certamente está feliz com a escolha que fez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saio pela cidade em ronda de Vanzolini. Conheço o centro como quem conhece uma cicatriz: sem precisar olhar. Encontro Célia na mesma esquina de sempre. Já a homenageiei num poema; disse que ela me chamava para “brincar”. Célia se aposentou das ruas; vem aqui apenas para se entorpecer. Eu também. O ar é nauseabundo e tudo isso me basta. Hoje não estou para brincadeira. Não voltarei para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus passos se perdem na calçada. Velhas feridas vêm e vão como as aves de arribação. Fecho os olhos por um instante e vejo Fernanda. Éramos amigos, além de amantes. Fernanda era fuga. Eu era prisão. Augusto era a liberdade. Por isso se foram para os EUA. Lá era o conforto. Lá tem uma estátua, com o braço em riste, que os representa. Em meu calvário, no Corcovado, a estátua com os braços fechados... Sou eu.</description>
      <pubDate>Fri, 06 Feb 2026 11:50:14 +0000</pubDate>
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      <title>A Mulher Na Janela</title>
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      <description>Capítulo I – A Vizinha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram duas horas da manhã e ela não pregara o olho. O barulho era insuportável. Não entendia — e menos ainda suportava — o som que reverberava da mansão vizinha. Ao se levantar, percebeu que o marido roncava uma melodia antiga, conhecida e quase, digamos, reconfortante. Foi até a janela e, mais uma vez, surpreendeu-se com a ostentação na casa ao lado:  carros importados e jovens estranhos faziam arruaça dentro do espaço sagrado daquele condomínio. Era outra festa em plena quarta-feira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida já não era a mesma desde quando aquela influencer se mudara para o Recanto do Sossego — que agora, ironicamente, parecia um palco de tortura chinesa. Camilinha viera da Baixa Pampulha, de um bairro chamado Shangrilá, que, apesar do nome mítico, figurava entre os mais pobres e violentos da Grande BH.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes não era assim. Na Alta Pampulha, não. Lá era lugar de gente educada, recatada, do lar, de família tradicional e cristã. Dentro daquele reduto não se via tão danosos disparates. Tudo mudara quando pessoas da periferia passaram a ter acesso aos privilégios que antes eram exclusivos das diluvianas castas mineiras. Camilinha era pura simpatia, divertida e, talvez, carismática; seus vídeos engraçados viralizavam, atraindo anunciantes e uma ascensão tão rápida que, em apenas um ano, permitiu-lhe comprar aquela mansão no famoso  Recanto do Sossego, irmão siamês do Lago dos Burgueses, um dos mais  renomados da secular capital mineira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe da jovem trabalhara ali, justamente naquele residencial, por anos. Muitas vezes a menina a acompanhava e ficava pelas cozinhas das madames, invisível, comendo pelos cantos. Agora, era proprietária de uma residência dentro daquele Solar onde, um dia, sua mãe fora funcionária; e a adolescente sabia desfrutar da oportunidade. Gostava de funk — o ritmo que retratava sua origem — e, agora enriquecida, não esquecia as raízes: quando festejava, trazia os amigos da Baixa Pampulha e outros influencers que, como ela, também tinham ascendido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já a vizinha espiã nascera na Alta Pampulha. Fora educada nos melhores colégios e, com muito sacrifício e só seu, unicamente seu, mérito, formara-se em medicina aos vinte e quatro anos. Doía no fundo  da sua alma assistir o Recanto ser &quot;invadido&quot; assim. Os bárbaros não teriam causado maior dano a Roma do que aquele povo vinha causando ao condomínio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem suportar o desaforo, acionou  o 190.&lt;br /&gt;— Polícia Militar, pois não?&lt;br /&gt;— Preciso fazer uma denúncia anônima, urgente. Som alto no Recanto do Sossego em plena madrugada, impedindo as pessoas que movimentam as engrenagens deste país de terem o descanso merecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aguardou, ansiosa. Em menos de uma hora a viatura policial chegou. Observou a abordagem por trás do blindex italiano, fria como o vidro que a protegia. O som cessou. Um sorriso leve surgiu em seu rosto enquanto as primeiras luzes do dia se filtravam pelas venezianas vazias. Apenas o ronco confortante do marido ecoava no recinto. Ela fechou as cortinas e, enfim, deitou-se feliz. O silêncio retornara ao Recanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo II – No Elevador&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que ela mais temia aconteceu: dias depois, a caminho do salão de Madame Mimi — a francesa que atendia a elite local —, a Mulher da Janela encontrou Camilinha no elevador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi difícil conter o desdém. Fingiu estar absorta em uma mensagem importante no celular, ignorando qualquer cumprimento. Ao seu lado, Camilinha assistia ao seu último vídeo viral, onde pregava uma peça em amigos em sua mansão. O som, embora baixo, parecia ensurdecedor e infernal dentro daquela cápsula de metal inoxidável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqueles segundos foram horas de terror. Já não bastava cruzar com &quot;essa gente&quot; no trânsito, aeroportos e universidades; agora tinha de dividir o mesmo elevador a caminho de seu momento de cuidado? Quando as portas se abriram no andar do salão, sentiu a repugnância do perfume de Camilinha impregnado em suas narinas. Saltou para fora e, mentalmente, agradeceu ao Eterno pelo fim daquele martírio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No salão, Madame Mimi, com seu sotaque parisiense afetado de BH, saudou-a com beijos no ar e ouviu o desabafo sobre a vizinha infernal. &quot;C&#039;est du mimimi, chérie, esses novos vizinhos...&quot;, disse a francesa, enquanto o vapor de lavanda dissipava o fantasma do perfume da periferia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Camilinha seguiu viagem, subindo até o último andar. Ia ao consultório dos dentistas mais caros da capital para colocar porcelana nos dentes. Afinal, Camilinha agora era uma estrela, e toda estrela nasce exclusivamente para brilhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo III – No Supermercado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia tempos que ela não pisava em um supermercado. Maria, a empregada, não aparecera: teve de levar o filho caçula ao médico e, no mundo de Maria, uma consulta pelo SUS equivale à perda de uma diária. Contrariada, a doutora viu-se forçada a &quot;ir à batalha&quot; pela própria subsistência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Odiava o rito das compras. Enquanto dirigia, amaldiçoava Maria em pensamento. Tudo lhe causava ojeriza: o trânsito, a disputa por vagas, a vulgaridade de carregar a própria cestinha. Entrou no estabelecimento ignorando o &quot;bom dia&quot; cortês de um funcionário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dirigiu-se imediatamente à seção de orgânicos e hidropônicos. Ali, entre verduras selecionadas e queijos de soja, sentia-se em seu reduto de distinção. Porém, ao se aproximar do corredor de bebidas, onde ia comprar sua água mineral gaseificada, deparou-se com o caos: Camilinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A influencer estava radiante, com dentes de uma brancura artificial e agressiva. Estava acompanhada por Vitória, sua mãe. De longe, a médica estacou. O sangue fervia; a alegria daquelas duas era um insulto pessoal. A surpresa veio com um choque de memória: ela reconheceu Vitória. Lembrava-se dela circulando pela mansão da Família Mendes Barroso de Azeredo, mas na condição de servidão. Agora, ali estava Vitória, empurrando o próprio carrinho, comprando para si e não para uma patroa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O carrinho das duas era o espelho de tudo o que ela detestava: achocolatados, iogurtes e refrigerantes berrantes. Para a mulher dos orgânicos, aquela visão era nauseabunda, um ambiente &quot;insalubre&quot;. Incapaz de suportar a cena, fugiu para o caixa rápido, sem a água gaseificada, sem saber que, mesmo sem intenção, aplicava a Régua de Procusto. Saiu às pressas, emputecida com a constatação de que o mundo, definitivamente, já não respeitava as fronteiras que ela tanto lutava para preservar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo IV – Na Academia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fim das festas natalinas. Início de ano novo. Depois de tanta fartura e viagens, a Mulher da Janela voltou à academia do condomínio. Nova legging, rabo de cavalo alto, tênis brancos reluzentes. Serelepe, cumprimentou o personal trainer. Aquecimento. Alongamentos. Um, dois, três! Um, dois, três!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, o golpe: Camilinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esbanjando curvas impossíveis, e uma juventude que fere, lá estava ela: Roupa colada como segunda pele, mostrando sua graça e formosura, em remadas baixas, no aparelho de musculatura. A médica congelou. Nem na academia havia sossego. Não era inveja — ela amadurecia bem, não brigava com o espelho. Era a invasão. Era o odor periférico profanando seu território sagrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subiu correndo para o andar superior. Esteira. Velocidade 5. Fones de ouvido. Olhos fechados. Imaginou o mundo antigo. Salão de Madame Mimi sem perfume de periferia. Supermercado sem carrinhos de achocolatado. Academia sem... aquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abaixo, risadas ecoavam. Funk baixo pulsava. A Mulher da Janela acelerou para 6. O Recanto do Sossego morria. Ela sentiu o corpo tremer, o coração galopando. Cada passada na esteira era resistência, fuga, expulsão do intruso. O mundo inteiro se reduzia àquele compasso, àquele suor, àquele silêncio interior que insistia em resistir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo V – Na Janela&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sexta-feira. Camilinha acordou mais tarde. Tivera sonhos deliciosos. Sentia-se realizada. Estava ansiosa com a entrevista que concederia ao meio-dia, em uma rádio local. Ao abrir a janela da mansão, deparou-se com a alegria do dia: as flores de seu jardim e as dos jardins vizinhos — sobretudo as da casa ao lado, pertencente a uma senhora de poucas conversas, que Camilinha supunha ser médica. Os raios solares invadiram as enormes janelas da mansão de Camilinha, deixando todo o ambiente repleto de luz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, o olhar curioso da menina do Shangrilá se depara com a Mulher da Janela, na janela. Camilinha, num gesto natural e simpático, exibiu o mais sincero dos sorrisos e acenou com um &quot;tchauzinho&quot;. A doutora rosnou um impropério qualquer e fechou as cortinas ferozmente, como se tivesse sido violentada ao ser descoberta em seu momento de voyeur. Sentiu-se reconhecida e sentiu vergonha por ter sido flagrada espionando a casa alheia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A médica achava a residência vizinha de um mau gosto sem igual. O projeto daquela casa não fora traçado pelas mãos de seu querido e conhecido amigo, Laerte Araújo Andrade Gutierrez. A sua, ao contrário, fora a primeira do condomínio a ostentar o risco do renomado arquiteto. Nem tudo se podia permitir. Não era apenas poder de compra. Era classe. Achava aquele azul tão démodé! Tudo o que se referia à residência e à pessoa de Camilinha lhe cansava a beleza e lhe provocava os nervos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Camilinha não podia conter a própria felicidade. Ainda ecoava em sua mente o evento da noite anterior. Parecia ouvir, mais uma vez, as vozes empolgadas dos apresentadores:&lt;br /&gt;— &quot;Senhoras e senhores, boa noite! É com enorme prazer que recebemos hoje aqui uma mulher que dispensa apresentações. Ela que conquistou milhões de seguidores, que virou referência, que transformou sua história em um verdadeiro fenômeno nacional. Com vocês, a influencer mais comentada do país: carisma, sucesso e autenticidade em pessoa, Camilinha!&quot;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se regozijou em  júbilos e quase entrou em nirvana com as doces lembranças dos efusivos aplausos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do outro lado, detrás da janela vizinha, a doutora ruminava pensamentos esparsos. Lembrou-se dos filhos, que há muito não via. O mais velho fora estudar na Austrália e acabara se casando por lá. O caçula tivera de cursar faculdade em outra cidade, pois não conseguira passar nos preparatórios da UFMG. O marido nunca estava presente. Quando não se encontrava na clínica de estética da família, estava no Clube do Recanto, arriscando alguma jogada de golfe. Não sabia jogar — nem gostava —, mas era uma forma de se firmar perante os vizinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após o fechamento abrupto das cortinas, voltou a reinar a penumbra naquela imensa morada. A mulher detrás daquela janela foi tomar o chá em sua xícara de porcelana chinesa adornada com caracteres indecifráveis, ruminando, pensativa, na mais completa solidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo VI – Em Miami&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ufa! Enfim, as tão sonhadas e desejadas férias chegaram. Partiram do Aeroporto de Confins numa sexta-feira à noite. À noite, o trajeto da Alta Pampulha até o aeroporto é belíssimo: a escuridão protege — e colabora — diante de certas realidades inconvenientes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embarcou. Observando pela janela do avião ela pode ver as luzes de Belo Horizonte e do Brasil se dissipando na escuridão. Sentiu um alívio imediato. Nasceu um tímido sorriso em seus lábios maquiados pelo batom francês comprado no salão de Madame Mimi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A doutora e o marido encontrariam os filhos em Miami. Lá se reuniriam, como faziam religiosamente a cada seis meses. Eram nesses encontros fugazes que ela esboçava algum sorriso — breve, ensaiado, mas ainda assim um sorriso. Ah, Miami! Recanto da beleza, do bem-estar, da verdadeira civilização!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O voo foi tranquilo, sem escalas. Chegaram. Novos ares! O marido dormira o tempo todo e só despertou para desembarcar, com aquela expressão de quem atravessara um túnel sem perceber o caminho. Ela, ao contrário, estava quase esfuziante. Ao pisar em solo americano, lembrou-se de Carlota Joaquina regressando a Portugal após mais de  uma década e quase bateu as sandálias, como quem sacode o pó do Brasil. Amava Miami. Só não residia ali porque os negócios da clínica de estética da família iam muito bem no país de origem — caso contrário, já teria atravessado a América com malas e ilusões definitivas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, Miami! Ah, América! Berço civilizatório da democracia contemporânea e da liberdade! Tudo ao redor parecia conspirar a seu favor: mansões impecáveis, pessoas exuberantes, trânsito organizado, ruas limpas, ordem social obedecida com naturalidade quase moral. Sentia-se outra mulher. Precisava de férias — e somente fora do Brasil poderia encontrar o repouso que julgava merecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No trajeto do aeroporto até o hotel, contudo, algo desferiu um golpe seco em seu estômago, azedando o vinho da chegada: um outdoor monumental à beira da rodovia. Era Camilinha. Mas não a Camilinha das dancinhas; era uma Camilinha institucional, blindada por uma beca azul e preta que exalava uma autoridade acadêmica que a doutora julgava ser propriedade de sua casta. Numa mão, o canudo de formatura era erguido como um cetro; na outra, o dedo em riste apontava impiedosamente para o espectador, mimetizando o gesto convocatório do Tio Sam. O sorriso, de uma brancura de porcelana agressiva e artificial, parecia iluminar a própria estrada. Acima da imagem, em letras garrafais que gritavam contra o azul do céu da Flórida, lia-se apenas: “YOU!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o anúncio de um curso de inglês para o aperfeiçoamento da “língua nativa americana”. Aquela imagem, imensa e onipresente, feriu-lhe o coração com a precisão de um bisturi. Nem em seu momento de júbilo e regozijo a figura de Camilinha lhe concedia sossego. Camilinha a encontrara. Camilinha a convocava. Camilinha, enfim, a vencia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Engoliu a sensação sozinha. Não podia compartilhá-la com o marido — o que, de resto, não resolveria nada. Ele já dormia novamente, agora no banco traseiro do táxi, alheio a tudo: à cidade, à esposa, ao incômodo silencioso que crescia dentro dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegaram ao hotel. Subiram para o quarto. Aproximou-se da janela e observou Miami de cima, iluminada, ordeira, quase irreal. Tentou sorrir. Não conseguiu. A lembrança do outdoor furtou-lhe aquele gesto raro, mais uma vez.&lt;br /&gt;</description>
      <pubDate>Sat, 31 Jan 2026 21:53:26 +0000</pubDate>
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      <title>Papai Não É </title>
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      <description>Ah, Papai Noel,&lt;br /&gt;Símbolo do consumo&lt;br /&gt;e do desamor,&lt;br /&gt;travestido de bom velhinho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que, Papai Noel,&lt;br /&gt;seu trenó não pousa&lt;br /&gt;em barraco de favela?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só porque não temos&lt;br /&gt;chaminé?&lt;br /&gt;Só porque aqui não neva?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca ultrapassou&lt;br /&gt;a linha do Equador.&lt;br /&gt;Somente um seu parente,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;um tanto latinamente,&lt;br /&gt;por aqui late &lt;br /&gt;e te mimetiza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cadê o meu presente&lt;br /&gt;que nunca chegou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As vitrines se acendem,&lt;br /&gt;a cidade se enfeita,&lt;br /&gt;mas a fome não dorme&lt;br /&gt;nem entra em recesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não te amo.&lt;br /&gt;Nem te odeio.&lt;br /&gt;Só não te odeio&lt;br /&gt;porque não creio em ti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só não te ofendo&lt;br /&gt;porque não pode me ouvir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só não te mando&lt;br /&gt;para a casa do caralho,&lt;br /&gt;Papai Noel,&lt;br /&gt;porque já mora lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda assim, deixei&lt;br /&gt;meu pedido&lt;br /&gt;dobrado numa meia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leia,&lt;br /&gt;velhinho imprestável,&lt;br /&gt;e vê se manda logo &lt;br /&gt;o meu carro importado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;</description>
      <pubDate>Thu, 29 Jan 2026 16:37:15 +0000</pubDate>
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      <title>No Elevador</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=382338</link>
      <description>Capítulo II – No Elevador&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que ela mais temia aconteceu: dias depois, a caminho do salão de Madame Mimi — a francesa que atendia a elite local —, a Mulher da Janela encontrou Camilinha no elevador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi difícil conter o desdém. Fingiu estar absorta em uma mensagem importante no celular, ignorando qualquer cumprimento. Ao seu lado, Camilinha assistia ao seu último vídeo viral, onde pregava peças em seus amigos. O som, embora baixo, parecia ensurdecedor e infernal naquele cubículo de metal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqueles segundos foram horas de terror. Já não bastava cruzar com &quot;essa gente&quot; no trânsito, aeroportos e universidades; agora tinha de dividir o mesmo elevador a caminho de seu momento de cuidado. Quando as portas se abriram no andar do salão, sentiu a repugnância do perfume de Camilinha impregnado em suas narinas. Saltou para fora e, mentalmente, agradeceu ao Eterno pelo fim daquele martírio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No salão, Madame Mimi, com seu sotaque parisiense afetado de BH, saudou-a com beijos no ar e ouviu o desabafo sobre a antipática vizinha. &quot;C&#039;est du mimimi, chérie, esses novos vizinhos...&quot;, disse a francesa, enquanto vapor de lavanda dissipava o fantasma do perfume periférico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Camilinha seguiu viagem, subindo até o último andar. Ia ao consultório dos dentistas mais caros da capital para colocar porcelana nos dentes. Afinal, Camilinha agora era uma estrela, e toda estrela nasce para brilhar.&lt;br /&gt;</description>
      <pubDate>Tue, 27 Jan 2026 21:45:43 +0000</pubDate>
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      <title>A Nova Vizinha </title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=382334</link>
      <description>Capítulo I – A Vizinha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram duas horas da manhã e ela não pregara o olho. O barulho era insuportável. Não entendia — e menos ainda suportava — o som que reverberava da mansão vizinha. Ao se levantar, percebeu que o marido roncava uma melodia antiga , conhecida e quase, digamos, reconfortante. Foi até a janela e, mais uma vez, surpreendeu-se com a ostentação: carros importados e jovens estranhos faziam arruaça dentro do condomínio. Era outra festa em plena quarta-feira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida já não era a mesma desde que aquela influencer se mudara para o Recanto do Sossego — que agora, ironicamente, parecia um palco de tortura chinesa. Camilinha viera da Baixa Pampulha, de um bairro chamado Shangrilá, que, apesar do nome mítico, figurava entre os mais pobres e violentos da Grande BH.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes não era assim. Na Alta Pampulha, lugar de gente educada, de família tradicional e cristã, não se viam tais disparates. Tudo mudara quando pessoas da periferia passaram a ter acesso aos privilégios que antes eram exclusivos das diluvianas castas mineiras.&lt;br /&gt;Camilinha era carismática; seus vídeos engraçados viralizavam, atraindo anunciantes e uma ascensão tão rápida que, em apenas um ano, permitiu-lhe comprar aquela mansão no famoso &quot;Recanto do Sossego&quot;, o mais renomado da região.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe de Camilinha trabalhara ali, justamente naquele condomínio, por vários anos. Não foram poucas as vezes que a menina a acompanhava e ficava pelas cozinhas das madames,  invisível, comendo pelos cantos, algum resto de broa ou pão dormido. Agora, era proprietária de uma residência dentro daquele condomínio onde, um dia, sua mãe fora funcionária e, Camilinha, sabia desfrutar da oportunidade. Gostava de funk — o ritmo que retratava sua origem — e, agora enriquecida, não esquecia as raízes: quando festejava, trazia os amigos da Baixa Pampulha e outros influencers que, como ela, também tinham ascendidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já a Mulher da Janela nascera na Alta Pampulha. Fora educada nos melhores colégios e, com sacrifício e mérito, formara-se em medicina aos vinte e quatro anos. Doía-lhe ver o Recanto ser &quot;invadido&quot;. Os bárbaros não teriam causado maior dano a Roma do que aquele povo vinha causando ao condomínio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem suportar o desaforo, ligou para o 190.&lt;br /&gt;— Polícia Militar. Em que posso ajudar?&lt;br /&gt;— Quero fazer uma denúncia anônima, urgente. Som alto no Recanto do Sossego em plena madrugada impedindo as pessoas que movimentam as engrenagens deste país de terem o descanso merecido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aguardou. Em menos de uma hora a  viatura policial chegou. Observou a abordagem por trás do blindex italiano, fria como o vidro que a protegia. O som cessou. Um sorriso leve surgiu em seu rosto enquanto as primeiras luzes do dia filtravam pela veneziana. Apenas o ronco confortante do marido ecoava no recinto. Ela fechou as cortinas e, enfim, deitou-se feliz. O silêncio retornara ao Recanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;</description>
      <pubDate>Tue, 27 Jan 2026 02:56:17 +0000</pubDate>
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      <title>Para meu Amiguirmão </title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=382272</link>
      <description>Um certo cantor carioca,&lt;br /&gt;De todos nós tão conhecido,&lt;br /&gt;Dizia que, quem canta chora,&lt;br /&gt;Que a viola solta um gemido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E vendo o poeta indo embora,&lt;br /&gt;Deste imago mundo partindo,&lt;br /&gt;Eu faço este poema que ora&lt;br /&gt;Para o &quot; amiguirmão&quot; falecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua voz ecoa, completa.&lt;br /&gt;Sua perda não me consome.&lt;br /&gt;O ciclo jamais se encerra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um grito percorre a Terra.&lt;br /&gt;A terra que devora o Homem.&lt;br /&gt;Jamais morrerá o poeta!</description>
      <pubDate>Wed, 21 Jan 2026 00:41:16 +0000</pubDate>
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      <title>O Mais Lindo Poema Do Zé Silveira </title>
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      <description>o ‘olho d&#039;água’ cessara, mas,&lt;br /&gt;ainda chovia feito escumilha&lt;br /&gt;em rajadas frias e constantes.&lt;br /&gt;gotas imaculadas enxaguavam&lt;br /&gt;os musgos das telhas de mão,&lt;br /&gt;escorriam pouco ruidosas&lt;br /&gt;pelas velhas calhas acobreadas,&lt;br /&gt;caindo em golfadas, espalhando-se&lt;br /&gt;sonolentas pela alameda e jardins&lt;br /&gt;do antigo casario hospedagem.&lt;br /&gt;deixei o olhar no correr das águas...&lt;br /&gt;aprendera, analgésico natural&lt;br /&gt;pra enganar a dor previsível,&lt;br /&gt;manifestada, pelos espasmos&lt;br /&gt;ao assistir de longe uns restos&lt;br /&gt;de palavras sujas soltas no ar,&lt;br /&gt;valorada talvez aos que as usavam...&lt;br /&gt;absorto, tenso, rabiscara no papel&lt;br /&gt;algumas letras sem nexo, dispersas;&lt;br /&gt;era o mesmo que num papel vazio,&lt;br /&gt;desgraçadamente desvalorizado...&lt;br /&gt;veio-me então uma sensação&lt;br /&gt;estranha, de sentir as mãos sujas,&lt;br /&gt;demoníacas, deformando versos...&lt;br /&gt;e num vórtice sem fim vi a poesia&lt;br /&gt;sendo arrastada, tragada,&lt;br /&gt;violentada bem ao lado de mim...&lt;br /&gt;saio da escrivaninha atormentado;&lt;br /&gt;circunspecto, triste semblante.&lt;br /&gt;debruço-me meio corpo pra fora&lt;br /&gt;do parapeito da janela, quase em&lt;br /&gt;pêndulo, e ainda deu para eu ver&lt;br /&gt;beirando a linha das telhas úmidas&lt;br /&gt;a lua esconder–se envergonhada;&lt;br /&gt;as estrelas, opacas, dependuradas&lt;br /&gt;no final da linha do varal do céu...&lt;br /&gt;o poema, cabisbaixo me acompanhara&lt;br /&gt;e ao meu lado, próximo à janela; chorava...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leia mais: &lt;a href=&quot;https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=350873&quot; title=&quot;https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=350873&quot; rel=&quot;nofollow&quot;&gt;https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=350873&lt;/a&gt; © Luso-Poemas</description>
      <pubDate>Tue, 20 Jan 2026 15:17:26 +0000</pubDate>
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      <title>À Espera Dos Pássaros </title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=382181</link>
      <description>Despertou e olhou para o relógio pregado na parede: seis horas da matina. Como de costume, levantou-se e foi ao banheiro. Lavou o rosto, escovou os dentes e penteou os poucos fios de cabelo que lhe restavam. Ao voltar ao quarto, reparou que o relógio ainda marcava seis horas. Teria estragado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pegou o celular que carregava na tomada. Estava desligado. Tentou ligá-lo. Nada. Supôs que a energia elétrica tivesse faltado durante a madrugada. Apertou o interruptor da lâmpada. Nenhuma resposta. Confirmado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vestiu a farda e desceu os degraus rumo ao carro. Pela posição do sol, calculou que fossem seis e meia. Entrou no veículo e girou a chave. Nada. Tentou outra vez. O painel permaneceu morto. Nenhuma luz, nenhum som. O carro também não funcionava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vociferou impropérios contra os deuses e contra os homens. Saiu do carro e foi para a cozinha. Resolveu fazer um café. O fogão não acendeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A inquietação crescia — sobretudo pela ausência da internet. Morava em área rural e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se isolado do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não demorou e acordaram a esposa e os filhos. Contou o ocorrido. A família entrou em desespero. Como viver sem televisão, sem geladeira, sem redes sociais? A mulher caiu em prantos e recolheu-se ao quarto. O filho mais novo batia o tablet no chão, como se pudesse ressuscitá-lo à força. O mais velho andava de um lado para o outro, olhos agitados, mãos tensas, já à beira da violência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele sentou-se no sofá, cotovelos apoiados nos joelhos, os dedos enfiados nos cabelos. O que teria acontecido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então que reparou numa flor bonita sobre a mesa. Parecia morrer por inanição, já sepultada dentro de um jarro de porcelana ricamente ornamentado com caracteres asiáticos. Nunca havia reparado nela. Nem sequer sabia o nome. Foi até a pia, encheu um copo de água e deu de beber à planta, como se cumprisse um rito tardio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, abriu a porta e olhou para o céu, quase num pedido de milagre — não sabia bem a quem. Percebeu, com certo espanto, que havia muito tempo não levantava os olhos para a abóbada celestial. O dia estava bonito: céu azul, sol radiante, nuvens corredias e acarneiradas atravessando a atmosfera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Baixou o olhar e deu-se com uma gameleira elegante e frondosa que aflorava no quintal coberto de relva verdejante. Um sem-número de pássaros cruzava o céu em revoada; alguns pardais beliscavam pomos maduros espalhados pelo chão. Apanhou um deles, provou. Achou delicioso. Havia muito tempo que só comia e bebia coisas embaladas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma cadelinha bem preta surgiu no portal da casa. Por um instante, não se lembrou do nome dela. Chamou-a como os homens chamam os cães. Ela veio ligeira, rebolativa, orelhas baixas, cauda alegre, e lambia-lhe as mãos com devoção antiga. Ele a tomou no colo e sentiu o peito encher-se de uma ternura esquecida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentou-se no gramado e ficou ali, aguardando que os pássaros em revoada regressassem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A esposa observava a cena pela janela do quarto. Os filhos também. Desceram. Sentaram-se junto dele. A mulher pousou o braço sobre seu ombro; os filhos se achegaram. Permaneceram todos em silêncio, fitando o horizonte, encantados com a beleza do dia, aguardando o regresso dos pássaros de arribação, enquanto repartiam, sem pressa, os pomos maduros.</description>
      <pubDate>Tue, 13 Jan 2026 13:50:59 +0000</pubDate>
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      <title>Canção do Extermínio </title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=381964</link>
      <description>Minha terra tem mangueiras&lt;br /&gt;donde canta o bem-te-vi.&lt;br /&gt;O pardal que aqui gorjeia&lt;br /&gt;veio de longe daqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha terra brasileira&lt;br /&gt;tem romãs, maçãs, caquis;&lt;br /&gt;mas até a laranjeira&lt;br /&gt;veio de longe daqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até mesmo os coqueirais &lt;br /&gt;pelas praias impolutas,&lt;br /&gt;que, com juçara disputa,&lt;br /&gt;vieram de outros quintais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem carrega tantas mágoas?&lt;br /&gt;É nativo ou do porvir,&lt;br /&gt;vindo lá daquelas águas?&lt;br /&gt;Creio que não são daqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que trazem em suas malas?&lt;br /&gt;Negros homens a luzir,&lt;br /&gt;junto aos outros, de outras castas,&lt;br /&gt;naves que surgem dali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me assombro até os cabelos,&lt;br /&gt;se arrepia tudo em mim;&lt;br /&gt;e o meu corpo – tão vermelho! –&lt;br /&gt;já aguarda o nosso fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que trazem? Deuses negros&lt;br /&gt;ou diabos que não vi?&lt;br /&gt;Serão sonhos, pesadelos&lt;br /&gt;estes seres vindo ali?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então vejo homens claros,&lt;br /&gt;vestes longas, coloridas,&lt;br /&gt;dando foices e machados&lt;br /&gt;pelas árvores de tinta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a terra, muda, assiste&lt;br /&gt;certos nomes que lhes dão;&lt;br /&gt;uma cruz com um homem triste&lt;br /&gt;morto em crucificação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não queremos mais espelhos!&lt;br /&gt;Não queremos rum nem gim!&lt;br /&gt;Nós sentimos tantos medos!&lt;br /&gt;Pressentimos nosso... fim!</description>
      <pubDate>Mon, 22 Dec 2025 17:13:35 +0000</pubDate>
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