Poemas, frases e mensagens de Levant

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Levant

guerra

 
o bebé morreu depois.
antes disso, a irmã de nove anos,
cabeça estilhaçada,
o sangue a escorrer em golfadas,
os braços em cruz, inúteis,
deitada no frio da loiça partida
da casa de banho.

fez anos em maio.
cantaram-lhe os parabéns.
corou.

o bebé não tinha celebrado nenhum aniversário.

a mãe, de vazios olhos abertos,
arrastada pelo sopro da explosão,
desfez-se em fragmentos pesados,
espalhada pelo quarto.

inexplicavelmente, a cama
ficou intacta.

foi no terceiro esquerdo,
num prédio antigo.
um trovão breve, seco,
um corte no ar,
um assobio violento.

o silêncio e o sangue colaram-se às paredes.

a guerra ainda não tinha chegado à cidade.
chegou naquele instante.
 
guerra

Caim

 
Chamo-me Caim,
um nome inesperado, escolhido pelos pais,
que não rima com serra, mas que a condenação confirmou.

Tenho Parkinson desde os quarenta e cinco anos.
Vivo sozinho desde os catorze.
Morreram-me todos num incêndio.

Lembro-me bem:
a minha irmã Lúcia a arder encostada ao muro,
com um rosto de espanto e dor, agarrada ao peluche
que os primos trouxeram de França;
o meu irmãozinho Luís a chorar no berço,
sem ninguém para o acudir;
a avó a balbuciar coisas da infância,
sem entender o que acontecia;
o pai desorientado a salvar as ovelhas
na vez da família;
a mãe a olhar para mim com uma lágrima
que o fogo não secou.

Visito-os todos os dias no cemitério, até que o corpo permita.
Levo
rosas
gerânios
crisântemos
lírios
para enfeitar as campas cruas.

Pedra. Sombra. Nada.
É tudo o que ouço quando falo com eles.

Mas sempre que falo com eles,
pássaros extraordinários voam do meu peito:
estorninhos de asas ruivas, melros azuis tristes,
chapins-reais sem trono, pardais de bico gasto,
corvos que declamam ao vento, andorinhas presas aos dias ímpares,
pombos que rezam em latim, garças condenadas ao silêncio,
perdizes que rodam em círculos, tentilhões perdidos,
milhafres que colecionam chaves, corujas que escondem livros nos telhados,
rouxinóis mudos.

Não casei, nunca tive pretendentes,
nem nunca pretendi ninguém.
A serra é demasiado árida para que o amor sobreviva.
Apenas os pinheiros, a custo, guardam seiva para respirar.

Guardo no bolso um livro antigo,
cheio de palavras que já não se usam:
ventriloquia, taumaturgia, soteriologia.
O livro chama-se Atlas das Palavras Mortas,
um nefando, quimérico volume
que respira como um esquife aberto sobre a mesa.

Toda a minha vida é um daguerreótipo zimbórico,
um morfema inútil, como diria o Atlas das Palavras Mortas.

O Atlas também diz que as palavras, tal como as pessoas,
morrem por não serem respiradas.

Ninguém respira basilisco,
ninguém respira heteróclito,
ninguém respira ictiófago.
Apenas palavras mortas.

Como eu.
Também eu morri no incêndio.
O Parkinson é a derradeira condenação que o fogo deixou.
O médico diz que não, mas eu sei o que vai cá dentro.

Dentro de mim todas as palavras estão mortas.
A única que ainda respira,
e que talvez tenha matado todas as outras,
é a palavra
saudade.
 
Caim

Intercorrências

 
A fasciectomia palmar parcial
decorreu sem intercorrências,
disse o médico. Assinei a folha
com a mão que me restava. Soube:
remoção de tecido, cordão fibroso,
aderências desusadas. Abriram-me a palma,
cercearam as linhas, suturaram por fim.

Não toco piano desde então. O Claire de Lune
adormece as teclas junto à parede,
enquanto a ferida repousa sob tecidos
grossos. Talvez a mão esqueça
como se movem os dedos,
ou como se desenham carícias
na curva do teu rosto;
talvez aprenda uma gramática
paupérie
silente
insone.

Encosto a palma ao rosto
e sinto a pele estrangeira.
O dedo mindinho regressou do exílio
desconfiado dos mistérios da carne.
Há um tremor mínimo,
não sei se é dor ou apenas memória,
que se lamenta no clique
de cada tecla.
 
Intercorrências

Pedra. Sombra. Nada.

 
Não tenho nome.

Sou o véu que se deita sobre a pedra,
sobre o tempo que não regressa.

Carrego silêncios sem rosto,
peles de vento,
sombras quebradas,
solenidade sem som.

Espero sem esperar.
Chego sempre.
Volto sempre.

A minha morada é um banco vazio,
a minha língua, um sopro sem ar.

Não caminho.
Não permaneço.

Sou o interlúdio
entre um olhar e o nada.

Sou o véu transparente.
Sou o véu para nada.
Sou o véu das cinzas.
Sou o véu do último sopro.

Sou silêncio:
pedra.
sombra.
nada.

Não tenho nome,
mas sei qual é o teu.
 
Pedra. Sombra. Nada.

Encomendação

 
A vida é isto:
ciprestes encostados ao muro,
o préstito de madeira envernizada
e, ao longe, um cão que ladra
no silêncio das vestes.
Um punhado de terra húmida,
por fim.
No início, chamam.
Depois, o nome desaparece.
 
Encomendação

Clair de Lune

 
Aos sábados de manhã
toco o Clair de Lune
no piano de parede,
para me libertar, julgo eu que um pouco,
dos horrores da existência.

Provoca-me um certo alívio
bater com os dedos
cadenciadamente nas teclas.

A sensação do toque devolve-me
a um estado
em que nada mais havia
além do corpo.

A consciência era ainda
um fumo remoto,
e as grandes questões
um espaço em branco.

Recito Louise Labé:

Ô dure mort, ô sort trop rigoureux!
Ma belle flamme est toute éteinte en pleurs,
Et mon esprit en cendres consumé.

E lembro o singular Étienne Morel,
o cultíssimo francês
que a minha mãe convidava para jantar
nos serões quentes de agosto.

Cabrito assado no forno com arroz de miúdos,
e, para o grand final,
uma prateada travessa de figos,
acompanhada com versos obscuros
numa voz calma,
grave,
demorada.

A diáfana maresia
entrava pelas janelas,
interrompia pensamentos,
detinha o ar,

prolongava os longos,
longos, longos meses
de tempo estagnado.

A treliça do jardim,
cansada do calor,
as flores da ervilha morrentes,
e a mão da minha mãe
sustendo um sorriso.

Ensaio um poema obscuro
destinado ao esquecimento,
como os versos que o singular Étienne Morel
trazia para a mesa

nos serões de agosto;
um poeta esquecido,
um verso de ninguém.

E por dentro,
ruir.
Ruir como a treliça do jardim,
ruir como as ervilhas morrentes,
ruir como os verões intermináveis,
ruir como o tempo estagnado.

À noite,
quando o silêncio cai,
volto atrás,

aos olores do pinhal quente do Camarido,
à resina ardida,
ao rumorejar da maresia,
ao murmúrio dos pinheiros imóveis.

Volto ao colo do meu pai,
e de novo toco
o Clair de Lune

num sábado de manhã
no piano de parede,
para me libertar, julgo eu que um pouco,
dos horrores da existência.
 
Clair de Lune

Pássaros

 
Estorninhos de asas ruivas,
melros azuis tristes,
chapins-reais sem trono,
pardais de bico gasto,
corvos que declamam ao vento,
andorinhas presas aos dias ímpares,
pombos que rezam em latim,
garças condenadas ao silêncio,
perdizes que rodam em círculos,
tentilhões perdidos,
milhafres que colecionam chaves,
corujas que escondem livros nos telhados,
rouxinóis mudos.

Todos os pássaros
voaram do meu peito
quando partiste.
 
Pássaros

[]

 
não há nesta memória
acidez de pêssegos
gibraltinos
nem no fôlego
o canto esquecido de pássaros
[agora]
caídos

restam corpos arrefecidos pelo tempo
cavalos marinhos
coralinas notáveis presas no fundo
profundo

asas sem voo/casas sem retorno/atos sem ação/cactos sem vida

história
do mundo par
tido

li o manual de instruções
de um eletrodoméstico
frágil

e guardei
o resto da cidade antiga
o engenho de fogo
a faca

na parede das nuvens
 
[]

~

 
quatro zoes
carregam nos postos do mercadona

troco o saco
das batatas e volto
ao corredor
dos iogurtes
ananás manga banana
os trópicos em frascos

os meus antepassados
conquistaram mares
de vera cruz
a taprobana

eu empurro o carrinho
com batatas brancas
ao longo da banca do peixe

é o mais próximo
que consigo ficar
do mar
sem me afogar
sem acordar
o formigueiro na coluna
sem a perna falhar

sigo cansado
sem a energia dos navegadores

os zoes ainda carregam
orgulhosos
da cor
bege
e
azul bebé
pachorrentos
nem sombra
da ferocidade de uma nau
da majestade de uma caravela

o condutor fuma
o boné tapa os olhos
fruste ensaio de marejar
o bebé agarra a chupeta
na mão pequenina
a idosa segura as costas

vinte horas
de um dia partido
vinte horas
de um dia doente
vinte horas
de um dia cinza

somos tanto
e tão pouco
somos nada

encaixo o carrinho
na fila dos carrinhos
assim faria
vasco da gama
se vivesse esta vida
este corpo
e
este tempo
 
~

Poetas

 
Leio poetas que escrevem
poesia com inefável fulgor, inspirando profundamente para ascender ao céu onde
habitam
musas que inspiram desinspirados poetas (e pigarreiam, por fim)
Leio poetas que
calcorreiam afincadamente o dicionário das palavras raras, e
respiram como quem respira
o ar que se respira nos
róseos salões de poesia de Roma, Roterdão ou alguma uma outra rutilante cidade (e bocejam, por fim)

E depois fecho o livro.
Lavo a louça.
Apanho a roupa do estendal.
Ouço o cão do vizinho a ladrar.
Limpo, por fim, as migalhas da mesa.
 
Poetas

Inventário íntimo

 
Dentro de mim, um bebé
de três meses assusta-se
com o movimento das mãos,
as cores e os sons;
prefere voltar-se para dentro,
esconder-se da comoção
que o mundo lhe provoca.

Dentro de mim, uma criança
de dois anos
sente-se ameaçada
pelo lobo que vive na própria casa
e não sabe o que é proteger-se.

Dentro de mim, uma criança
de quatro anos
não dorme durante toda a noite.
Tem muitas ideias, talvez sete,
para combater o medo,
e nenhuma lhe oferece refúgio
do terror do escuro.

Dentro de mim, uma criança
de cinco anos
carrega um peso maior que o corpo.
Não quer desiludir o pai
e todos os dias treina
afincadamente
no piano de parede.

Dentro de mim, uma criança
magra de seis anos
senta-se à mesa;
do outro lado, a mãe
olha-a com uma expressão austera
e preocupada.
A criança sente no peito a tensão
e a contradição no rosto da mãe.
Ainda assim recusa a comida.

Dentro de mim, uma criança
de sete anos esconde-se de si mesma.
Lê todos os livros da biblioteca,
come bolachas
e bebe copinhos de leite.

Dentro de mim, uma criança
de nove anos
envergonha-se porque, pensa,
cresceu demais.
No último sonho cresceu tanto
que furou o telhado
e inspirou nuvens azulinas.

Dentro de mim, uma criança
responsável segue as regras.
Não há espaço para se distrair
das coisas sérias da vida.
Cozinha para os pais,
limpa a casa,
cuida do irmão mais novo.

Dentro de mim, uma criança
foge e cala-se.
Prefere o vento dos montes
ao som das palavras das pessoas.

Dentro de mim, uma criança
afoga-se na praia da Nazaré.

Dentro de mim, uma criança
sem idade traz o destino marcado.

Inventariei trinta e quatro crianças
dentro de mim.
Não se falam,
nem se conhecem.
São todas a mesma.

Dentro de mim não há corredores abertos,
salas amplas, jardins soalheiros.
Dentro de mim erguem-se labirintos altíssimos
e trancam-se crianças em celas sombrias
que nenhum sol encontra.
O ar estagnado
cheira a sangue
e pulmão.

Por vezes,
uma criança chora
de tristeza, de solidão,
ou apenas porque é criança.
Ninguém a ouve.

Tantas crianças dentro de mim
e nenhuma conhece outra.
Muitas permanecerão agrilhoadas
ao instante que
as gerou e as condenou.

Algumas hão de falar comigo.
 
Inventário íntimo

Chego sempre tarde aos funerais,

 
quando as lágrimas secaram
e os braços desistiram de consolar
os órfãos e a viúva.
Não vejo o corpo, nem o caixão.
Encosto-me ao muro
e observo, à distância,
o entardecer a comer a terra crua,
as flores dobradas no chão,
a amante a esconder as lágrimas,
os amigos a falar do tempo
para que a morte se cale por dentro,
os parentes dissolvidos no crepúsculo,
a viúva, amparada pelas irmãs,
a gritar perdão por culpas que não tem
e os órfãos perdidos
pelos corredores do cemitério.

Chego sempre tarde ao amor,
quando os braços desistiram de procurar um corpo
e as lágrimas desaguaram no mar.
Não vejo um rosto, nem uma carta de despedida,
apenas o que podia ter sido.
E não foi.
Encosto-me ao medo
e vejo sombras a cair no vazio,
um enorme nada que me cobre como uma mortalha.
Ouço o riso de quem passa na rua,
os pássaros a rasgar o silêncio,
vejo as janelas acesas dos outros
e sinto os órgãos perdidos
pelos corredores da casa.

Chego sempre tarde às festas,
quando os braços desistiram de dançar
e os corpos repousam exaustos
em catres, tálamos ou berços.
Encosto-me à vastidão
e observo o amanhecer a correr pela terra crua,
as últimas flores no chão,
os bêbados a falar do tempo
para que a noite se acenda por dentro,
os vultos dissolvidos na penumbra
e o vazio deixado pelos corpos.

Chego sempre tarde à vida.
 
Chego sempre tarde aos funerais,

Rita

 
Encerro o café,
assim como o resto da minha parca fé.

Odor a cerveja, café queimado,
o álcool alonga-se na língua.

O húmido rasto de risos suspensos,
sons lisos, gemidos distantes,
rumores colados à pele,
boca de fel, olhos rubros, inchados,
cabelo revolto de vento e fumo:
rouba-me a noite a religião.

Na alameda amarelenta, vultos movem-se
em câmara lenta: gente que ri e que cala,
gente que passa e não vi, gente acompanhada,
gente só, gente desalmada,
gente que se cruza, que se esquece, que se esvai.

Pela luz coada da janela aparece a bela:
a Rita, a Rita, a Rita.
E se repito Rita é porque a repetição se faz canção,
obsessão, litania,
celestial coro que se agiganta.

A Rita dos mamilos rijos,
duros como castanhas.
A Rita que dança em mim.
A Rita metal que arranha.
A Rita. A Rita. A Rita.

Enrolo redondas as letras da Rita,
lentamente, com a língua,
enquanto caminha convicta com o Hemingway
debaixo do braço,
paramentada de letras, compassada de ideias,
ecoando os passos solenes da procissão.

Transporta, silente, o volume III de Le sens de la vie,
do singular Étienne Morel,
homme de sapience et science, máximo amicíssimo da mãe:
uma acesa procissão no meio da noite escura.

Encerro o café com a fé que desferro,
a chave que roda no oco do ferro.
Não cedo à tentação, não cedo à saudade:
da Rita, do gato, do Clair de Lune no piano de parede,
do Parménides na mesinha,
das noites quentes do Camarido,
do remanso do mar indormido.

Apenas encerro o café e anoto
num diário rasurado, onde persiste o olvido,
mais uma noite em que me afasto da fé.

Arde, todavia, na boca ainda
a chama viva da procissão da Rita.
 
Rita

Atlas das Palavras Mortas

 
Bestiário
anfisbena basilisco sibilino
quimérico nefando tártaro
umbra lemúria queloide

Ciência
ictiófago rizotónico miriápode
paludismo leptospirose exsudato
diastema efélide xilófago

Erudição
soteriologia ventriloquia taumaturgia
palimpsesto orogenia heteróclito
hipnagógico bizâncio alvíssaras

Matéria
daguerreótipo calcedónia zimbório
hirsuto cicindela azulete
morfema vermeil esquife

apenas palavras mortas
nenhuma delas
descreve saudade
 
Atlas das Palavras Mortas

Pokes e Hemingway

 
Trabalhei num restaurante
que servia pokes, um lugar tão triste
que até a sopa se sentava
no canto da mesa a conversar
com o Valter Hugo Mãe.

Durante dois anos
comi demasiado edamame
nos intervalos do Hemingway.

Aprendi a sorrir
enquanto recomendava toppings
entediados, ditava nomes inventados e
biografias descartáveis.

Enganava-me sempre
no nome do molho.
Chamava-lhe Tchaikovsky
e não teriyaki,
e cantarolava baixinho
o Lago dos Cisnes;
e eu bailarina cansada
de avental.

Os clientes pediam salmão braseado
como quem pede salvação.
E eu servia-lhes
arroz e pressa,
por vezes uma alface em plena crise
existencial.

Às vezes pensava em escrever,
mas o cheiro a Tchaikovsky
entrava-me nos ossos,
e até a língua parecia cansada
de articular palavras.

No final do turno
lia três páginas de Hemingway.

E tudo isto fazia
um sentido desconfortável, como
num livro de Gonçalo M. Tavares
em que gestos banais
são escalpelizados
até se tornarem insuportáveis.

Depois da chegada do inverno
abandonei os pokes. O frio
entrava-me pelas mangas do uniforme.

Despedi-me, profundamente,
dos pokes
e de uma vida banal.

E tornei-me inverno
para o inverno.
 
Pokes e Hemingway

A vida que nunca tive e por isso comprei o gato

 
O meu nome é Rita.
Vivo num pequeno apartamento
com vista para lugar algum,
numa cidade que raramente aparece
no discurso de quem não a habita.

Tenho um gato
que prefere vaguear pela noite
a fazer-me companhia
nas horas que lhe ficaram, implicitamente,
contratadas.

Ainda me debato
com questões filosóficas
demasiado comuns.
Entretenho-me, sobretudo,
com os gregos antigos. Prefiro-os:
Parménides, a quem acho muita piada;
Diógenes, que é profundamente tonto;
e Xenófanes, que dormita,
imagine-se,
na mesinha de cabeceira
de madeira de nogueira.

Gosto de beber coca-cola zero
aos domingos de manhã; talvez
um pequeno interlúdio
da vida que nunca tive.

Dantes gostava de croissants,
mas perdi-lhe o gosto
porque me aborreci do nome.

Sinto-me particularmente grata
(ah!, esta coisa horrível
que é a gratidão!)
pela vida que nunca tive:
sucesso,
uma petite promenade à beira-mar,
um gabinete com vista
para as traseiras
e uma chart de queijo
com as vendas da semana;
os amigos Zé e Chico,
a Alicinha
e a menina Paula.

No fundo,
foi por isso que comprei o gato.
 
A vida que nunca tive e por isso comprei o gato

Lenny Fucking Kravitz

 
Vilar Formoso.
16 de setembro, 10h30.

Peço um café.
Sabe a despedida,
sabe a pouco,
sabe a nada.
Lá fora os camiões respiram fumo.

No canto do balcão,
uma mulher cujo nome termina em X
lê um poema chamado Bonnie Tyler
e sorri do princípio ao fim.

Retira um guardanapinho do suporte;
escreve:
“originalidade inigualável.”

Um enfermo arrasta-se
e fala alto,
jura que muitas cantoras contemporâneas
estão enterradas ali,
na loja de conveniência.

Enumera-as vagarosamente,
com a língua pesada da medicação:

Taylor Swift.
Lola Young.

A jovem que o ampara
inclina-se sobre ele;
sussurra:
“Vamos, senhor A.”

Ainda presa
ao pesadelo recorrente
do próprio afogamento na praia da Nazaré,
a funcionária
distrai-se cantando:

It ain’t over till it’s over.
It ain’t over till it’s over.

Com mãos magrinhas,
alinha isqueiros,
empilha maços de tabaco
e conta
trinta e quatro sonhos desfeitos.

E penso:
fodeste-me o verão, Rita.
Obsessivamente,
habitas-me a cabeça,
os olhos,
a língua,
a pele.

Na loja ecoa a canção,
que as colunas partidas devolvem em estalos:

It ain’t over till it’s over.
It ain’t over till it’s over.

E sinto o rasgo no peito —
como me fodeste o verão, Rita.
Provavelmente muitas outras estações,
talvez todas.
Talvez me tenhas fodido a eternidade.

Por isso cruzo a fronteira,
em direção a Sevilha, Marselha ou Nice.
Tanto faz.

Hoc mihi restat.

Sempre que o desespero encontra o meu corpo,
procuro outras latitudes,
razões que me libertem da ideia do suicídio.

Mas o Lenny fucking Kravitz
canta na rádio
e alimenta a obsessão.

So many tears I’ve cried,
so much pain inside,
baby, it ain’t over ‘til it’s over.

E percebo:
fodeste-me o verão, Rita.
Isto nunca acaba.

It ain’t over till it’s over.
It ain’t over till it’s over.
 
Lenny Fucking Kravitz

O senhor Jó

 
Uma bacia cuspida,
sangue, dentes e bílis.
O senhor Jó deixou um rasto de morte atrás de si.
Na mesinha de cabeceira: um lenço ensanguentado, uma moeda, papel rasgado.
Um bilhete de comboio.

Quando a filha mais nova o encontrou,
chamou a ambulância e fechou a casa.
Velaram o senhor Jó na mortuária branca ao lado do cemitério.
Crise de bílis ou pâncreas. Talvez uma outra víscera.
Deixei um postal no memorial – um dos poucos objetos
por que ainda mantinha afeição. Detestava flores.
Também detestava caixões e velórios; a pele
dos mortos.

Cliente desde sempre. Dos primeiros.
Sentirei a sua falta.
O café oferecido, as conversas com o canário,
o doce de abóbora e as queijadinhas. Pedia
que me sentasse no sofá e discursava.
Os serviços sexuais cederam, há muito, lugar a
conversas filosóficas – sexo e filosofia são velhos
companheiros de percurso, na verdade.
Citava Sartre, sobretudo. Lembro-me da foto do francês,
um olho para cada lado, gabardina bege; um livro
gasto, a lombada rasgada, o título em francês: L'Être et le Néant.
Pagava para que
os dias não o inundassem com o nada da solidão.

Por vezes fervia-lhe uma sopa. Servia-lhe chá quando me
pedia. Tossia incessantemente devido à civilização e
à religião. Incomodava-o o homo sapiens.

Sentirei falta do senhor Jó;
das laranjas na taça da fruta, das maçãs abandonadas na mesa,
do xadrez começado trinta anos atrás com o primo, morto
num acidente a caminho das ruínas
romanas de Tróia.

A civilização ritualizou-lhe, enfim, a morte. 
 
O senhor Jó

se deus passar por ti

 
se deus passar por ti
na rua, no shopping
ou na igreja do siza
pede-lhe para falar um pouco
da vida, dos filhos e dos netos
do pequeno rodrigo
do pai louco

fala como quem mendiga
um pouco de paz
um pouco de luz
e não tenhas vergonha
de baixar os olhos
de quem já tudo tentou

pergunta se valeu a pena
se a dor partirá
se o sono alguma noite voltará
pergunta
se o silêncio dele era mesmo necessário
se viu quando fechaste a porta devagar
para ninguém te ouvir partir

pergunta se te viu na ponte a medir a distância
vezes sem conta

e se ele não responder
fica assim

à espera
 
se deus passar por ti

Pedro Chagas Freitas

 
Encontrei um Pedro Chagas Freitas,
por acaso, na rua.

Disse-lhe:
não te ocupes tanto
do que imaginas que os outros pensam,
nem do que imaginas que os outros são.
Aliás, abandona a ideia
de que existem outros.
Nada garante que exista
aquilo que é dos outros
na ideia que dos outros tens.
Re vera, disse-lhe,
puxando o latim
e baixando a voz,
nessa ideia
encontrarás apenas aquilo que és.
Não há olhos atrás dos teus olhos,
nem vozes a perseguir
a tua voz.

Olhou-me com distância
e desprezo,
como se eu fosse
mais um outro,
e seguiu caminho,
levando uma alface debaixo do braço
e, na mão, uma pequena gaiola de plástico
com dois grilos,
um deles morto.

Perto dali,
outros Pedros Chagas Freitas
olhavam inquietos,
cada um levando uma alface
debaixo do braço
e, na mão, uma pequena gaiola
com dois grilos,
um deles morto.

Segui caminho,
levando uma alface debaixo do braço
e, na mão, uma pequena gaiola
com dois grilos,

um deles morto.
 
Pedro Chagas Freitas

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