Tudo poderia ser diferente
dos amores perdidos
das saudades achadas
do corpo envelhecido
das palavras gastas
existe uma esperança
a forçar a entrada
numa alma trancada
enferrujada pela oxidação do amor e das pálpebras …
um amor …
abandonado no chão vermelho de um peito
amputado
depois de um abraço negado …
pelos teus abraços …
meu Deus !
e se e o tal abraço não fosse negado?
e se o “ amo-te “ fosse mais audível?
e se a coragem fosse mais persistente?
e se a mágoa se transformasse em saudade insistente ?
E se...
meu Deus!
se o teu amor viesse hoje, teria a força de erguer o mundo para o proteger
…assim …
apenas consigo me arrastar com o andarilho …
e ser parte desinteressante
de um cenário
onde o tempo
contracena com o silêncio desumano ….
O céu sempre foi o nosso lar
fragilizado com as lágrimas alheias
desmoronou a emoção
nos ombros mais próximos
com a voz embargada
pediu aos olhos parecidos
uma pausa
na descida
acentuada
das vagas
aquele menino
ainda não sabe
que as janelas
da face
deixam
trespassar
o mar
quando o coração
cresce
tocado
pela saudade
de quem parte
A tristeza chega como as marés
o cinzento turvo do íntimo
estranha a espuma branca
nos pés
fica espantado
com o vulto
azulado
do mar
com receio,
se enrola em lágrima
e se desfaz
Retratos sem Alma
ser pescadora de ilusões
é espremer o coração
num poema
com as esperanças
que as palavras
sejam traineiras
cheias de estrelas
em direção ao teu olhar
no fim
o vazio
chega
com a última frase
com a última pontuação
por dar
como diria antes de te conhecer
na alma dos poetas
cabe todas as paisagens incompletas
uma frase divorciada da realidade
ainda guardo cá dentro
um areal molhado
e um lugar vago
ao meu lado
com o teu nome
Quase abraço
a pele ganhou as perfeições da tua
num leve roçar de mãos
imagino como seria
se a pele do coração,
se soldasse num abraço…
talvez o silêncio partilhado
tivesse a tonalidade do mar e a sonoridade de uma canção
talvez o azul do céu
escorresse em nossos ombros …
talvez os sonhos
se tornassem pequenos…
para sempre pequenos …
Tão longe do mar
ele diz que morreu na praia …
tocou-me na canela despida
não ultrapassando a bainha da saia...
encontrando apenas,
um areal
deserto e rochoso
muito longe do azul da alma …
deveria, antes de tudo,
ter tocado no coração
antes de sermos mar
um para o outro
alfaia de seda em meu corpo
A mágoa não sabe escrever a despedida na palavra
agora sei
que é o fim
sente-se a calçada molhada
os pés chorando
o frio novo
no lugar da alma
pensei que o fim
seria como nos filmes
o sempre colava-se á felicidade
em vez disso
um vazio
indefinido
tomou a lágrima
e a engravidou
um milhão de vezes
nas pálpebras
depois
do teu rasgar
de amor
Crescerá…
ela está de volta à estrada
com o cachecol na mão
e no peito
o verão
nimboso
saiu da arena
lá de casa
chateada
com ausência
de árbitros
nas batalhas
ai aquela mulher
esteve de luto
na fantasia das festas
antes e depois das brigas
mesmo quando dizia sim
[ao monólogo dos afetos]
ele desconfiava ser um “não”
e um dia disse “não”
e quase ficou enterrada
com o caixão ainda na fábrica
ai mulher
não voltes
não vires cara
segue a liberdade
das asas
regressar
significaria
abortares
a esperança
recém-nascida
chamada de Felicidade