Poemas, frases e mensagens de Umav

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Umav

dormem todos e sonham-se despertos

 
dormem todos e sonham-se despertos
toda luta e rotina, passatempos
vaga mente entre água, fogo e vento
acredita dos sonhos estar perto

quanto mais se aproxima, tão mais certo
tudo mude, ruindo entre lamentos
na memória sepulta a exemplo
do que não se fazer para dar certo

recomeços sem fim na noite eterna
seja rei ou escravo, a mente hiberna
procurando por algo onde não há

há papéis que se dão uns para os outros
seja rei ou escravo, nenhum solto
pesadelo sonhando até acordar
 
dormem todos e sonham-se despertos

cicluz

 
neste mundo, neste instante
alguns vivem seu inferno
alguns outros, adiante
vivem gozo, brando e terno

sendo ciclo é eterno
sem sentido que a busca
seja em livros ou cadernos
da palavra que ofusca

um só verbo que traz, brusca
às ideias substância
quanto mais ela se busca
mais distante da infância

tudo é perto na distância
dois pontinhos, anos-luz
se encontrá-la, longe lance-a
um apaga, outro reluz
 
cicluz

temores

 
solitário vagava eu pela rua
entre poças, putas e abaixo
da bruxuleante luz da lua
de nenhuma pessoa colhi dos lábios
palavras de apreço, perdão ou prece
de nenhuma pessoa bebi olhares
de pinga com limão e sal dos mares
trago em meu ser a fome dos cachos
de seus cabelos e de outros lábios
esses que sussurram à noite e só a ela
tudo o que colhem do que destilo
do prazer dos afagos e dos vapores
noturnos a cobrir consciências
é vago o pensar e largo o pesar
meto o pé na poça e de bela
a lua se desmancha em tremores
 
temores

inflação

 
o respeito
anda em falta em todo canto
não o encontro no trabalho
no mercado, nas ruas
na internet

foi deposto na calada da noite
entre xingamentos e calão
qual num golpe de estado
pelo despeito

o gratuito despeito
é esbanjado em vias públicas
é espirrado em minha face
é uma revoltante e internacional
catarse

um estado de espírito
transcendente se faz mister:
atravessar o lamaçal dos porcos
é necessidade de providência
não defeito

respeito não brota da terra
respeito não se compra
respeito nasce no peito
admirado
e a outro peito afeito

afoitos por compulsivo coito
o abortam
 
inflação

abate asas

 
.

abate asas
vento frio. beira flor
gota d'orvalho

.
 
abate asas

deste um sentido à vida

 
deste um sentido à vida
e o sentido era leste:
leste, leste toda vida
mas nada leste que preste
 
deste um sentido à vida

meu milésimo soneto será

 
Meu milésimo soneto será
como meu primeiro: amador.
Anos de prática e ainda a dor
de rimas pobres e métrica a errar.

Não há santo que salve, saravá!
Obstinado que sou, com amor
no coração a implorar-me a flor
dos rabiscos, assim será!

Resta-me em tom monocórdio aguardar
a realização da profecia
em 14 versos verídicos.

Mais um soneto estou a contar
e se contas sílabas, com ironia
conto que não é meu este eu-lírico.
 
meu milésimo soneto será

cartografia

 
leio nas cartas
do mundo todo o relevo
altos e baixos
sulcos inscritos
na fina derme da folha
com cirúrgica precisão

há norte e sul
bem delineados no traçado
e a devida escala
e proporção
e cores de livre escolha
delimitando diferentes áreas
para diferentes povos
em língua e cultura

não leio nas cartas
o que as regiões vastas
de vazia textura
entre os traços
guardam. não me atrevo
ou subscrevo
à rasura
 
cartografia

tanto tapa e descontrole

 
tanto tapa e descontrole
rende luta muito ibope
dos vizinhos cai controle
e ao fone chamem o bope

IBOPE - medição de audiência de tv
BOPE - batalhão de operações policiais especiais

um meta-poema de merda e com rimas pobres...
 
tanto tapa e descontrole

pouso sem vôo

 
Há uma ave no fio em frente à janela. Ela dorme, a ave, equilibrada no fio. Esteve aí desde o anoitecer e não aparenta querer voar. Há algo preso em sua pata, um emaranhado de fios, embaixo do fio. Talvez carregue parte de seu ninho e dele não consiga se desvencilhar. Talvez seja obra de algum moleque. Talvez nunca mais voe, presa ao fio elétrico por uma trama de seu passado. Será pássaro entre a vida e a morte, por um fio ligado ao passado.
 
pouso sem vôo

na rua rio

 
.

na rua, rio -
veloz murmúrio da foz
ao meio fio

.
 
na rua rio

lei

 
lei
 
 
lei

cabelos de sol

 
.

cabelos de sol
mar de beijo - menino:
"manhêê, é manhã"

.
 
cabelos de sol

bronzeado

 
.

pessoas morrem mesmo em dias de sol
o céu azul mascara qualquer escuridão
quem vai de encontro ao mar bravio
traz na face os velhos óculos de sol
parceiros de sorrisos hoje ausentes
frente a faces reticentes
vagar entre as vagas do mar
requer coragem e aceitação
mesmo a mais bronzeada fortaleza
desfeita a cada passo de areia
vê-se frágil frente a nada
além de água a todo lado

.
 
bronzeado

ruelas

 
pessoas em ruínas passeiam por aí, descontraídas
se um dia sonharam, na noite sem lua caminham
a luz torpe dos postes apaga as estrelas
as pessoas assim caminham, sem rumo
sem estrelas não há norte, nem sorte
balbuciam baixinho o azar de perdê-las
entre um pigarro de pinga ou de fumo
mas por sorte, não importa quão perdida
qualquer ruela pela vida leva à morte
 
ruelas

risco de nuvem

 
.

risco de nuvem
avião faz no céu. sem
risco de chuva

.
 
risco de nuvem

precavida

 
quem aqui chega
embrulhado em placenta
ungido por lágrimas
não se apercebe de imediato
da aspereza do mundo

mil cicatrizes depois
já seco e erodido
finca com firmeza
a sola do pé no solo
pois teme partir

e fincando se parte
e parte comigo fica
 
precavida

a vida num sonho

 
coube a mim dar a vida por encerrada
tanto mais cruel pelo tanto de lutas
por glórias aqui se lhe negando injustas
em tramas pelo estreito palco encenadas

fecham-se as cortinas, vai encarcerada
autora de finas rotinas, da arguta
compreensão da humanidade, e escuta
a indiferença da platéia ingrata

vai em silêncio mas nunca forçada
prenhe de idéias, voz amordaçada
ser canonizada por autoridades

e coube a mim este papel perverso
onde carrasco a eternizo em versos
a vida num sonho de posteridade

escrito para uma antologia da Lua de Marfim como fotograma (ou Niuma Pessoa)
 
a vida num sonho

abbababba

 
por que tantas vezes
e tantas vezes quantas
foram as vezes sem conta
que tantas quantas vezes
a quantas anda a conta
das vezes sem conta
que canta tantas vezes
quanto conta às vezes
sobre contas tantas
que às vezes a conta
canta por meses e meses
quantas jantas em conta
sexta-feira treze
traz mais fregueses

às vezes eu às vezes
 
abbababba

lixo na chuva

 
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lixo na chuva -
enxurrada na estrada
trânsito curva

.
 
lixo na chuva

Umav