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Poemas, frases e mensagens de CarlosAle

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de CarlosAle

Queria fazer um verso...

 
Queria fazer um verso
que pudesse expressar
o retumbar da cascata
as ondas altas do mar
o dia com sua alva
a noite com seu luar

Queria mostrar no verso
a imponência do condor
as nuvens como ovelhas
o vento como pastor
e as abelhas bebendo
o mel na taça da flor

Queria mostrar o sol
acendendo como tocha
despertando a montanha
enxugando cada rocha
e aquecendo a corola
do cravo que desabrocha

Queria ver no meu verso
o resplendor do luzeiro
e num dia de outono
o empenho do barreiro
fazendo sua casinha
no ombro do ingazeiro

Eu queria versejando
falar de uma formiga
que levando uma folha
de capim ou de urtiga
nunca se perde na trilha
nem descansa com fadiga

Eu queria descrever
a lagarta de cor preta
que o carcará procura
com seus olhos de luneta
mas consegue escapar
quando vira borboleta

Queria mostrar a seda
na aranha peçonhenta
que caminha entrelaçando
um fio que não rebenta
mesmo sendo esticado
na ramagem quando venta

Queria saber falar
de um dia nebuloso
onde o sol se escondeu
esperando cauteloso
pra abrir sua cortina
de tecido luminoso

Queria mostrar o vento
desenhando sem modelo
na grande tela do céu
suas montanhas de gelo
desmanchando e refazendo
calmamente e com desvelo

Queria a serenidade
das águas de uma fonte
e a claridade que chega
esboçando atrás do monte
o final da madrugada
nos portais do horizonte

Queria ser um poeta
com o estro mais afim
quando vejo a roseira
vicejando no jardim
cercada de borboletas
pedindo verso pra mim

Eu queria ter o dom
de ilustrar o que eu vi
num certo dia de maio
quando um raro colibri
bailava suavemente
ao redor de um bogari

Eu queria versejar
como canta o sabiá
entre os ramos em flor
de um velho jacarandá
nos momentos de lirismo
que a primavera nos dá

Queria ser um poeta
que mostrasse comovido
no primor da natureza
que por nós é conhecido
um claro remanescente
do paraíso perdido
 
Queria fazer um verso...

A beleza das mulheres

 
O encanto de uma flor
que se vê numa mulher
não é para ser versado
por um poeta qualquer
É preciso muita verve
pra cumprir esse mister

É preciso de Petrarca
fluência e sonoridade
de Homero a inventiva
de Camões profundidade
de Neruda a riqueza
de Lorca a intensidade

Se eu pudesse escrever
com o estro de alguém
do porte de um Vinícius
Drummond e Cabral também
não diria nem metade
do valor que a mulher tem

Ela tem da margarida
a graça e a singeleza
do jasmim tem a ternura
do lírio tem a pureza
da rosa tem elegância
do cravo a delicadeza

Contemplando a natura
com suas formas singelas
nas paisagens primorosas
as flores são as mais belas
e a beleza da mulher
supera a de todas elas
 
A beleza das mulheres

Cada não que recebo é um desgosto...

 
Você é intocável como a rosa
cravejada de espinhos para mim
Entretanto não saio do jardim
pra arrancar toda planta venenosa
Vendo sua corola mais viçosa
só aumenta a minha aflição
Sou um fruto caído no seu chão
que esperando acaba decomposto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Eu fiquei recordando outro dia
do momento que eu lhe conheci
O primeiro interesse que senti
foi crescendo além da simpatia
Quando fico na sua companhia
só procuro nutrir sua afeição
pois entendo que numa relação
sentimento não pode ser imposto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Não queria nem mesmo ter lembrado
que no abril começou nossa amizade
Já em maio pra ter felicidade
eu ficava mais tempo do seu lado
Se em junho fiquei apaixonado
vi em julho crescer minha paixão
Hoje sofro depois da confissão
rejeitada em meados de agosto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Um sujeito que teve o predicado
de mostrar a você adjetivos
com certeza lhe deu muitos motivos
para ter seu carinho e cuidado
No período que fui analisado
você quis aplicar a correção
Pelos termos da sua revisão
me faltou vocativo e aposto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Ao fracasso causado só por mim
eu não posso imputar outro autor
Se na trama quem vence é o amor
eu vou ler o romance até o fim
O meu sonho é você dizendo sim
Pesadelo é você dizendo não
Mas história de dor e solidão
é o enredo que não está proposto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Eu não sei se agi com afoiteza
e o momento não era o devido
mas você recusou o meu pedido
sem mostrar no entanto aspereza
Eu preciso somente ter certeza
que você encerrou essa questão
Mas não tenho sequer a impressão
que me dê a idéia de sol-posto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Fiz de tudo para lhe conquistar
e ainda lhe tenho esperado
Com as flores e estando preparado
novamente irei me declarar
Se os amigos vierem me alertar
que você vai rasgar o meu cartão
eu respondo sem ter hesitação
que o repúdio ainda é suposto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Já tentaram até me convencer
que a minha paixão é doentia
Como ela aumenta a cada dia
não consigo parar de lhe querer
Penso às vezes que para esquecer
só se eu fosse embora pro Japão
Mas refuto depois a solução
que faria somente a contragosto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Minha ação não perdeu o objeto
pois a lei do amor lhe afiança
Eu não quero perder a esperança
mesmo estando meu sonho no projeto
Se viajo perdido sem trajeto
nas estradas da minha ilusão
esperando pela degustação
nosso vinho ainda está no mosto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Eu não posso dizer que não lhe amo
desmentindo num verso apaixonado
no momento que sonho acordado
e no pranto que por você derramo
O seu nome sonhando ainda chamo
e não quero negar minha paixão
pra depois na primeira ocasião
declarar a você só o oposto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Toda noite eu fico desejando
nos seus beijos matar a minha sede
Certa feita deitei na minha rede
e sonhei que estava lhe abraçando
Assustado eu fui me acordando
pois na rua estourou um foguetão
Como sonho não tem prorrogação
levantei nesse dia indisposto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

É difícil aceitar que essa dama
a quem eu declarei meu sentimento
transformou meu desejo em lamento
abrandando o calor da minha chama
Mas se ela ainda não me ama
continuo a lhe dar minha atenção
Um soldado na guerra da paixão
não deserda nem abandona o posto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Eu não quero viver de amargura
mas a falta de afeto me afeta
Minha alma já anda inquieta
suspirando com essa desventura
Eu preciso saber se é loucura
ou se existe um motivo ou razão
pra esperança na mesma proporção
desse pranto que molha o meu rosto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Quero ser pra você igual Romeu
superando a rixa das famílias
ou até navegar por muitas milhas
como fez o valente Odisseu
Quero ser cavaleiro ou plebeu
pra salvar a princesa do dragão
Mas você me negando a sua mão
vou chorar igualmente um rei deposto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Pra provar a você o meu valor
só preciso ter oportunidade
Eu só quero lhe dar felicidade
todos dias lhe amando com ardor
Hoje sou no banquete do amor
um faminto atrás da refeição
pois o prato da minha solidão
com desprezo foi temperado a gosto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Do seu meigo olhar você me priva
Do carinho que tenho não desfruta
Meus projetos de amor você refuta
e das minhas propostas se esquiva
Mas diante da sua negativa
fiz uns versos pra ter consolação
Meu consolo é fazer lamentação
e o lamento deixei aqui exposto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Pra poder reverter perdas e danos
faço tudo que está no meu alcance
Só desejo a ventura de um romance
com você aceitando os meus planos
Nos amando seremos dois pianos
afinados num só diapasão
E o hino da nossa união
nesse dia feliz será composto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração
 
Cada não que recebo é um desgosto...

O fracasso da causa e a causa do fracasso

 
O fracasso da causa comunista
promovido em quase o mundo inteiro
sendo efeito do erro mais grosseiro
de se crer numa idéia utopista
ampliando os lesados dessa lista
que tem Laos, Camboja, Rússia, China,
Alemanha cercada na cortina,
a Coréia e países africanos,
repetiu-se aqui com os cubanos
e avança na América Latina...

Por aqui a esquerda brasileira
prometendo fazer muitas mudanças
retirou do país as esperanças
com mãos cheias de óleo e sujeira
Foi não foi levantou sua bandeira
escondida na sombra do gramscismo
A corrente do patrimonialismo
com os anos foi mesmo ampliada
Nossa pátria está sendo acuada
empurrada que vai para o abismo

Engendrando uma vã teologia
disfarçada de crença religiosa
a disputa na igreja foi rendosa
devorando no bolo uma fatia
Resultado de trama tão sombria
foi o lobo ficar mais atrevido
Atacou um rebanho iludido
na de Roma, Lutero e Metodista
pra rezarem cartilha marxista
como se estivessem num partido

Foi Karl Marx na sua juventude
um cristão numa vida desregrada
Caminhando em trilha tão errada
corrompeu-se por sua atitude
Com a alma sofrendo inquietude
conheceu a mudança imprevista
Os relatos dão mais de uma pista
de que a sua fé sofreu revés
aceitando por guia Moses Hess
para entrada na esfera ocultista

Pois é esse o mentor do socialismo
que nas teses que havia formulado
foi de Deus inimigo declarado
para ver triunfar o satanismo
Basta ver nos anais do esquerdismo
o terror do passado mais grotesco
a barbárie em drama gigantesco
genocídios,expurgos, crueldades,
escravismo e demais atrocidades
e a fome em grau sempre dantesco

Bibliografia:

Era Karl Marx um satanista?
Richard Wurmbrand

O Livro Negro do Comunismo
ANDRZEJ PACKZOWSKI,
JEAN-LOUIS MARGOLIN,
JEAN-LOUIS PANNE,
KAREL BARTOSEK,
Nicolas Werth,
e Stéphane Courtois
 
O fracasso da causa e a causa do fracasso

Décimas avulsas

 
As mulheres que são especiais
são a força da nossa inspiração
conquistando o mais duro coração
com somente atributos pessoais
Vendo numa as virtudes principais
é a quem dispensamos mais amor
que nenhuma chamamos de uma flor
sendo velha, grosseira e feiosa
Mulher nova, bonita e carinhosa
faz o homem gemer sem sentir dor

Esses versos que estou escrevendo
num estilo medido e rimado
são vagões de sentido figurado
de um trem de poesia se movendo
E as rimas que você está lendo
são paradas em uma estação
O bilhete da interpretação
você paga pra ser um passageiro
da viagem que faz nesse roteiro
pelos trilhos da imaginação

Nesse mundo eu já tinha observado
que a maldade costuma triunfar
e aquele que passa a praticar
a bondade é sempre castigado
E buscar na maldade resultado
essa foi a mancada que eu dei
Quando soube o mundo que errei
num instante o castigo me enviou
Só pra mim é que ele funcionou
Quis dar uma de esperto e me ferrei

A saudade cercou meu coração
desde o dia que ela foi embora
igualmente uma lei que já vigora
decretando somente a solidão
Eu que fui como um dia de verão
sou a noite chegando no poente
Eu que fui a represa da enchente
sou um rio secando na vazante
Não existe saudade mais cortante
que a sentida por um amor ausente

Se agora eu ganhasse uma rede
eu buscava um livro para ler
Uma água de coco pra beber
e um gancho fixado na parede
Com a água eu matava minha sede
com o livro aprendia uma lição
Com o pé eu daria um empurrão
para ver se a rede balançava
e com esse balanço que ela dava
eu dormia com meu livro na mão

Se a mulher que me ama possuir
uma herança enorme pra gastar
e meu preço vier me perguntar
seu dinheiro não vai me seduzir
Eu só tenho apenas que sentir
que seu beijo e abraço tem calor
não me dando motivos pra supor
que o interesse é apenas passageiro
Eu não tenho amor pelo dinheiro
e dinheiro não compra meu amor

Cada um tem na sua própria história
um momento que foi de plenitude
Foi a fase que eu tinha juventude
a mais bela da minha trajetória
O que tenho guardado na memória
desse tempo é só felicidade
Porque o tempo da nossa mocidade
é o melhor pra ficar rememorando
Pelos trilhos da vida deslizando
Sou um trem carregado de saudade

Definir a beleza da mulher
é querer limitar o infinito
e nem mesmo o verso mais bonito
poderia cumprir esse mister
Hoje sei que o poeta o que mais quer
é compor para ela um doce hino
porque ser nossa musa é seu destino
cada dia, semana, mês e ano
E é por isso que afirmo sem engano
que sou fã do semblante feminino

Meu pomar, minha horta e meu jardim
quando lembro me ponho a chorar
Vim pra cá sem vontade de ficar
Voltarei lastimando porque vim
É por isso que estou sempre assim
com saudade apertando o coração
Eu só quero voltar para meu chão
donde fui sem apelo desterrado
Fui menino do mato e fui criado
nos rincões esquisitos do sertão

Eu já tive um momento de loucura
que pensava ser de felicidade
Mas trair a minha cara-metade
só deixou sofrimento e amargura
Enredado em fútil aventura
hoje eu sei porque nunca fui feliz
Pois eu tinha que amar só a matriz
no amor não se pode abrir franquia
Eu deixei de amar quem me queria
pra amar a alguém que não me quis

Poesia em sentido figurado
é um fruto da imaginação
Seu sabor é a interpretação
Sua polpa é o verso inspirado
O pomar onde ele é cultivado
é o grande pomar da estesia
Nesse fruto o leitor se delicia
com a casca, o gomo e a semente
O bagaço é cuspido e somente
a essência do fruto nos sacia

Nunca mais vou pegar em sua mão
nem cumprir as promessas que lhe fiz
Se contigo já fui muito feliz
hoje penso que tudo foi em vão
Pois você maltratou meu coração
como se meu amor não fosse nada
Para ter minha paz ameaçada
a saudade já chega e me tortura
Mas ainda que a noite seja escura
o sol chega trazendo a alvorada
 
Décimas avulsas

O resultado das apostas em jogos de azar

 
O assunto em questão
é um problema real
São os jogos de azar
que no estágio atual
já estão configurados
num flagelo social

Eu pergunto ao leitor
que aposta seu cascalho
em bozó, briga de rinha,
bingo, bicho ou baralho:
que lucro dá o dinheiro
recebido sem trabalho?

O apostador só quer
se divertir no início
depois fica seduzido
por um lucro fictício
e a praxe da jogatina
termina virando vício

Quem joga pode mostrar
os sintomas de um doente
Onde mora ou estuda
vai se tornando ausente
Ter mais tempo pra jogar
é seu desejo fremente

E quem fica endividado
com os jogos de azar
vende tudo o que tem
mas não para de jogar
que o vício no comando
não dá ordem pra parar

Investir na jogatina
é um processo oneroso
Quando o jogador acerta
com um prêmio fabuloso
paga tudo o que deve
em um ciclo vicioso

Se ganhar dinheiro fácil
era o primeiro incentivo
acaba na bancarrota
porque o vício ativo
conjuga o verbo jogar
sempre no imperativo

Tem muitos jogos de azar
que estão legalizados
onde poucos vencedores
tem sonhos financiados
com dinheiro que foi pago
por milhões de azarados

Quem procura no cassino
um negócio lucrativo
vê a sorte se ofertar
com um preço abusivo
e só premiar os donos
com poder aquisitivo

O freqüentador do bingo
clandestino ou liberado
de cartela em cartela
com o vício é premiado
e só busca o tratamento
quando está endividado

Já no turfe é a paixão
que arrecada o dinheiro
O prêmio passa montado
no cavalo mais ligeiro
e o acaso atropelando
sempre chega em primeiro

Se vê no jogo do bicho
que é comum apostador
sonhar com o resultado
e perder grande valor
e o bicheiro vai fazendo
fortuna com sonhador

Vejam que a loteria
é um estranho rateio
onde o governo promove
com o capital alheio
benefício só pra um
escolhido por sorteio

Foi não foi um pobretão
vai jogar na loteria
compra apenas um bilhete
que o capricho premia
e um novo milionário
vira da noite pro dia

Deslumbrado na riqueza
que não sabe onde gastar
com os seus novos amigos
em tudo quer esbanjar
como se aquela fortuna
nunca mais fosse acabar

Ele passa o ano inteiro
com o pé no aeroporto
Desperdiça nos presentes
da mulher de cada porto
gozando a ostentação,
o prazer e o conforto

Quando as suas despesas
já se tornam abundantes
termina dando um calote
em hotéis e restaurantes
retornando pra miséria
mais arruinado que antes

Se a sorte pode pagar
pra somente um sortudo
o azar sempre consegue
um rendimento polpudo
levando até o dinheiro
daquele que aposta tudo

Outro golpe que a sorte
pode dar na clientela
é entregar a bolada
a quem não precisa dela
e o azar não indeniza
os projetos que cancela

Eu pergunto novamente
que lucro dá o dinheiro
apostado em jogatina
parcelado ou inteiro
se bagunça o processo
do sistema financeiro?
 
O resultado das apostas em jogos de azar

Minha musa

 
Sentindo a inspiração
mais intensa e profusa
eu me ponho a escrever
com vigor, brilho e fiúza
pra revelar os encantos
que eu vejo em minha musa

Minha Rosa tem a graça
que inspira qualquer artista
e a mim faz desfrutar
de uma verve imprevista
sendo uma mulher bonita
em qualquer ponto de vista

Ela tem o esplendor
que ninguém sabe medir
Tão fácil reconhecer
e custoso definir
mas todo poeta aspira
em seus versos traduzir

Há mulheres graciosas
porém ela é demais
A beleza é um barco
atracado no seu cais
e no mar da poesia
quero ser o seu arrais

Um sorriso mais bonito
não há em todo universo
Tem tamanha excelência
que não cabe no meu verso
e deixou meu coração
no rio do encanto imerso

O brilho arrebatador
que dos olhos irradia
como as luzes da noite
e do sol trazendo o dia
sugere tanto mistério
e extravasa em poesia

O beija-flor é feliz
quando uma flor visita
e o sabiá cantando
sua canção favorita
Eu sou feliz descobrindo
quanto ela é bonita

Me enlevo na formosura
que da aurora é provinda
e reconheço que as flores
tem uma beleza infinda
mas não comparo a dela
porque ela é mais linda

Admiro a lua cheia
quando a vejo da janela
e cada estrela no céu
que na noite se revela
porém me fascina mais
quanto minha musa é bela

Eu vejo a brisa passar
acariciando uma rosa
e o vento jogar na rocha
uma onda vigorosa
e não consigo esquecer
quanto ela é graciosa

No mar o navegador
olha o céu e suspira
namorando uma estrela
que brilha como safira
e é isso que eu sinto
por ela que me inspira

O sol pode recolher
o seu halo rosicler
e a lua pode mudar
escondendo seu mister
mas nela sempre reluz
sua graça de mulher
 
Minha musa

Ela sabe que me deixou cativo...

 
Ela é a estrela que eu vejo
reluzir no espaço infinito
Ela é o meu verso mais bonito
num poema escrito de lampejo
Eu viajo no bonde do desejo
procurando por sua estação
Pras feridas da minha solidão
o seu beijo vai ser o curativo
Ela sabe que me deixou cativo
nas algemas ardentes da paixão

Ela sabe que estou apaixonado
e faz tempo que tinha descoberto
Quando vejo que ela está por perto
sinto meu coração acelerado
Declarei que a quero do meu lado
só que ela mostrou hesitação
Se não ouço os apelos da razão
seu encanto é o que me dá motivo
Ela sabe que me deixou cativo
nas algemas ardentes da paixão

Não queria mentir que não a quero
se eu quero é que ela se decida
Ela é a mulher da minha vida
e é por uma rainha que espero
Quando um sentimento é sincero
não se pode esconder a intenção
Fiz chorando minha declaração
de lhe dar meu amor definitivo
Ela sabe que me deixou cativo
nas algemas ardentes da paixão

Nossa vida vai ser uma novela
com roteiro que tem final feliz
Nos projetos e planos que eu fiz
a estrela maior sempre foi ela
No cenário de luz da nossa tela
cada cena trará nova emoção
Só não quero é fazer figuração
nem rodar um final alternativo
Ela sabe que me deixou cativo
nas algemas ardentes da paixão

Que o meu sentimento é verdadeiro
ela vai entender e dar valor
Quem almeja viver um grande amor
não espera que seja passageiro
Tudo que eu preciso é primeiro
sempre que ela der ocasião
demonstrar minha determinação
de passar no processo seletivo
Ela sabe que me deixou cativo
nas algemas ardentes da paixão

Faço tudo e mais o que puder
para tê-la na minha companhia
Nada eu considero demasia
para ter o amor dessa mulher
E se ela falar que não me quer
vou sofrer a maior decepção
Minha espera tem essa condição
mas não muda o meu objetivo
Ela sabe que me deixou cativo
nas algemas ardentes da paixão

Minha taça de amor já se derrama
e não posso servir na sua mesa
Na muralha da sua incerteza
vislumbrei o tamanho do meu drama
Uma rosa que fere quem a ama
sempre exige o dobro de atenção
Como estou no jardim da atração
é só ela a flor que eu cultivo
Ela sabe que me deixou cativo
nas algemas ardentes da paixão

Quem a minha atitude observa
se admira da minha confiança
É o meu coração que não se cansa
e a força do amor que a conserva
Tenho na confiança uma reserva
mas a conta cruel da aflição
vou pagando com juro e correção
e ficando com saldo negativo
Ela sabe que me deixou cativo
nas algemas ardentes da paixão

Quando ela está na minha frente
faço tudo para lhe conquistar
Desta forma um dia vou provar
que a quero amar eternamente
Me pergunto já meio impaciente
por que ela não toma a decisão
Cogitando que ela diga não
nem sei como ainda sobrevivo
Ela sabe que me deixou cativo
nas algemas ardentes da paixão

Eu conheço o conceito recorrente
da paixão como um fogo de palha
Toda alma possui a mesma falha
de pensar que é tudo diferente
Só que mesmo estando consciente
dos perigos de crer no coração
eu prefiro viver de ilusão
que anular o efeito sedativo
Ela sabe que me deixou cativo
nas algemas ardentes da paixão
 
Ela sabe que me deixou cativo...

Diga não à dopamina!

 
A paixão afeta a mente
como droga que vicia
por isso quem quer viver
honrando a monogamia
antes tem que descobrir
se o amor não é mania

Quando alguém se apaixona
já libera a dopamina
que na área cerebral
faz efeito e contamina
provocando dependência
como faz a drogaína

Toda vez que um solteiro
quer sair da solidão
e procura companheira
pra viver uma paixão
precisa tomar cuidado
pra não acabar doidão

Eu conheço um sujeito
que um dia se apaixonou
por uma moça bonita
que numa festa encontrou
e desde aquele momento
na dependência ficou

Paixão às vezes começa
por simples curiosidade
Os amigos estimulam
e surge oportunidade
até no clarão do dia
nas esquinas da cidade

Os sintomas do viciado
estão no comportamento
A pessoa que ele ama
não sai do seu pensamento
e pra curar a paixão
não procura tratamento

Ele vive distraído
e perde a concentração
Não fala coisa com coisa
apresenta excitação
Só se mostra interessado
em viver sua paixão

Tem sujeito exigente
pra escolher a sua amada
Mas quando vem a paixão
com sua força ativada
faz declaração de amor
até para a encalhada

Tem paixão do tipo leve
que é chamada paixonite
e também a mais pesada
que extrapola o limite
Essa numa abstinência
é comum que debilite

Tem agências promovendo
o encontro de casais
só porque a dopamina
nos decretos atuais
não está relacionada
com as drogas ilegais

Tem artistas que estão
fazendo a apologia
porém um apaixonado
no estado de euforia
sofre como um escravo
ansiando à alforria

A paixão afeta a mente
como faz a hipnose
Nos casais apaixonados
já circula igual virose
Tem até gente morrendo
de paixão em overdose

Eu mesmo fui um viciado
sofrendo na experiência
A paixão que me cegava
embotava a consciência
mas um dia eu decidi
renunciar à dependência

Não caia nessa armadilha
Pode ser sua ruína
pois é um mal sem remédio
ainda na medicina
Resistindo à paixão
diga não à dopamina!
 
Diga não à dopamina!

Eu sou aquele poeta...

 
Eu sou aquele poeta
que escreve por vocação
e produz a sua arte
ao sabor da inspiração
tirando a matéria-prima
das palavras que tem rima
como forma de expressão

Pois no meu ponto de vista
poesia é um meio
de mostrar o que é belo
e denunciar o feio
Nela eu posso expressar
o que é particular
e também o que é alheio

Poesia é um espelho
de uma vida feia ou bela
Quem tem sensibilidade
se vê refletido nela
E também sei e não nego
que até pra quem é cego
ela abre uma janela

Ela pode exprimir
sutilezas do amor
Revelar a diferença
entre espinho e a flor
e por uma analogia
fazer a fotografia
da paisagem interior

Um poeta quando vai
caminhando pela rua
reconhece a poesia
quando se revela nua
na folha que cai no chão
ou nas nuvens que estão
cobrindo a face da lua

Porque existe poesia
até nas coisas singelas
Mesmo estrelas sem nome
formam imagens tão belas
e as flores sem olor
também mostram o candor
do orvalho descendo nelas

Ser poeta é ver beleza
no rio embaixo da ponte
Na aragem sobre o vale
e na alva atrás do monte
quando cobre vagarosa
com sua neblina rosa
toda linha do horizonte

Na aranha quando trama
o mais perfeito crochê
Na abelha que circunda
a flor roxa do ipê
Nos campos onde também
nascem hortências que tem
o formato de um buquê

Um poeta se inspira
na notícia dos jornais
Em sua própria história
Nos temas sentimentais
No teor de outros versos
e em assuntos diversos
que pareçam triviais

O que escreve um poeta
tem um significado
que ele deixa ao leitor
para ser interpretado
Nas poesias que lavra
sempre usa a palavra
com sentido figurado

Poesia é parecida
com receita culinária
que o poeta cozinha
na panela imaginária
escolhendo diligente
cada um ingrediente
na despensa literária

O poeta que verseja
pelo dom favorecido
poesia é sua adega
e seu verso consumido
como um vinho ou licor
que não perde o sabor
depois de envelhecido

Por vezes é artesão
que até por encomenda
com as linhas do estilo
um bordado ou uma renda
vai tramando com empenho
pra fazer o seu desenho
ser melhor que a emenda

Também é o garimpeiro
buscando a inspiração
na jazida do talento
e se encontra um filão
lapida para o leitor
que avalia o seu valor
na devida exposição

E quando se apresenta
no palco da estesia
e consegue transformar
palavras em melodia
com a batuta do estro
o poeta é o maestro
da mais linda sinfonia
 
Eu sou aquele poeta...

I - O genioso fidalgo Dom Quixote da Mancha

 
Apresento um herói de epopéia
como aqueles que havia no passado
ou somente um maluco apaixonado
pela sua princesa Dulcinéia
Dom Quixote empenhado na idéia
de fazer o retorno dos andantes
confundiu os moinhos com gigantes
sempre junto de Sancho o escudeiro
se tornando o bizarro cavaleiro
no maior personagem de Cervantes

I - Primeiro episódio que trata de como um fidalgo sonhador se transformou no último cavaleiro andante

Num vilarejo da Mancha
dos tempos de antigamente
vivia em uma fazenda
um fidalgo decadente
que dos seus outros vizinhos
era em tudo diferente

Sem jamais compartilhar
interesses com seus pares
repetia relutante
as rotinas regulares
se mostrando entediado
entre bailes e jantares

Vestia trajes decentes
mas modestos no valor
Tinha um velho pangaré
e um galgo corredor
O que mais o comprazia
era ser madrugador

Seu repasto eram ovos
com torresmo na farinha
Carne, queijo e batata
vinham sempre da cozinha
Nos domingos escapava
com um caldo de rolinha

Dizem que este manchego
com sua vida discreta
por uma tal de Aldonza
nutria paixão secreta
sem cupido nunca ter
acertado nela a seta

Convivia em sua casa
com sua jovem sobrinha
uma velha empregada
prestimosa e sozinha
e um moço responsável
por tarefa comezinha

Era um cavalheiro magro
beirando cinquenta anos
começando a mostrar
nos atos cotidianos
toda aquela rabugice
natural dos veteranos

Seu provável sobrenome
era Quixana ou Quezado
mas importa é sabermos
que o fidalgo mencionado
tinha tempo até sobrando
pra ficar desocupado

Certo é que a gerência
da fazenda esquecia
e perdia o interesse
em caçada ou pescaria
quando começava a ler
livros de cavalaria

Fascinado por novelas
de cavaleiros andantes
tinha livros a granel
atulhando as estantes
onde estavam reunidos
traças, grifos e gigantes

E por sempre aumentar
o seu tempo com leituras
cada vez gastava mais
em cadernos e brochuras
precisando mais dinheiro
pra arcar com as faturas

Com as grandes coleções
consumindo sua renda
resolveu por desatino
demarcar e por à venda
para quem pagasse mais
partes da sua fazenda

A sobrinha se alegrava
sempre que chegava o dia
de ver o seu velho tio
indo pra barbearia
ou no rumo da igreja
pra ouvir a homilia

Acontece que o fidalgo
com o cura e o barbeiro
só falava em romances
pra ficar o dia inteiro
discutindo qual seria
o mais nobre cavaleiro

Por um tempo cogitou
escrever sua novela
com gigante, feiticeiro,
e também uma donzela,
sem faltar o cavaleiro
para ser vassalo dela

Seu intento era mostrar
triunfando em campanha
um guerreiro até maior
que El Cid na Espanha
mas trocou a narrativa
por idéia mais estranha

Por encher sua cabeça
com tanta coisa que lia
e ficar toda semana
trocando noite por dia
pouco a pouco se deixou
mergulhar na fantasia

De tanto ler e reler
novelas e coisas tais
foi ficando convencido
que elas eram reais
e a fantasia dos fatos
já nem separava mais

A empregada servindo
a farinha com torresmo
certa feita o escutou
dizendo para si mesmo:
- Na condição de fidalgo
eu estou vivendo a esmo!

Ele ainda prosseguiu
dizendo em sua loucura:
- Quero ser um paladino
indo atrás de aventura
e vou me tornar famoso
por meus atos de bravura!

A sobrinha igualmente
deparou com o seu tio
de pé em cima da cama
num completo desvario
quase não acreditando
nas coisas que ela viu

Empunhando o seu bastão
qual se fosse uma espada
dava golpes na parede
deixando ela riscada
Ela viu o destrambelho
mas não entendia nada

Foi não foi ele dizia
um e outro disparate:
- Já deixei 4 gigantes
derrotados em combate
mas não é com o cansaço
que um soldado se abate!

Foi então que decidiram
retirar do seu alcance
todos livros com o tema
de novela ou de romance
calculando que depois
não teriam outra chance

Todavia elas ficaram
sem saber o que fazer
quando ele sorrateiro
começou a se esconder
sempre com a intenção
de continuar a ler

Certa feita procurando
esconder-se um momento
no porão da sua casa
encontrou o armamento
que o saudoso bisavô
conservou do regimento

Encontrou um chifarote,
uma adarga, um cinturão,
as ombreiras e as grevas,
o gorjal e o morrião,
os coxotes e manoplas,
e a lança espontão

Completava uma couraça
bolorenta e amassada
que apesar de apresentar
leves manchas na lombada
pelo seu tempo de uso
reputou por conservada

Experimentou o traje
que ficou meio folgado
mas na sua fantasia
tudo estava ajustado
como se ele já fosse
um guerreiro do passado

Pela falta de viseira
no seu velho morrião
ele improvisou a peça
recortando um papelão
amarrando com arames
como a grande solução

Ao olhar-se no espelho
com aquela armadura
novamente acendeu-se
a centelha da loucura
decidindo nessa hora
se lançar na aventura

- Cavalgando meu corcel
marcharei numa campanha
reparando as injustiças
dessas terras de Espanha
pra honrar os cavaleiros
em mais de uma façanha!

No momento que estava
essas coisas cogitando
de repente escutou
o cavalo relinchando
como se o matungão
estivesse lhe chamando

Convencido que já era
um guerreiro de novela
foi até seu pangaré
colocando nele a sela
enxergando um corcel
no matungo magricela

Quis montar com altivez
imitando a narrativa
mas depois de repetir
mais de uma tentativa
fez um mocho por degrau
na melhor alternativa

Já montado no matungo
decidiu ser importante
só chamar o seu corcel
por um nome elegante
e de tantos que pensou
o melhor foi Rocinante

- Sairei no meu cavalo
viajando em toda serra
Um perfeito paladino
a cruzar por essa terra
e Dom Quixote da Mancha
será meu nome de guerra!

- Meu intento é honrar
os que já vieram antes
restaurando o apogeu
dos cavaleiros andantes
sendo o mais prodigioso
em façanhas relevantes!

Como todo cavaleiro
tem por musa a donzela
a quem ele considera
a mais virtuosa e bela
o fidalgo já sabia
que Aldonza era ela

Mas pensando que a moça
tinha um nome embaraçoso
preferiu chamar a musa
Dulcinéia de Toboso
que na sua opinião
ressoava harmonioso

Tendo o nome escolhido
e trajando a armadura
com desejos de fazer
grandes atos de bravura
Dom Quixote decidiu
se lançar na aventura

A sobrinha avistando
o figalgo na estrada
cavalgando com o traje
disse para a criada:
- Ele nem nos avisou
onde é a mascarada...
 
I - O genioso fidalgo Dom Quixote da Mancha

O que é a paixão?

 
É aquele sentimento
que em excesso se reprova?
Quando não correspondido
cada dia se renova
ou se guarda em segredo
como faz a lua nova?

É o desejo de viver
um romance permanente
que se quer definitivo
sempre intenso e ardente
e que tenha a expansão
da lua em quarto crescente?

É o caminhar na praia
de um casal que não receia
ter seus passos um por um
apagados na areia
porque vão iluminados
no esplendor da lua cheia?

Ou apenas um ardor
que se almeja constante
mas se mostra com o tempo
uma chama hesitante
que só vai diminuindo
como a lua no minguante?
 
O que é a paixão?

O ciclista

 
Se um poeta é aquele
que alguma hora do dia
se dedica a escrever
o que sua verve cria
é isso que tenho feito
com a minha poesia

Mas privado das imagens
que a inspiração projeta
por vezes fico pensando
que ainda não sou poeta
e deixo de versejar
para andar de bicicleta

Só preciso pedalar
para ter esse prazer
de ir fazendo nas ruas
que estou a percorrer
a combinação perfeita
de esporte com lazer

E dobrando as esquinas
com a minha bicicleta
nem fico questionando
se sou um bardo atleta
ou apenas um ciclista
que é metido a poeta

Até porque escrevendo
não expresso a beleza
harmonia e perfeição
das coisas da natureza
que eu vejo pedalando
nas ruas da redondeza

Nas entranhas da cidade
deparo a fauna e a flora
seja numa trepadeira
que na cerca se escora
seja num joão-de-barro
lá no poste onde mora

E tanto no preto e branco
definido da andorinha
quanto no arroxeado
esboçado na azulzinha
eu vejo uma poesia
mais bonita que a minha

E me vejo a passear
pedalando a magrela
subindo por uma lomba
ou descendo com cautela
sem saber se ela me leva
ou se é eu que levo ela

Saindo da Agronomia
que atravesso primeiro
cruzando viela e beco
pela Lomba do Pinheiro
vou fazer em Belém Velho
meu passeio costumeiro

Variando meu percurso
com prazer vou pedalando
e a encosta dos morros
no entorno observando
tendo sempre na lonjura
o horizonte me chamando

Escanchado no selim
e estribado nos pedais
vou atento deparando
os campos e matagais
numa região repleta
de belezas naturais

Montado no meu camelo
subo e desço ladeira
nas ruas de Porto Alegre
sentindo a brisa fagueira
Se não faltasse pulmão
cruzava uma cordilheira

Se no trajeto escolhido
a subida é mais custosa
no declive a gangorra
vai descendo silenciosa
e posso parar na sombra
de uma figueira frondosa

E na sombra da figueira
eu descanso assistindo
um bando de passarinhos
em revoada subindo
e o colorido vistoso
de arbustivas florindo

E fazendo uma parada
ou pilotando a magrela
eu vejo um belo cenário
sem moldura nem janela
Sou como a ave que voa
no meu passeio com ela

Margeando a estrada
entre carro e pedestre
vejo toda a variedade
da vegetação rupestre
e no tempo que faz jus
a paisagem silvestre

É quando vem a vontade
nesse trecho que percorro
de morar numa casinha
dessas de cima do morro
com galinheiro, pomar,
horta, poço e cachorro

Pra ter na minha varanda
o mais extenso mirante
do panorama espraiado
no horizonte distante
desfrutando o privilégio
da beleza circundante

Entretanto essa idéia
é somente um devaneio
inspirado na paisagem
que vejo nesse passeio
manobrando o guidom
na estrada que costeio

E um roteiro diferente
que faço na zica amiga
é seguir pra Vila Nova
que é uma vila antiga
O bairro mais italiano
que nossa cidade abriga

Bisnetos de imigrantes
cultivam seus parreirais
nesse trecho do caminho
de paisagens rurais
que nossa serra gaúcha
nos faz recordar demais

Um cariz diferenciado
esse percurso descerra
Seus vinhedos no verão
parecem com os da serra
que lembram por sua vez
os vales da outra terra

O verde dessas videiras
tem variações sutis
contrastando com o céu
no seu imenso matiz
e o sol alegra as imagens
de ambientes pastoris

Em resumo é onde vou
nessas minhas pedaladas
com a minha bicicleta
pelas ruas e estradas
conhecendo a cidade
nos declives e lombadas
 
O ciclista

O batente de pau do casarão

 
Recordando meu tempo de criança
vislumbrei a morada do passado
Dois andares do jeito de sobrado
era assim que estava na lembrança
Mas o tempo incessante que avança
tudo abarca fazendo alteração
Um incêndio em nossa construção
fez de tudo rescaldo de queimado
só ficando pra nós como legado
o batente de pau do casarão

A família ainda se recorda
do sobrado já sendo construído
Começando no piso foi erguido
com telhado subindo pela borda
Nostalgia é algo que transborda
em conversas de uma reunião
Foi aí que alguém já fez menção
que no dia da casa ser pintada
recebeu a primeira pincelada
o batente de pau do casarão

Nosso pai delegou a uma filha
contratar o carreto da mudança
Eu ainda mantenho na lembrança
a viagem que fez toda família
No momento de ver nossa mobília
já descendo do grande caminhão
um roupeiro que nessa ocasião
precisava de três pra carregar
deu trabalho na hora de passar
no batente de pau do casarão

As visitas que a gente recebia
desfrutavam da nossa acolhida
e na hora de dar a despedida
prometiam voltar em outro dia
Mas na porta da nossa moradia
nosso pai como bom anfitrião
ao depois de fazer a saudação
sempre com um abraço apertado
esticava a conversa escorado
no batente de pau do casarão

Não se pode fazer o inventário
de quem já circulou em uma casa
A saudade que vem e extravasa
não aceita uma data em calendário
Se na casa não tinha algum horário
com frequência de grande multidão
o sobrado virava num saguão
se a mãe para festa convidava
Era toda família que passava
no batente de pau do casarão

Pra memória das gerações futuras
levantamos sublimes monumentos
festejando na pompa dos eventos
os acervos de grandes esculturas
Galerias repletas de pinturas
ou espólios comprados em leilão
Mas sem ter o prestígio e projeção
dos tesouros que a isso se agrega
nosso afeto ainda se apega
num batente de pau do casarão
 
O batente de pau do casarão

O drama dos jogadores compulsivos

 
Escondido no disfarce
da diversão inocente
o vício da jogatina
tem lesado muita gente
fazendo o trabalhador
ficar pobre e doente

Cerca de quatro milhões
nessa praxe doentia
de aposta em carteado,
bicho, bingo e loteria
tem um problema que só
se agrava a cada dia

O apostador da rinha,
caça-níquel ou corrida
corroendo seus recursos
em cada aposta perdida
é desse jeito que esta
destruindo a sua vida

Também os jogos em rede
que dão esse incentivo
para jovens e adultos
tem efeito obsessivo
É o mundo promovendo
mais um drama coletivo

Quem procura distração
com os jogos virtuais
e navega a internet
jogando tempo demais
fomenta para si mesmo
prejuízos sociais

Comprovando que o jogo
é vício muito voraz
quem decide não jogar
perde o sono e a paz
Você vai saber aqui
o mal que o jogo faz

Existe pai de família
que era trabalhador
mas perdeu a honradez
devido a ser jogador
pois os jogos de azar
são um mal devastador

Um sujeito que calcula
que pode lucrar ligeiro
nem percebe que está
só repetindo o roteiro
de quem perde no final
o controle do dinheiro

Na mesa do carteado
ele aceita uma proposta
e animado pela sorte
vai dobrando a aposta
mas no lance decisivo
o azar manda a resposta

Se às vezes sai da mesa
levando dinheiro vivo
com a emoção do jogo
vai ficando compulsivo
Quando volta pra jogar
já nem sabe o motivo

Dizendo que o azar
é um risco calculado
e pensando que está
com a sorte do seu lado
vai jogando todo dia
e acaba endividado

O dependente do jogo
sofre feito um escravo
Apostando o que não tem
se não vence fica bravo
Se vence volta a jogar
perdendo cada centavo

O vício da jogatina
chega sem lhe dar aviso
Quando ele reconhece
é total o prejuízo:
já perdeu o seu emprego
a família e o juízo

Quando o salão de bingo
funcionava legalmente
o serviço de primeira
e o luxo do ambiente
eram pra impressionar
e atrair o cliente

Hoje a sala é escura
insalubre e escondida
onde jogador retorna
quando tem a recaída
jogando pra lamentar
outra rodada perdida

Só aumenta o capital
do barão da jogatina
um algoz do jogador
que lhe vendo na ruína
abandona a carcaça
feito ave de rapina

Para o dono do salão
o negócio é lucrativo
mas quem fica esperando
por um lance decisivo
deixa as suas finanças
com um saldo negativo

O viciado jogando
esquece as obrigações
e ficando sem jogar
não quer outras opções
Esse flagelo funesto
já prejudica milhões

São jovens sem estudar,
empregados demitidos,
empresários competentes
que terminaram falidos
e os lares de milhões
totalmente destruídos

O povo tem que saber
que o jogo escraviza
onde perde quem não tem
ganhando quem não precisa
e o que se perde no jogo
dinheiro não indeniza
 
O drama dos jogadores compulsivos

II - O genioso fidalgo Dom Quixote da Mancha

 
II - Segundo episódio que trata da primeira jornada que o genioso Dom Quixote da Mancha fez na sua terra

Vou agora prosseguir
com a minha narrativa
recolhida nos anais
da memória coletiva
ou até em documentos
de pesquisa exaustiva

O leitor ficou ciente
no decurso do relato
como foi que o fidalgo
decadente mas pacato
começou a baralhar
lenda, ficção e fato

Nem o mais abilolado
nunca não tivera antes
a idéia que ele teve
em favor dos semelhantes:
restaurar o resplendor
dos cavaleiros andantes

Quando ele convenceu-se
que seu plano era rotundo
e a moral cavalheiresca
já fazia falta ao mundo
na fazenda onde morava
não ficou nem um segundo

Vestindo sua couraça
com bastante confiança
embraçou a sua adarga
empunhou a sua lança
só pensando em avançar
na estrada sem tardança

Cavalgando satisfeito
com a velha armadura
uma idéia quase o fez
desistir da aventura:
- Não existe cavaleiro
antes da investidura...

Como já não separava
o real da fantasia
nessas horas o velhote
seus problemas resolvia
recordando os romances
que na memória trazia

Pois pra ele as novelas
forneciam um roteiro:
- Tudo posso resolver
ao topar com o primeiro
que quiser me ajudar
me ordenando cavaleiro

E passou a divagar
que um grande escritor
da estirpe de Homero
narraria com vigor
sua saga estupenda
encantando ao leitor

- Não duvido que narrando
minha história verdadeira
ao contar as aventuras
desta jornada primeira
num estilo exuberante
faça por esta maneira:

- O paladino Quixote
de engenho tão subido
o território espanhol
percorria decidido
escrevendo a epopéia
do guerreiro destemido

- Oh, cronista, peço que
em seu relato facundo
lembre que o cavaleiro
que é da Mancha oriundo
sem ter o seu Rocinante
não assombraria o mundo!

Desdizendo o velhote
no decurso desta rota
não estava acontecendo
nada digno de nota
Mesmo o que ele fazia
não daria uma anedota

Esperando encontrar
na estrada um gigante
foi não foi ele apeava
do cavalo Rocinante
com intento de mijar
pra então ir adiante

Por veneta o cavaleiro
escanchando-se na sela
repetia pra si mesmo
a linguagem de novela
imitando do seu jeito
trechos retirados dela:

- Minha doce Dulcinéia
que na hora da partida
aceitou minha viagem
com a alma dolorida
sei que foi aquela dor
a maior da sua vida!

- Se a saudade quiser
ampliar seu sofrimento
deixe ser a esperança
o penhor do seu alento
que sem ela nada sou
mas com ela me ausento!

- E com tanta esperança
me levando pra diante
eu prometo, doce amada,
que o primeiro gigante
derrotado em batalha
deixarei a seu talante!

Disparando disparates
feito um doido varrido
Dom Quixote cavalgando
por um trajeto comprido
foi ficando ainda mais
de miolo amolecido...

Depois de desperdiçar
muito tempo em viagem
com o dia terminando
avistou a estalagem
que cansado e faminto
escolheu como paragem

O lugar que encontrou
era um sobrado singelo
mas Quixote absorto
em seu mundo paralelo
presumia estar diante
do mais imenso castelo

O velhote conduzindo
o cavalo pra pousada
conservando a viseira
do seu elmo levantada
viu que tinha duas jovens
bem diante da entrada

Totalmente envolvido
pelo mundo das novelas
Dom Quixote presumiu
serem duas damizelas
Refreando Rocinante
foi dizendo para elas:

- Se as moças permitirem
eu explico a que venho
pois da ordem cavaleira
sou um defensor ferrenho
e por damas tão galantes
com mais zelo me empenho

No estado que estava
ele não podia ver
que as duas em questão
eram feias de doer
e discursos empolados
não iriam entender

Sem falar que elas eram
da baixa sociedade
mas Quixote já estando
longe da realidade
enxergava em cada uma
um modelo de beldade

Na presença de figura
tão faltosa de juízo
inda mais com um colete
velho, feio, sujo e friso
essas duas se olhavam
sem poder conter o riso

Quase ficando a ponto
de perder a polidez
mas fazendo um esforço
para se manter cortês
Dom Quixote para elas
foi falando outra vez:

- Nada existe mais afim
com as vossas formosuras
no que tange à etiqueta
que a virtude das mesuras
mas os risos malbaratam
o padrão das composturas

Escutando o discurso
de linguagem rebuscada
e ficando novamente
sem ter entendido nada
elas passaram do riso
para grossa gargalhada

Vendo elas se portando
sem nenhuma etiqueta
e que ambas já estavam
gargalhando com careta
Dom Quixote foi ficando
de cordato pra ranheta

Passariam desse ponto
se não fosse o vendeiro
ir saindo da taberna
caminhando bem ligeiro
para ver se poderia
atender o cavaleiro

Ajudando Dom Quixote
a descer da montaria
mesmo ficando cismado
pelo traje que vestia
indagou se ele estava
procurando pousadia:

- Se o amigo quiser
retardar sua partida
deixe o cavalo comigo
e prove nossa comida
Só não posso oferecer
um lugar para dormida

- Castelão, em humildade
ao senhor não me igualo
Eu tenho plena certeza
que terá o meu cavalo
um distinto tratamento
ensejando seu regalo

- Meu corcel é Rocinante
um cavalo sem iguais
que na liça mais renhida
não retrocede jamais
exibindo o seu valor
com pujanças colossais

Mas o taberneiro viu
que o velho matusquela
tinha só por montaria
um cavalo de Gonela
arriscando se vergar
só com o peso da sela

Sem ter muita paciência
com sujeito extravagante
inda mais fantasiado
como cavaleiro andante
carregou o seu matungo
entregando ao ajudante

Da cocheira retornou
reparando divertido
que as moças com Quixote
já tinham se entendido
ajudando o cavaleiro
para que fosse despido

Que sentado na cantina
já estava ao lado delas
conversando com as duas
que chamava de donzelas
Elas o tinham levado
para perto das janelas

E assim foram tirando
a lombada e corselete
pra deixar o cavaleiro
sem o peso do colete
A maior dificuldade
foi tirar o capacete

Depois de muito puxar
mas sem ver o resultado
o cavaleiro pediu
que o deixassem de lado
parecendo para todos
um cogumelo sentado

Ele imaginando estar
numa enorme fortaleza
e que estava recebendo
tratamento com fineza
fazia belos discursos
para as damas da mesa:

- Nunca fora um cavaleiro
por damas tão bem servido
como fora Dom Quixote
o guerreiro mais subido
Dele tratavam donzelas
com o melindre devido!

Elas foram escutando
sem dar muita atenção
só pedindo que parasse
com a sua explanação
na chegada do momento
de fazer a refeição

No cardápio apresentado
por motejo ou descaso
tinha pão que foi servido
com dois dias de atraso
num pirão de caldo grosso
dentro de um prato raso

E no prato com o caldo
parecendo uma lavagem
disputavam o espaço
agrião, jiló e vagem
com o sal e a pimenta
temperados sem dosagem

Mas pra ele a gororoba
era o mais fino jantar
dizendo que o tal prato
se um rei fosse provar
a receita honraria
o seu nobre paladar

E mesmo que na cabeça
lhe pesasse o morrião
parecendo satisfeito
com a nobre refeição
para as damas ele fez
uma breve confissão:

- As damas vão assentir
que agora eu não minto:
se a fome está na mesa
para ser claro e sucinto
quão difícil é jantar
sem parecer um faminto!

Nisso foi chegando ali
distraído um porcariço
que entrava na taberna
retornando do serviço
assoprando cinco vezes
sua flauta de caniço

Escutando aquele som
(para ele harmonioso)
Dom Quixote confirmou
comovido mas ditoso
que estava no salão
dum palácio suntuoso

Mas estava incomodado
com a tal investidura
pra poder de uma vez
se lançar na aventura
percorrendo a Espanha
na sua cavalgadura

FIM
 
II - O genioso fidalgo Dom Quixote da Mancha

A beleza das flores

 
As flores tem o desenho
mais belo da natureza
O jardineiro ocupado
em cuidar sua beleza
sempre olha o jardim
com renovada surpresa

Também o campo de flores
que a ventania agita
exibe muita beleza
difícil de ser descrita
e uma flor vista de perto
é ainda mais bonita

As flores dos arvoredos
na devida estação
abrem as suas corolas
como a cauda do pavão
e até nos rios e lagos
tem plantas em floração

Certamente elas não tem
poucos admiradores
Quem não para seu olhar
nas borboletas e flores
do canteiro quando estão
combinando suas cores?

Vicejando sempre foram
tema de muitas pinturas
Quem não gosta de escolher
essas frágeis criaturas
nos arranjos variados
que tem as floriculturas?

Cada espécie de flor
na sua beleza extrema
somente por existir
merecia um poema
Tanto verso já foi feito
e não esgotou-se o tema

Pensando nessa beleza
não é difícil supor
que nos tempos de outrora
o primeiro trovador
fez o seu primeiro verso
inspirado pela flor

É por isso que as flores
nas relações sociais
são o presente perfeito
em datas especiais
sendo um gesto de afeto
apreciado demais

Quem nunca deu uma flor
para a sua namorada?
Depois do parto a mãe
com flor é agraciada
e as coroas enfeitam
o fim da nossa jornada

No lugar onde trabalho
eu conheço um setor
onde uma funcionária
como é do seu pendor
de tempos em tempos dá
aos colegas uma flor

Todo homem ou mulher
durante o expediente
sempre é merecedor
de ganhar esse presente
e o perfume da amizade
se percebe no ambiente

Os colegas ficam gratos
com a sua gentileza
vendo em seu coração
aquela mesma beleza
expressada pelas flores
que enfeitam cada mesa

Eu com essa linda flor
também fui presenteado
ficando meio surpreso
no entanto motivado
a um pouco refletir
no seu significado

Nesse mundo que vivemos
tão carente de valores
onde as ações se pautam
pela troca de favores
é o amor sem interesse
expressado nessas flores

Esse presente ofertado
espontâneo e sem aviso
é a troca de uma flor
na ternura de um sorriso
pois a cordialidade
não nos causa prejuízo

Precisamos praticar
da mesma forma singela
esse gesto cordial
que é praticado por ela
quando faz que uma flor
se torne ainda mais bela
 
A beleza das flores

Rescaldo

 
Eu não sei se é o tempo
ou se é eu que estou errado
querendo ver no futuro
o que vivi no passado
naqueles dias felizes
que estive do seu lado

Que nossa história acabou
não pude me convencer
e os nossos bons momentos
não consigo esquecer
Queria voltar no tempo
mas isso eu não sei fazer

Não acredito que a dor
o tempo é que vai curar
pois o tempo que passou
fez a saudade chegar
e quando a saudade chega
não vem para consolar
 
Rescaldo

Ascensão, apogeu e queda de uma paixão

 
Hoje em dia um rapaz
não deseja ter família,
ser fiel a uma esposa,
educar filho ou filha
Diz até que casamento
é um fardo sem rodilha

Um amigo que casou
ele olha com desdém
Sua vida é uma festa,
a balada é seu harém
Pensa até que liberdade
só quem é solteiro tem

A viver sem compromisso
já está acostumado
mas um dia experimenta
um poder inusitado
Numa troca de olhares
ele fica apaixonado

Os amigos apresentam
a mulher especial
Ele entra na conversa
com assunto trivial
repetindo para ela
a cantada mais banal

A mulher que ele quer
joga com a sedução,
finge até desinteresse,
faz comer em sua mão
É ali que ele conhece
os arroubos da paixão

Começando o namoro
seu tormento é completo,
fica noites sem dormir,
passa o dia inquieto,
conhecendo uma lei
que vigora sem ter veto

Ele diz para os amigos,
mesmo para quem duvida,
que agora encontrou
a mulher da sua vida
pois em antes e depois
sua história é dividida

O sujeito apaixonado
muda até sua rotina
pra estar com a mulher
que lhe ama e alucina
Nessa mente obsessiva
já circula a dopamina

Quando pensa em declarar
tudo o que por ela sente
bota uma faixa na rua:
-Vou te amar eternamente!
como prova desse amor
de paixão entorpecente

Os seus nomes no umbú
ele escreve a canivete
Quando estão no celular
para ela se derrete
Manda flores e bombons
ou e-mail pela net

Ele troca de emprego,
muda pra outra cidade,
pra ficar mais perto dela
e abrandar sua saudade
pois só na sua presença
é que tem felicidade

Cego por essa mulher
pensa nela todo instante
Gasta tudo o que tem
pra comprar um diamante
e lhe dar como presente
que ela aceita radiante

Mas um dia ele descobre
que na trama tinha três
Ela toma a decisão
de voltar para seu ex
e o que sentia por ele
nega de uma só vez

Não querendo aceitar
ele começa a beber
Com a língua enrolada
diz que quer lhe esquecer
Quando fala da amada
dá risadas sem querer

Ele diz que quando bebe
sabe a hora de parar
divertindo os amigos
que estão naquele bar
Diz que é só a paixão
que lhe pode embriagar

E tomando outros goles
aos amigos ele diz
que ele é o bom partido
para fazê-la feliz
Só não entende por que
sua amada não lhe quis

Paga mais uma rodada
para quem está na mesa
Dizendo ser o mais rico
vai ficar com a despesa
mas só fala na mulher
que não quis sua riqueza

Com mais doses de bebida
vai ficando mais valente
Diz que bate em qualquer um
que esteja ali presente
se falar da namorada
que deixou-lhe de repente

Ele xinga os clientes
que estão naquele bar
Os amigos que ele tem
fazem ele se calar
E lembrando da mulher
ele começa a chorar

É levado para a casa
por amigos carregado
perguntando o motivo
de ter sido rejeitado
e adormece na varanda
num tapete estirado

Acordando já nem lembra
das bobagens que ele fez
Na ressaca só recorda
que a sua embriaguez
foi por causa da mulher
que deixou-lhe duma vez

Essa história termina
num tormento sem mister
e o sujeito que padece
pelo amor duma mulher
por entrar em desespero
se transforma em esmoler

Isso tudo é o que faz
os caprichos da paixão
Seja leigo o sujeito
ou de muita instrução
ela consegue apagar
a lanterna da razão
 
Ascensão, apogeu e queda de uma paixão

Conselhos de um caminhoneiro ao seu filho de mesma profissão

 
- Digo a você, meu filho,
se por vocação quiser
trabalhar honradamente
na carreira de chofer
sempre evite no caminho:
jogo, bebida e mulher

- Não é fácil no país
ser chofer de caminhão
Rodovias são precárias
sem qualquer manutenção
Onde sobram os buracos
falta a sinalização

- Todavia o motorista
batalhando por seu pão
toneladas de progresso
leva em seu caminhão
Integrando as fronteiras
faz crescer nossa nação

- Referente ao namoro
quero ir aconselhando:
o amor não é esmola
que se ganha mendigando
Coração não é hotel
cheio de vagas sobrando

- Pra poder se conservar
na postura sem malícia
nunca diga pra si mesmo
que namoro é a delícia
que começa na janela
e termina na polícia...

- Não esqueça que paixão
faz igual uma fumaça
que chegando sorrateira
vem nos olhos e embaça
vai depois se dissipando
perde força e logo passa

- Nunca troque sua rosa
pelas falsas margaridas
compensando no retorno
a tristeza das partidas
Pra andar no acostamento
muitas são as avenidas

- Mas querendo ter juízo
uma coisa eu lhe peço:
nas estradas desse mundo
não se renda ao excesso
nem esqueça quem está
esperando o seu regresso

- Sete coisas perigosas
pedem atenção constante:
motorista domingueiro
um valente no volante
o estresse do carreto
com o destino distante

- Animal solto na pista
os buracos no asfalto
uma ponte com neblina
o perigo dum assalto
São motivos suficientes
pra não viajar incauto

- Nunca viaje correndo
evitando usar o freio
Quem tem contas a pagar
vai e volta sempre cheio
Dê respeito a motorista
que viaja em passeio...

- É melhor ir devagar
que parar na oficina
ou tombar o caminhão
numa curva assassina
com o tanque já aberto
derramando a gasolina

- Nunca use o rebite
pra manter-se acordado
Quando chovendo viaje
com cuidado redobrado
Pelas curvas perigosas
só atento e concentrado

- Não imite um piloto
ao fazer ultrapassagem
pois o bom caminhoneiro
pra fazer boa viagem
leva sempre a sensatez
junto com sua bagagem

- Dirigindo apressado
a estrada é prejuízo
Já com marcha reduzida
descansado e com juízo
não se encurta a viagem
nem se apaga um sorriso

- Veja sempre na família
um valor que você tem
Se alguém lhe perguntar
de que terra você vem
diga vir de um lugar
onde só lhe querem bem

- Seja atento com motor
com faróis e com pneus
pra ter sempre garantido
o retorno para os seus
Nunca viaje sozinho
indo e voltando com Deus
 
Conselhos de um caminhoneiro ao seu filho de mesma profissão