Poemas, frases e mensagens de argoladafivela

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de argoladafivela

A meio caminho

 
 
chegamos a meio da ponte …
e ficamos com aquela sensação
do tempo em vão

olhamos para trás
e vemos
[por preencher]
os moldes perfeitos
da felicidade

nesse momento
as pernas fraquejam
a ponte vacila
as feridas antigas
perdem a crosta
o corpo reconhece as mentiras da boca
quando diz:
- “ainda és novo ”
- “ podes alcançar tudo de novo”

a nua verdade… é que estamos na meia-idade
a crua realidade…é que iniciamos a descida para aterrar
algures no fim da vista
 
A meio caminho

Rond de jambé

 
 
a pele olhava os olhos
e o brilho nosso
ofegava
vontades

não era medo
era o desconhecido
sentimento
de um toque
sem ensaios
sem retoques

meu Deus
o que foi feito daqueles
jovens
sangrando amor?

depois do passado tempo
o que se salvou do nosso peito?

da minha parte
ficou a tua doce imagem
a saudade velhinha
as cicatrizes escondidas
no forro da pele
costuradas
pelas
ausências
e todo um amor que é teu
 
Rond de jambé

A força das tuas palavras

 
A força das tuas palavras
 
abraço a ilusão... de pensar
que os teus vocábulos
são direcionados ao meu olhar
e acabo por encontrar
uma lágrima
em contra-mão
fugindo do triste mar
que é o coração

talvez um dia
a tua poesia
atraque no meu peito
e afaste o sal do azul
com a doçura de um verso
 
A força das tuas palavras

Os regressos conhecem os passos

 
Os regressos conhecem os passos
 
 
depois do corte
do grito inaugurado
seremos para sempre
incompletos

um dia
algures
na viagem
sonharemos em regressar
ao ninho
à maternidade


saberemos o caminho
afinal
os regressos
conhecem bem
as pernadas
dos nossos passos
 
Os regressos conhecem os passos

Lê-me

 
Lê-me
 
o sorriso...
gasto

gasto como os livros
adormecidos
numa estante de pinho

esse tabuado empurrado contra a parede
como uma prostituta de rua
vítima da sede de um louco

Vem …!

Vem …!

deixa o sofá
abre um sorriso
lê um sorriso
as palavras do rosto agradecem
e as folhas também
 
Lê-me

A janela entreaberta do olhar

 
 
É difícil desprendermo-nos
De tudo o que faz bem ao coração

Foi assim no nascer

No corte do cordão

Foi assim
No primeiro e no último
Encontro
Nosso

Mesmo sabendo do fim
Aqui continuo
Molhando as palavras
Com o melhor de mim

Marcando com o coração
As letras

Sei que é uma loucura
Mas a poesia
Foi a primeira janela
A abrir o peito
Não queria
Que fosse a última
A fechá-lo
 
A janela entreaberta do olhar

"Lavar os olhos"

 
 
absorver o sal
antes de molhar o olhar
é lembrar-te …

é passear pelas teclas
deixando as letras
marcadas
pela dor
de um torcer
de peito

é mais que
uma chuvada
é um dilúvio
barrento
vindo
do fundo
da alma

amar-te
é a lua no sapato
que nunca foi passo
para a nossa humanidade

de todos estes ensaios
o pano nunca se mexeu
a saia ficou abotoada
o sangue ficou a ferver
no vulcão fechado

a final
o amor cresceu
agigantou-se
enrolou-se
e nunca deixou
de ser raiz
não chegou a ser calo folha
fruta na nossa boca

fomos sem termos sido
perdemos sem termos ganho
enchemos os vazios com papel de embrulho
e faltamos aos nossos aniversários

fomos tanto sem termos sido nada
masturbamos
vontades
sem espremermos um único
citrino

fomos a inverdade
mais verdadeira
do sentir

ainda assim
o coração
só dorme
pensando em ti

sonhar-te
é alegrar
o imo mais íntimo do íntimo
 
"Lavar os olhos"

Sonhar-te

 
Sonhar-te
 
o sonho de te ter
fervilha na pele rochosa
ganhando a coragem das mariposas
de um rastejar a um golpe de asa
de um grito dorido a um suspiro de harpa
 
Sonhar-te

Descolagem

 
 
Há muito que desconheço
O paradeiro do teu sorriso
Neste espaço

Parece que foi no “ontem” muito tarde
Que os nossos olhos
Descodificavam um amor em prosa
Dilatando os lábios
Com orquestra dos dedos

Ultrapassamos as horas lentas
Encurtamos distâncias
Até estarmos tão perto
A milímetros de um cego beijo

Agora tudo foge
As oportunidades
As escolhas
As melodias
Os nossos versos

Nesta passagem
O fim da viagem
Já nos brinda
Com aquela brisa
Do fim

O amanhã
Não parece como horizonte do mar
Lá esperamos ver quem foi

O horizonte que agora vemos
Vai cair com o sol
E o amanhã será
Diferente

O sol virá
Sozinho
E menos
Crente

A poesia ficará
Vazia

A magia da palavra
Ficara sem a alma
E sem a rima

Tudo terá a cor do início...

O branco indiviso
Da folha
 
Descolagem

Tudo poderia ser diferente

 
Tudo poderia ser diferente
 
dos amores perdidos

das saudades achadas

do corpo envelhecido

das palavras gastas

existe uma esperança
a forçar a entrada
numa alma trancada
enferrujada pela oxidação do amor e das pálpebras …

um amor …
abandonado no chão vermelho de um peito
amputado
depois de um abraço negado …
pelos teus abraços …

meu Deus !

e se e o tal abraço não fosse negado?

e se o “ amo-te “ fosse mais audível?

e se a coragem fosse mais persistente?

e se a mágoa se transformasse em saudade insistente ?

E se...

meu Deus!

se o teu amor viesse hoje, teria a força de erguer o mundo para o proteger
…assim …

apenas consigo me arrastar com o andarilho …
e ser parte desinteressante
de um cenário
onde o tempo
contracena com o silêncio desumano ….
 
Tudo poderia ser diferente

O céu sempre foi o nosso lar

 
 
fragilizado com as lágrimas alheias
desmoronou a emoção
nos ombros mais próximos

com a voz embargada
pediu aos olhos parecidos
uma pausa
na descida
acentuada
das vagas

aquele menino
ainda não sabe
que as janelas
da face
deixam
trespassar
o mar
quando o coração
cresce
tocado
pela saudade
de quem parte
 
O céu sempre foi o nosso lar

A tristeza chega como as marés

 
A tristeza chega como as marés
 
 
o cinzento turvo do íntimo
estranha a espuma branca
nos pés

fica espantado
com o vulto
azulado
do mar

com receio,
se enrola em lágrima
e se desfaz
 
A tristeza chega como as marés

Retratos sem Alma

 
Retratos sem Alma
 
 
ser pescadora de ilusões
é espremer o coração
num poema
com as esperanças
que as palavras
sejam traineiras
cheias de estrelas
em direção ao teu olhar

no fim
o vazio
chega
com a última frase
com a última pontuação
por dar

como diria antes de te conhecer
na alma dos poetas
cabe todas as paisagens incompletas

uma frase divorciada da realidade
ainda guardo cá dentro
um areal molhado
e um lugar vago
ao meu lado
com o teu nome
 
Retratos sem Alma

Quase abraço

 
Quase abraço
 
a pele ganhou as perfeições da tua
num leve roçar de mãos

imagino como seria
se a pele do coração,
se soldasse num abraço…

talvez o silêncio partilhado
tivesse a tonalidade do mar e a sonoridade de uma canção

talvez o azul do céu
escorresse em nossos ombros …

talvez os sonhos
se tornassem pequenos…

para sempre pequenos …
 
Quase abraço

Tão longe do mar

 
ele diz que morreu na praia …

tocou-me na canela despida
não ultrapassando a bainha da saia...

encontrando apenas,
um areal
deserto e rochoso
muito longe do azul da alma …

deveria, antes de tudo,
ter tocado no coração
antes de sermos mar
um para o outro

alfaia de seda em meu corpo
 
Tão longe do mar

A mágoa não sabe escrever a despedida na palavra

 
 
agora sei
que é o fim

sente-se a calçada molhada
os pés chorando

o frio novo
no lugar da alma

pensei que o fim
seria como nos filmes
o sempre colava-se á felicidade
em vez disso
um vazio
indefinido
tomou a lágrima
e a engravidou
um milhão de vezes
nas pálpebras
depois
do teu rasgar
de amor
 
A mágoa não sabe escrever a despedida na palavra

Crescerá…

 
 
ela está de volta à estrada
com o cachecol na mão
e no peito
o verão
nimboso

saiu da arena
lá de casa
chateada
com ausência
de árbitros
nas batalhas

ai aquela mulher
esteve de luto
na fantasia das festas
antes e depois das brigas

mesmo quando dizia sim
[ao monólogo dos afetos]
ele desconfiava ser um “não”
e um dia disse “não”
e quase ficou enterrada
com o caixão ainda na fábrica

ai mulher
não voltes
não vires cara
segue a liberdade
das asas

regressar
significaria
abortares
a esperança
recém-nascida
chamada de Felicidade
 
Crescerá…

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