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Poemas, frases e mensagens de Bizita

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Bizita

Sal e silêncio

 
Numa tela cor-de-tempo
pinto o pensamento
em traços de um sonho ténue
que ao de leve
nos tocou a pele
a minha e a dele.

Em que esquina se perdeu a noite
mansa e quente
onde maio floresceu?

O choro do vento
rasga a insónia estridente
e a lua errante inventa
sorrisos vagos
no seu rosto ausente.

O que ficou deste sol
incêndio em lábios de primavera?

A poeira de um poema
feito de sal e silêncio
e a luz frágil
quase morta
escondida no muro
onde se encosta um sussurro
que me sufoca.

B.
 
Sal e silêncio

Ensina-me um mar...

 
Se um dia me vires caída
sob a minha sombra
pergunta à vida
onde escondeu as pedras polidas
que não me deu. Nelas me deitei
regato e em manhãs
de pássaros voei um tempo
que nunca foi meu.

Rasguei no vento passos doridos
e às vezes dói-me
o frio dos rios
em poeiras da alma que o silêncio soprou.

Se um dia me vires caída
sob a minha sombra
acende luas no meu olhar
e nos teus olhos de água
ensina-me a vastidão de um mar
em que das pedras me perca
sem que me perca de mim.

B.
 
Ensina-me um mar...

Delírios

 
Encontrar um espaço azul
naquele ponto em que o tempo
para sob as águas.

[ Sombras suaves a flutuarem na luz ]

Deslizar de um corpo em forma de pedra.

Poder ser real
substância
imune às arestas das sílabas.
Serenar a alma
e ouvir o vento cantar.

B.
 
Delírios

A transfiguração da sombra

 
Queria entender os rituais das marés
no retorno dos pássaros
aqueles que viajam infinitos
amainando a crispação das águas
e espelham o arco-íris no seu voo intemporal.

Queria reconhecer palavras nítidas
nos teus olhos e com elas
escrever a primeira floração de abril
e em manhãs escorregadias crer
na esquiva ilusão da cor
e na sábia transfiguração da sombra.

Queria suspender na memória dos rios
a lenta respiração da casa
nela descerrar a luz que inunda
a madrugada
e anunciar o regresso dos barcos
à certeza de braços que lhes são porto e preia-mar.

B.
 
A transfiguração da sombra

As raízes do meu tempo

 
Abrigo-me sob um céu feito de horas
antigas
e os meus cabelos são mãos de seda
deslizando
no véu azul da noite espessa

a voz dos sinos chora a casa e o fogo
crepitando
os cheiros
os sabores
dos vultos e do chão
afagando os sulcos do meu rosto

soletro os meus caminhos
os lugares
as histórias
as pedras simples
uma a uma

habito os silêncios
das árvores
e das sombras

e em palavras de ontem
inscrevo as águas
das memórias
nas veias e raízes do meu tempo.

B.
 
As raízes do meu tempo

Sonhos d'água

 
Tão em mim resguardo
na relva fresca da memória
o rasto dos instantes
que nos queimaram a pele
num mundo sonhado na lua cheia dos dias

quebrámos relógios
isolámos o tempo em moléculas
de luz
rasgámos o nada
de horas vazias

o sol brilhou
em demasia
afogou os sonhos d’água
numa chama esbranquiçada
opaca
sombria.

B.
 
Sonhos d'água

Verde-água

 
Habito paredes nuas
nos corredores da memória. Sou
neblina
sílaba vagarosa
aguarela de pássaros
e vinha-virgem
véu de buganvílias
debaixo deste alpendre
onde o tempo para. Descalça
parto por entre o emaranhado das folhas
transponho a doce luz aberta nas sombras. Nítida
a crescente harmonia do silêncio. Abrigo-me
no azul esvoaçante. Desperto
leito
rio
pedra
espuma.
E lá
no verde-água distante
onde moram as gaivotas
clareia o poema
em círculos de céu
e de vento.

Chamam por nós.

B.
 
Verde-água

Rumos

 
Foge-me o olhar
iludido num destempo seco
que me redesenha horizontes incertos
sorrisos impossíveis de memórias e silêncios.

Não me encontro entre os ventos vazios
perco-me numa tela de nuvens que não pintei
e se desfazem em brumas de uma solidão sem fim
e em palavras que já não sei
e que procuro e me fogem
de sonhos vadios que já não cabem em mim.

Percorro um chão minado de dias cinzentos
trancado em passos hesitantes
que me pesam em lágrimas
e em rumos vagabundos de imagens que partem sem mim
em viagens errantes de um poema
que já não cabe no tempo.

B.
 
Rumos

Tecendo fios de lodo

 
Entre os silêncios de pedra
tatuados nas paredes,
nascem ecos redondos
germinados no meu corpo,
estéreis amontoados de sílabas,
feitiço de um sopro do tempo.

Ouço a respiração da noite,
o zunido da lua
difusa no ar
sem as carícias do vento.

A neblina fecha o horizonte,
acorrenta o rumor do mundo.

E os silêncios cerram o círculo
e os ecos agonizantes tecem os fios de lodo
e a voz alucinada não pára de dobar.

B.
 
Tecendo fios de lodo

Certas noites

 
Certas vezes as noites são sorrisos
e as palavras simetrias
fluidez de imagens
oceanos de luz exalando madrugadas.

São vozes de folhas calmas
frescas e orvalhadas
indizível claridade
de sóis perfumados de vinhedos.

Certas noites são silêncios
versos e bruma

redemoinhos de nadas

ausências esculpidas em fios de memórias
margens do tempo
através do tempo
a preto e branco

o tempo.

B.
 
Certas noites

Lua cheia de saudade

 
Deixo que o poema sobrevoe a saudade
ressuscito o teu rosto
do tempo
que desistiu de passar.

A meus pés
um abismo de lugares vazios
onde eu sento as sombras
dos sonhos que chamam
pela esperança
pelas luas
pelas dunas
em que a noite se deitou
e se tornou fios de luz
dentro de nós.

B.
 
Lua cheia de saudade

Já não sei se há domingo...

 
Já tive uma rua inteira
aberta
cheia da luz de domingo
e uma porta deslumbrada
por onde essa luz entrava
completa.

Tinha também um rio
que passava ao pé da porta
de águas mansas e frescas
onde a vida se espelhava
e o meu corpo suspirava
pelo brilho de domingo
das flores
e das borboletas.

E nos meus olhos de mar
sorria a pureza do mundo
cabia um céu de gaivotas

[também Deus tinha um lugar]

dentro dos meus olhos de mar
ao domingo.

Já não tenho nada
já não sei o meu lugar
já não sei se há domingo
nem mesmo se quero o sol
a nascer detrás da noite
a despertar o luar
no outro lado do mundo.

B.
 
Já não sei se há domingo...

A impaciência das horas

 
Perturba-me a impaciência das horas
pingando o sal das memórias
o disfarce
a invenção
esboçando a mais perfeita versão
que irá entrar pela sala.

O espelho sorridente oscila
os olhos derramam gotas de luar
atrás do vazio ardente
que o silêncio transparente faz aproximar.

O caminho já esqueceu o verde puro
confundem-se as imagens
nos passos que passam sem chegar.

São tardias as vagas
que teimam em madrugar
em inventar o navio
e enfunar as velas que saibam habitar
a neblina
no labirinto de amar.

B.
 
A impaciência das horas

Teias de palavras sem abrigo

 
Nunca as horas foram tão breves
nunca os dias se fecharam tão cedo
contornos da noite
chuva baça
sem regresso.

As linhas do tempo sustidas
pelo desalinhamento dos ciclos
e as cores que incendeiam a tela
destroços de rostos
ao longo do silêncio do verso.

As mãos erguem as memórias
retêm o rumor do tempo. Prolongo-me
pelas copas das árvores
sopro apagado das pedras
e de aves caídas
arremesso.

Nunca os dias foram tão breves
e as horas compassos distorcidos
teias de palavras sem-abrigo
retrocesso.

Bizita
 
Teias de palavras sem abrigo

Ainda não havia outono...

 
Era ainda o tempo
em que o vento era azul
e eu falava com as gaivotas
e com o sol
que me via crescer.

Os meus olhos procuravam o mundo
por detrás do mar
ao entardecer
e a luz detinha-se
em palavras simples
que voavam
simples e verdes
no fogo
ao amanhecer.

Ainda não havia outono
nem árvores vestidas
de silêncio
e eu era uma janela inteira
aberta para o tempo.

Hoje o sol cansou-se
por detrás dos meus olhos
e anuncia as folhas
que andam caídas
entre os meus dedos
sem aves às cores
sem ramos verdes
perdidas da luz
que ainda sonho ter
num acaso em fuga
bálsamo
transgressão
ou deslumbramento.

B.
 
Ainda não havia outono...

Entre tempos

 
Em mim se entrelaçam todas as melodias do mundo
na trajetória de uma brisa que ilude as solidões
no véu de luz que transporta.

Cerro os meus olhos para entender
os silêncios
matizando as cores
repartindo as verdades entre as minhas folhas
entre os meus frutos
acompanhando o azul e o sol que lhes moldam as estradas.

Gravo nas palavras a fragilidade dos instantes
os vidros quebrados tocados pelo vento
sem saber como se sai
desta inaptidão da alma
onde a chuva me açoita
e grita
e sucumbe
quando articula o meu nome.

Sento-me na orla do tempo
como quem sopra memórias em dentes-de-leão
e invoca dias claros
para desfolhar a recontagem dos silêncios.

B.
 
Entre tempos

Rio de ecos

 
Desenho em traços sem nexo
um jardim de afetos
que em prosas e versos
e em esquinas perdidas
me incendeia as veias.
Em mim flui ainda
um rio
que em morosos movimentos
se solta de cais e amarras
e se dispersa por folhas brancas
onde acendo velas
e suspendo bóias
visíveis nas vidraças das janelas.

Enegrece o azul
num tempo de imagens e de enigmas
que se refletem em espelhos
presos na moldura de nuvens
onde o horizonte sombreia.

E eu
sentada em degraus de pedra
desdobro a vida que passa num leito de ecos
pela noite branca.

B.
 
Rio de ecos

A cidade envelheceu

 
Mas há ainda a pedra solta que fui

[ irrecuperável corpo solar ]

repartida entre céu e terra
quando mais do que o tempo
a vontade podia.

Intuí

[ tarde em demasia ]

a infertilidade dos dias
no circular movimento
do abrir e fechar
de paredes nuas.

A cidade envelheceu
nos troncos gastos das árvores

e há ramos a desistir
a desistir

um outono de silêncios

e a claridade nas veias
a luz
outras ruas

outras ruas
que me procuram.

B.
 
A cidade envelheceu

A dança da luz

 
Talvez habite um rio
onde sei de cor a utopia das pedras
ungidas de silêncio. Talvez celebre
o encontro quando depurar
de falas turvas as horas
perdidas entre nítidas veias de lodo.

A sombra espera que a voz
dos sinais desvende
o brilho das palavras.

Talvez nesse dia inscreva no ventre da terra
os fios de luz que
um por um
dançarão os caminhos
e reinventarão o sol nas raízes da casa.

B.
 
A dança da luz

A mudez dos pássaros

 
O silêncio escorre pelos sulcos do tempo
rompe os ruídos da noite.
Encaro os espelhos resignados
e arrumo os meus sonhos
de tranças desfeitas e olhares demorados.

Sinto as pálpebras vergadas
às paredes indecifráveis da memória
sílabas confusas estilhaçam
o centro da palavra.

Recorto vultos em páginas
opacas
em busca de caminhos à solta
e raízes ao vento
sementes do pensamento.

Em vão fujo de mim
sem rumo na linha do horizonte
nem céu que sobrevoe a mudez dos pássaros.

B.
 
A mudez dos pássaros