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Poemas, frases e mensagens de WesMic

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de WesMic

Goethe dizia: "A juventude é a embriaguez sem vinho". Pois que veio desta transpiração alcoólica a necessidade de escrever. E por isso escrevo. Escrever é necessário, e agradar-lhes, se possível, uma satisfação.

Rosas negras

 
deito-me esta noite
sobre meu travesseiro
de rosas negras

cubro-me esta noite
com o manto de remendos
que fiz de mim mesmo

desfaço-me esta noite
em sonhos e delírios
num desvario alucinado

disfarço esta noite
de quem?
de quem?

sangro esta noite
sobre meu travesseiro
de rosas negras

agonizo esta noite
com o manto de remendos
que fiz de mim mesmo

vela-me esta noite
em sonhos e delírios
num desvario alucinado

vieste esta noite
de quem?
de quem?
 
Rosas negras

Domingo branco

 
O domingo é um dia todo branco,
posto que o branco sendo todas cores
já não é cor alguma: é abstração
e silêncio; a cor branca é a não cor.

E a anticor preenche a atmosfera
para liquefazê-la à densidade
do Mar Morto; boiamos neste dia
que é um não dia - um dia de domingo.

Branco é o dia sem motivo e imóbil
e brancas são as coisas sem conceito.
O branco não possui pretexto e nem

desígnio, mas ainda assim são brancas
as rochas que esteam os templos gregos;
um branco que é puro, abstrato e absoluto.
 
Domingo branco

Anos de areia

 
Quando as horas passam frias
Na noite eterna do deserto
Com o anjo da morte, à espreita, perto;
Comigo apenas a oração, o jejum e o terror;
Meu corpo todo treme em agonia.
Por 40 dias e 40 noites
O demônio e seu azorrague para o açoite;
Mas eu nunca temi a dor.

O sol da incerteza que me abrasa
E o vento que soergue a poeira
E me cega; meu corpo coberto de areia
Arde nas feridas e sangue de meu dorso;
Mas eu nunca temi a chaga.
Por 40 noites e 40 dias
O demônio com seu azorrague me cingia;
Mas eu permaneci introrso.

Purificai, sal da imortalidade,
O espírito impuro com o Espírito;
Com o Amor, o meu pobre coração aflito;
E dai aos meus lábios a graça dum fulgor,
Para que saibam d'A Eternidade!
Por 40 dias e 40 noites
O demônio e seu azorrague para o açoite;
Mas eu conheci O Amor.
 
Anos de areia

Rosas da boca dela

 
"Eu sinto algo especial em lugar qualquer,
N'outro que não seja este no qual eu me encontro"
Disse ela em tom agreste: grave, calmo e rouco.
Dúvidas e questões, de tão comuns, sequer
Fizeram-se especiais aos olhos de outros.

Não suportando mais a si mesma, expulsou
Sua unicidade toda em um acesso
Extremo de singularidade, confesso
Nas rosas de sua boca. Se condensou
No sangue pulmonar nos ladrilhos expresso.

Os espinhos, rasgando a garganta, armaram
Caminho na sansara floral; lograram,
No corpo dela, as marcas negadas do fim.
Fatais, as rosas da boca dela formaram
A estranha ponte entre uma flor e um jardim.
 
Rosas da boca dela

Ode à palavra

 
Lavrai a palavra
como quem prepara o chão,
que de sementes germina
o trigo,
do qual vem o pão,
que é palavra
de água, sal e grão.

Assim, nossa palavra,
sovada como o pão,
tanto humana
será
que, quando palavrão,
mostrar-se-á
tal qual é:
um anjo

de espada na mão.
 
Ode à palavra

Na areia

 
Desenhei, sobre a areia do passado,
Seu leve rosto, rindo para a praia.
Mas sopraram contra ventos grisalhos;
Lavou-o, lacrimoso, o mar calado,
Envolvendo-o em lençol de cambraia.

Ali, sentado ao lado de sua alma,
Soltando a sua mão, vi-a fugir.
A procurei, sem mais acreditá-la,
Sem esperanças, sem sua forma alva,
Sem ti ou guia. Apenas eu, a vagir.

Calei-me, sem esperar que voltasse...
Sozinha, naquela praia isolada,
Restou a lembrança de sua face...
Pedi que ela a si mesma se guardasse,
Como um naufrágio sobre a areia vaga.
 
Na areia

Cruz peregrina

 
Abaixo do Pai do céu
Levanta o amargo véu
De sua noiva Pobreza.
Renuncia deste mundo
Para em mistérios profundos
D'outro ter da realeza.

Fez do sol su' irmandade
E buscou na castidade
A pureza do que é belo.
Sob a lua, em redenção,
Orou, na observação
Das palavras do Evangelho.

Nas pedras fez seu segredo;
Tomou, da Cruz, o seu Credo
E, de Cristo, a imitação.
Rebaixou-se ao que é o Homem,
Levando, aonde ele fosse,
Oração a todo irmão;

"Ao irmão sol e irmã lua,
Pois são, todos, criaturas
Do Deus-Pai universal."
Com seus pés nus caminhou
Até onde suportou,
Convertendo rocha em sal.

Mas como o Amor não lhe coube
Apenas no peito, soube
O Pai medir sua fé.
Lançou fogo em seu pulmão,
Abriu-lhe chagas nas mãos
E também em seus pés.

Francisco - A cruz peregrina!
Mesmo cego das retinas
Viu Deus em seu esplendor.
Anjo seráfico, santo!
Carregou no peito o encanto
De Jesus e Seu Amor.

Francisco - pobre de Assis!
Vislumbrou cada matiz
Da Luz, desde a conversão.
Embaixo das almas claras
E nos braços da Irmã Clara,
Atingiu a perfeição!
 
Cruz peregrina

S.

 
É triste ver as coisas como estão
e nem saber se um dia foram boas.
Em qual vento outonal a tua folha
embalou-se e perdeu-se-me das mãos?

Eu que nunca procurei-te, e entretanto
encontrou-me de colo limpo e braços
desprendidos; agora, nem um lasso
beijo de teus olhos toca-me os cantos.

Nunca fôra o sossêgo nossa alçada,
eu sei, tampouco nossa sorte o abrigo;
só resta-me, por ora, olhar o nada

que me outorgaste e meditar, sozinho:
agora que te encontras sepultada,
eu preferia estar no teu jazigo.
 
S.

Vampirismo

 
No princípio era o Verbo, e Este fez o princípio.
Criou, do barro, o Homem e neste Se alegrou.
No alto fez Seu descanso, habitando no Olimpo.
Porém, insatisfeito, o Homem se recriou:
Desbotou-se da argila erma da existência;
Reduziu-se a um ímpio projeto de ausência.
Pela menoridade, este se rebelou.

E na sua vontade em fazer-se Deus
O proto-homem escalou, às garras, o Monte.
Subordinado às ânsias de deuses ateus,
O andrógino pôs Zeus co'a face em sua fronte.
Ditou a aspiração - eis qual sua arbitragem:
-Mortal! Você não é um Deus nesta paragem!
O proto-homem caiu à desgraça do afronte.

E retalhado ao meio, entregue ao rés-do-chão,
Viu-se, o Homem, mutilado em toda sua hombridade.
Condenado por sua auto-valoração,
Afogou-se em recalque, insolência e vaidade;
Lúgubre catatônica esquizofrenia.
A densidade existencial o agonia;
Descobre-se como o Homem pela Metade.

Apartado do espírito, o Homem angustia,
Estertorando a carne em corpo desalmado
E carente em pecado; o Homem não se sentia:
Pelo materialismo cego é arrastado.
Vem com a modernidade, num bojo imundo,
A sentença final, coroando o homúnculo:
Positivista ciência o reparte em dois lados.

Agora, um quarto do homem original,
Ele se entrega ao Mundo, com paixão e zelo.
Passando de político a mero animal,
Dá-se todo aos vampiros - saciam o apelo.
Homens vampirizados, homens quartejados:
Ser humano, inumano, imundo, desalmado...
E todo homem-vampiro não se vê no espelho.
 
Vampirismo

Antiquário

 
Vidas vistas de fora, que se calam,
Inertes num retrato, numa pedra.
Vidas vistas de fora, que resvalam
Das bocas do jantar; pratos que falam
Na morte que a risada viva gera.

Vidas resguardadas em velhos traumas,
Esquecidas em lugar que não se ouça.
Tolos, frustrados, lamentam às almas;
Mortas, frustradas, lamentam as almas,
Secretas em pratarias e louças.

Esquecidas, as almas, que lembram
Palavras inúteis num dicionário.
Almas mortas, secretas, desvendam
Palavras mornas, discretas; tentam
Salvar-se das palavras... do antiquário.
 
Antiquário

Mocidade

 
A juventude morre nos sentidos nossos,
Sepultando-nos risos, sonhos e sabores.
Nos forjamos nós mesmos, com os nossos troços,
Aos nossos anos uma coroa de flores.

A "tempestade e ímpeto"! Ah, que nada...
Goethe pecou no retrato de seu Werther;
Pois que a juventude é uma época errada
Para traçarmos nossos planos numa reta.

Anos passaram e o que foi a adolescência?
Tão só uma pequena perda de inocência.
A mocidade é a vaca tetuda do harém.

Calçarei meus sapatos e andarei nos trilhos,
Deitado e de arrasto: pagarei meu encilho
Ou morrerei, atropelado por um trem.
 
Mocidade

Às mulheres, pelo vosso dia (e todos os restantes)

 
As paredes frias dos palácios,
com toda a sua pretensa imponência,
são meros débeis ensaios lassos
da vossa majestosa existência.

Pintura, poesia e toda Arte
é mera mímica e imitação
do perfeito e acurado arremate
que Deus fez à vossa criação.

Mulher! De modo que a natureza
emoldura a nossa realidade,
o vosso gênio e vossa beleza
emolduram a humanidade:

sustentais a Vida em vosso ventre,
ao que conservais em vosso peito;
sem vós, seria a vida deprimente
e todo suspiro um negro leito!
 
Às mulheres, pelo vosso dia (e todos os restantes)

A Olavo de Carvalho

 
Onírica é tua natureza, morte:
levas o corpo, somente, e nele tens teu fim;
a tua sina é que incólume
vigora a memória,
oposta ao jardim

das aflições
extravagante da tua filosofia.

Cabe ao Espírito
a vitória sobre tua sombra,
reconduzindo o filho,
vítima da tua sonda,
ao regaço do Pai,
lugar privilegiado de todo
homem que honrou os seus talentos:
ousadia dos pequenos.
 
A Olavo de Carvalho

Eu sei como sentiu-se Joanna D'Arc

 
Eu sei como sentiu-se Joanna D'Arc
quando o vulto da febre amiga dos amados
flameou cálidas rosas acres
em seu corpo, tal fosse
uma parede de beijos registrados
de machucada pose.

O lume que exarara as santas marcas
difere o meu no algoz: se lá Inquisição,
cá fazes tu as minhas chagas,
me ardendo teu receio
na fogueira que inflama o coração
abrasado em meu seio.

Caso acuses a mim por heresia,
mostrar-te-ei minhas feridas, pra que não aches
ser o fogo algum sofisma
e saibas certa, pois,
que eu sei como sentiu-se Joanna D'Arc
e o sinto por nós dois.
 
Eu sei como sentiu-se Joanna D'Arc

Peregrino

 
Cortando as nódoas brancas do porvir...
Rompendo o azul opaco desse céu...
Alça o vôo Nero-falcão vizir,
Pondo em chamas brumoso e vasto véu!

Alma em fogo, sedenta de infinito,
Num mundo de visões o vôo abrindo...
Qual uivoso vento em morro curtido
Entre as nuvens de Deus passa rindo!

"O sol da glória que purificou-me
A argila da existência desbotou-me!"
Faz ele Cruzada à posteridade:

Falcão-peregrino subindo o monte
Em estrada sagrada, aonde encontre
A pira intensa da Eternidade!
 
Peregrino

Sobre o que escrever

 
E agora, José?
Sobre o que escrever?
Se até sobre "e agora,
José? Sobre o que
Escrever" já foi
Poema de alguém.

Talvez se eu citar
Algum bom poeta
Cause uma impressão
De que eu também sei
Versar um poema
Menor redondilha.

Mas talvez alguém
Venha reclamar
Que isto é plágio,
Que sou criminoso
E não sei pensar
Com minha cabeça.

Deixarei Drummond
E o tal de José.
Mostrarei meu dom
Em rimar pés
Das sílabas com
Consonâncias reles.

Se bem que Fulano,
Por qualquer engano,
Dirá: "que antiquado
E como é quadrado
Teu redondo verso!
Pois sê mais moderno!"

Portanto, adeus rima!
Mas... qual novidade
Há no verso branco?
Tão ultrapassado
Como misturar
Palavras num saco.

Os dadas que o digam!
Mas, o que farei?
Talvez me ajude eu escrever um verso livre que quebre com o paradigma de que tudo que é novo é ruim e burrice ou de que tudo que é tradicional é retrógado e copiado.
Se bem que poesia contemporânea ninguém lê e hoje só publica livro quem faz plágio diferente e parece inteligente.
Pensando bem, publicar um livro seria bem legal para a minha vaidade: ter meu nome estampado nas capas de exemplares dos livros mofados na última prateleira da estante de alguma livraria qualquer para poder dizer para todo mundo que sou poeta bonitinho tipo o Bráulio Bessa e que colaboro com a cena e manutenção da literatura nacional.
Quem sabe eu apareceria declamando algum verso comemorativo em algum programa de televisão e ficaria em dia com a cultura e a família moderna brasileira, sem me queimar com ninguém. Mas este protesto já está
Ficando comprido,
Chato e cansativo!
Serei mais concreto.

Talvez ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤeu
ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤdeve
sse desis
ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤtir de
es cre ver
ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ poesiaedevesseapenas
brin
ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ car
ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤde
ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤligar
pontinhos ㅤㅤem
ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤqualquer
gibi
ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤ ㅤpor aí.
L ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ p
ㅤㅤㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤe ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ o
ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤㅤ ㅤ r ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤㅤ ㅤ e
ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ ㅤㅤ s
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Sobre o que escrever

Manifesto subtropicália

 
Paus, pedras e cipós erguem o monumento.
Sustentam-o vermelhaças massas de argila
E nivela-o a argamassa concebida
De água, areia e do cálcio extraído dos ossos
Fossilizados, constituíndo o cimento.
Enfeita-o o papel crepom, o ouro e os destroços
De cerâmica arqueológica. Impõe-se, enorme,
No centro de uma capoeira circunforme.

Arregalam-se, entre a moderna cabeleira
Da Medusa, os grandes olhos petreficados
Que vislumbram, sem ver, seu matiz predicado.
Aponta contra o norte seu nariz, que indica
De Pero Vaz de Caminha, à brasileira,
Os suspensos jardins da Amazônia. Deifica
Sua boca os painéis deste, sorrindo os verdes
Dentes - abre sua boca em flora perene.

Proclama bossa-nova por toda a garganta,
Enquanto enforcam-lhe as heras o seu pescoço.
Serpenteiam aos braços - meneando alvoroço
Entram-lhe as veias abertas, traçando o pulso.
Na barriga a jamanta estufa-se da janta:
Baião-de-dois, feijão, banana e ainda em curso
Uma criança nordestina. Traz no peito,
O monumento, uma rosa encolhida em leito.

Carregado e empunhado em mãos um bang-bang,
Sustentando nos seus ombros uma banheira
E uma bacia de concreto. À ponta-cabeça,
Abaixo da bacia, esconde-se uma chacina
E a banheira lava-se das águas do mangue:
O monumento nada tal fosse piscina,
Limpando-se do sangue. Empunha noutra mão
A primavera, ornada com plástico e cifrão.

Levando nas coxas o progresso, autentica
A eterna ordem. O arlequim é quem governa
O carnaval, orientando a eterna baderna.
Acordes dissonantes compõem o samba
De enredo com que o monumento reivindica.
Os joelhos destacam-se das pernas bambas
Pela sua firmeza e aridez fendida,
Assemelhando-se ao solo da caatinga.

Calca, presos aos pés, caminhões de sapatos,
À fim de expôr o monumento ao país todo.
As heras dão lugar a gravata e ao seu dorso
Adere-se um colete. Abotoa ao esterno
Sua fina camisa de linho e o olfato
Perfurma-lhe nobre. Apruma-se de um moderno
Terno: de vidro, costurado à parafuso,
Tecido bizarramente com o futuro.
 
Manifesto subtropicália

Perpétuo

 
Há de vir qualquer coisa a mais no bojo
Desta farra; um grito surdo, um gemido...
Corta a dança eterna das mariposas
Do meu quarto um desespero contido...
Meu quarto, em meu corpo, é meu próprio fojo;
A auto-preservação, minha esposa.
Minha cegueira perfeita... Cingido

Pelas tentações e algias desditas
De uma vida reclusa em mim próprio,
Sou digno do arsênico da justiça:
Sou meu matador!... no meu ermo sóbrio;
Nas abrasadas lembranças contritas;
Nas regeladas lembranças postiças...
Na expressão vazia de meu ódio.

Resta a brevidade de meus prazeres
Caprichosos, distrativos... momentos;
O meu pequenino troféu da sorte.
Rendido à fugacidade, eu ostento,
Às multifaces, todos meus lazeres:
A destemperança e o medo da morte
Que escrevo nos muros do isolamento.
 
Perpétuo

Disforme rito de passagem bulímico

 
Velas tremidas e oferendas escarnecem
A fôrma, nebulam semitons e destoam
A forma; oblíquos espelhos nos hiatos tecem
Fossários, onde os pratos disformes ecoam.

Porém, ao triste cético, não se revela,
E como um pagão sem deuses, tão só lhe resta
Consumir-se às sombras de sua própria estela,
Regurgitando toda sua oura indigesta.

É quando as nódoas da vida lhe surgem roucas
E as valas da mão morte lhe berram; treslouca!
Transpiram seu invólucro de insensatez.

A reforma da fôrma foi um grito ao mouco;
Mesmo a contrarreforma da forma tampouco
Lavou o sangue já mirrado em sua tez.
 
Disforme rito de passagem bulímico

O abade

 
Quando o Santo chamou-me prum jantar,
Preparei o banquete mais bonito.
Pus na mesa saladas a contar,
Vários tipos de carne e um manjar
De sobremesa; tudo pro Bendito.

Conforme ia chegando a hora marcada
Três figuras estranhas surgiram.
Foi delas a primeira a mais levada,
Uma criança de rua, abandonada,
Das que pedem esmola e mendigam.

Bateu-me à porta pedindo comida
De olhar mareado e a barriga roncando.
— Hoje não posso, tenho uma visita
Importante, que me é muito querida!
Dei-lhe adeus com a porta se fechando.

Pouco tempo passou e ouvi batendo
Na minha porta já algum outro alguém.
Ao abrir era um mendigo gemendo
De fome e frio; com os dentes rangendo
Disse:— Não há comida pra ninguém!

Fecho a porta e ela bate a terça vez.
Muito irritado eu grito:— Já falei
Que aqui não tem comida! Tu não vês
Que me perturba? Sê mais cortês!
A porta então parou e eu me calei.

Ceiei aquele banquete sozinho
Pois não veio o Santo me visitar;
Sozinho servi-me de pão e vinho.
Tomei a decisão de ir ao caminho
Do Santo noutro dia e perguntar.

Encontrando-o perguntei:— Santidade,
Por que não veio ontem à minha porta?
Disse ele:— Mas fui três vezes, abade.
Duas vezes rejeitou-me piedade
E na terceira nem abriu-me a porta.
 
O abade