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Poemas, frases e mensagens de DomingosdaMota

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de DomingosdaMota

Contra a infâmia

 
O poeta
Morreu
Subitamente.
Os amigos lamentam a partida.

Os inimigos procuram execrá-lo.
Os idiotas vomitam idiotias.
Os filhos da puta dizem-no filho da puta.
E os cobardes mostram o que são.

O poeta já não pode ripostar.
Mas deixou-nos,
Para ler, os seus poemas,

Uma obra acesa contra a infâmia.
Importa conhecê-la,
E divulgá-la.

Domingos da Mota

http://domingosmota.blogspot.com
 
Contra a infâmia

SOPA DE PEDRA

 
No poema cabe tudo,
sobretudo o que não há:
cabe o mundo com os modos
funcionários de viver
e cabem todos, mas todos
os excluídos de o ter,
cabe o pão que o diabo
amassou e pôs no forno

(só não cabe o bacirrabo
com a sua voz do dono),
cabe a pedra, cabe a sopa,
cabe o estômago vazio
e a boca, muita boca
com a vida por um fio,
cabem o sujo e o limpo,
cabem o lodo e a lama,

a cicuta e o absinto,
o imposto e a derrama,
cabe o preço, cabe a prece,
cabem deuses e demónios,
cabe até o que parece
mais real que muitos sonhos,
cabem horas e minutos
e segundos de alegria,

cabem passos dissolutos,
cabe mesmo o que não queria,
cabem o fogo e a cinza,
o perfume e o fedor -
o poema bem ranzinza,
mas não fede, não senhor,
cabem o silêncio e o grito,
mais o grito que o silêncio,

importante requisito
para dizer o que penso.
Se depois de tudo isto,
não há vagas, está fechado
o poema, eu insisto
com a glosa do tema:
faço uma sopa de pedra,
e com a pedra um poema.

Domingos da Mota

a partir da leitura do poema, NÃO HÁ VAGAS, de Ferreira Gullar

(publicado também no blogue http://domingosdamota.blogspot.com/)
 
SOPA DE PEDRA

Anamnese

 
Mais que fazer
se desfazem

os anos que
por mim passam

Nem sei se levam
se trazem

o que depois
desenlaçam

Domingos da Mota

(publicado também em
http://domingosdamota.blogspot.com/)
 
Anamnese

Pequeno tratado de comércio

 
Trocam o santo-e-senha
cortesias e louvores -
sobretudo o que mantenha
o comércio de favores

Domingos da Mota

publicado também em http://domingosdamota.blogspot.com
 
Pequeno tratado de comércio

Sarabandas

 
Numa guerra como esta,
de alecrim e manjerona,
aparece quem detesta
e quem dispara e detona

sarabandas e arejos,
entre ditos e dichotes,
abrenúncios e harpejos,
sugestões de piparotes

no cocuruto de quem
desembesta, com acinte,
o menosprezo, o desdém,
do alto do seu requinte.

Numa guerra de alecrim
e manjerona, talvez,
haja não, só porque sim,
e muito sim de viés,

mas toda essa porfia
não passará de sarcasmo
sem dois dedos de ironia
e uma pitada de pasmo.

Domingos da Mota

(inédito,
http://morcegoseolhimancos.blogspot.com/)
 
Sarabandas

«Tudo é semente.» Novalis