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Poemas, frases e mensagens de evelina

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de evelina

Ao fundo, uma parede em branco

 
Penteavas-me a trança
e metade de mim a ser
a parede em branco
ao fundo dos meus passos vagarosos.

Caminhava para trás
os braços despidos de folhas

estendidos para dentro
dos teus olhos a dizerem vai

que é frágil
e débil
a luz que sobra.

E eu a atravessar a rua antiga
e eu a ser
correndo
a outra metade de mim.
 
Ao fundo, uma parede em branco

Esboço

 
Nas mãos
só os ventos repetidos
e um céu de pensamentos
filtrado pelas cortinas.
No chão
o sol da manhã
gasto
e o foco em quadros mudos
dispostos em queda.
Os passos
repisados
enquanto espero
e o tempo nem repara.
Nos olhos
o apelo líquido de um silêncio
curvado sobre a mesa
à procura de uma árvore
carregada de sonhos
dentro de um ramo a envelhecer.
 
Esboço

O outro lado de abril

 
... e nestas manhãs frescas
de abril
entro num tempo de horas limpas
e no entanto os meus olhos
a gemerem palavras salgadas
atravessadas de silêncios
os meus olhos
num tempo a fugir de mim
cercados de vozes que morrem para além de outras horas
os meus olhos
enterrados na chuva de onde as memórias caem.
 
O outro lado de abril

Também os pássaros acabam por não voltar

 
Já todos saíram
a pretexto e em contexto
fiquei eu só com as paredes
cobertas de memórias a retalho
e os ponteiros de um relógio a engolir o tempo.
Fecho a porta da rua
e esqueço a migração dos pássaros
e a narrativa da luz da manhã na minha pele.
 
Também os pássaros acabam por não voltar

Ilusória é a sílaba que flutua

 
Fechamos os olhos e
entregamo-nos à transformação da palavra
alquimia
luz imensa de substância pura.

Escutamos a sabedoria do mundo
somos corpo na justeza do gesto
ou então imagens dispersas
promontórios que atravessam a noite
escura.

Percursos às vezes partilhados
na imensidão das horas
na penumbra já tardia.

Ilusória é a sílaba que flutua
abstrata sensação de abismo
sem verbo e sem forma exposta à fluidez
do (en)canto.
 
Ilusória é a sílaba que flutua

Sopro

 
Há um cansaço líquido a pesar
nos ramos das árvores. De dentro dos muros
uma voz de ave acena segredos
guardados nas pontas dos dedos.

Não sei se foi um sopro
pressentido por mero acaso
ou erro humano.

Talvez um vazio profundo
a passear rumores noturnos
ou apenas a vontade de estender
as mãos para além do corpo.

Ou um silêncio sem rosto
paradoxo de sílabas baloiçando memórias
a escrever o presente
num calendário qualquer.
 
Sopro

Hoje, somos um

 
Segues agora por dentro de um sonho de cal
a deslizar-te na pele, como a luz de uma
manhã de bem-me-queres
que fosse só tua.

Atravessa-te um tempo quase maduro
nascido de minúsculas flores que fixas,
uma a uma, num chão de palavras d’água,
murmúrios de silêncio e solidão.

Às vezes, somos dois, em olhares
de monossílabos ou cortantes arestas
de um plano desfocado onde enquadras
as lembranças.

Hoje, somos um, na infindável repetição
do take one de um filme rasgado pelo guião
em pedaços mil,
ou no retorno a um dimensão temporal
circular e inquebrável.
 
Hoje, somos um

Por uma vírgula

 
Suspender o tempo na vírgula
que quebrava o espaço.

Tomar a asa de fogo
incêndio do pensamento

saber-te sonho
mar que me fosse cais
um punhado de terra que me fosse chão.

Em silêncio calaria a vírgula sem rosto
que separava o tempo.
A circunscrever o lado
mais aceso das reticências...

E as vozes alarmadas do vento
a galgarem as margens

como náufragos a revestirem o tempo
de bebedeiras que
morriam.
 
Por uma vírgula

O silêncio das árvores

 
Procuro-te
como se não houvesse medos
movo-me
entre ramos debruados por um tempo
que retenho
dentro de um lugar
sem tempo.

Desfaço-me
espiral de cinzas
pedaços que sobraram de um sonho
a arder
numa tela. A memória
a desenhar os rostos
a vida
suspensa
nos lábios do vento.

Caem sombras
a meus pés
desprende-se o grito
a desilusão
por detrás do espelho.

E no vazio que emerge
de um tempo incompleto
olho-me
decifro-te
na solidão do verso
a esmagar o mito.

E o rio a escorregar
exangue
em degraus de mármore
e o céu a ser invisível
a tombar
pôr do sol e mar
sobre o silêncio das árvores.
 
O silêncio das árvores

Em letra pequena

 
Aprender a duração da tarde
sem que no vento
se suspendam as palavras.

Reconstruir o espelho
e
no alvoroço da espera

entrar por dentro do infinito
e recolher no tempo
as rosas prometidas.

As rosas prometidas.

Desfolhadas em sílabas
divididas em hemisférios
de neve e lava.

Uma história a nascer.

Ainda sem um ramo de mar
ou uma rua respirável.

Em letra pequena
mas com cheiros de planície.

E os rostos facetados
do silêncio e da nostalgia.

A escutar as vozes do indecifrável
a cerrar lentamente a luz
que se verte dos olhos

como um rio que não correu.
 
Em letra pequena

Talvez os melros cantem durante a madrugada

 
Os olhos estão pequeninos
pequeninos
vislumbram cada dia menos.

Talvez os melros cantem durante a madrugada
agora
a sossegarem a insónia.

Mas existem as rosas
e a terra para mexer.

A lentidão é uma dádiva
e o resto alinha-se
enquanto o silêncio se rende ao olhar.
 
Talvez os melros cantem durante a madrugada

... e a voz acomoda-se

 
Tudo é passageiro
sei que já devia ter olhado o relógio.

Tento enganar o tempo e invento palavras
letra por letra
num diálogo a transitar entre
o sangue e o nevoeiro.

Há os dias que rasgam a memória
e as mãos procuram significados.

Mas os pontos de partida não têm
princípio nem fim
levam a lado nenhum.

Queria arrumar a mágoa num abraço
finjo que está tudo bem
não tenho para onde ir.
 
... e a voz acomoda-se

Quando a cor avermelhou a madrugada

 
Eras o tempo em que guardei todas as chaves
dos segredos que nos sabiam dentro,
como quem entrega o chão e confia o corpo
à linha azul que dos teus olhos partia

e me era leito,
e rio,

de abrigo, o porto.

Mas quando a cor avermelhou a madrugada
e o sopro dos teus lábios tocou os meus cabelos,
de abril seria a flor que então murchou.

Ao arrepio do tempo,
a dor,
o lamento,

a utopia,
a raiz sonhada.
 
Quando a cor avermelhou a madrugada

Eu tinha palavras no interior dos meus olhos

 
Eu tinha palavras
no interior dos meus olhos mas
caminhava para dentro de mim
porque cegava-me
o enviesado da tua voz e as sombras
a caírem das tuas mãos sem lugar.
 
Eu tinha palavras no interior dos meus olhos

Des.aconchego

 
Chove muito por aqui
as janelas estão fechadas
os vidros embaciados encobrem o odor do verão
em parte incerta
junto a mim concentram-se os risos e os choros
e o íntimo silêncio queima
neste caminho que não é o meu.
 
Des.aconchego

... a espaços

 
às vezes sobram-me espaços
entre a voz e o interior da luz

o corpo
indizível
entre musgos e espigas
e as mãos
imóveis
caídas ao longo do sonho

depois
a entrada do olhar
na anestesia dos rios

e a nudez da memória

em queda

cativa da noite
e das marés do tempo áspero

singrando esperas
no silêncio das aves.
 
... a espaços

Retrovisor

 

Ajeito o espelho e deixo
que o tempo se desdobre em paisagens e destinos
até onde o olhar me sobra.

Dilui-se na lonjura o arvoredo
e é quase vã a esperança de encontrar
a margem da planura
onde
por esta altura
profundo e quente o silêncio cantaria.

Subtraio ao chão que piso o pensamento
e neste viajar entre espaços imprecisos
e pedaços de incertezas peregrinas
deslizo os dedos pela luz das madrugadas
ou memórias rendilhadas de charneca e de neblinas.

Ajeito o espelho. O gesto é vagaroso e delicado
a consertar as horas
peça a peça
a (re)ajustar o tempo
que recomeça.

E é neste pó de verão que
hoje
eu prossigo a caminhada.
 
Retrovisor

Redenção

 
Por vezes reaprende-se o silêncio
nos caminhos por onde cruzamos o tempo.
Escutamo-nos.
Já nem sabemos bem
as razões por que ficamos nem importam
se estão vazias as estradas
por onde caminhamos.
Escutamos as palavras que não estão
ao nosso alcance.
Manhã
barco
espanto.
O relógio olha os dias
a resistirem ao apelo da noite.
Os lugares são ermos
e as distâncias atravessam o olhar dos homens
que não avistam o horizonte.
 
Redenção

Poema em branco

 
Espero-te no limite

da brevidade. Porque “em breve”

é um espaço vago e os olhos

resvalam para o tempo húmido

que se projeta da raiz das nuvens.

Breve foi a vertigem que atravessou

o mistério da luz.

Saboreei a profundidade do vento

a cadência da manhã por dentro das árvores

[ os frutos ainda por amadurar ]

Tombaram as folhas

arrastadas pelas águas que correram

ao invés. Esboços de todas as ilusões.

Traços rasurados na penumbra

da pedra. A deslizar rente à parede

em branco

à procura de uma porta

que a viesse buscar.
 
Poema em branco

Ser corpo e lugar

 
Os violinos da tarde a gemerem
um tempo líquido
transparência verde
e infinita
lugar levíssimo a permanecer dentro da pele.

Como um eco sentado à beira
das águas que correm
voltar a ser espiral
de palavras antigas num coração de memórias
onde cabemos corpo.

Reter a dimensão do silêncio na placidez
do olhar
sem procurar as incertezas
da voz
ou a exaustão da luz
nos pássaros do poema.
 
Ser corpo e lugar

"Fizeste da tua vida
Uma catedral abandonada
Horas esquecidas
Em adoração nocturna
Pedindo silêncio
A tudo o que perdeste."

Luís Falcão, in "Pétalas negras ardem nos teus olhos"