Poemas, frases e mensagens de Amahnaiara

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Amahnaiara

Carta dobrada dentro de um livro

 
Entre o silencio de páginas, deixo-te isto:

Admiro a lealdade que a lua tem com a noite,
assim como o sol com o dia.
Eles não disputam presença,
não competem por luz,
não se atropelam nos céus.
Cada um respeita o tempo do outro
com a nobreza dos que
sabem ser inteiros sozinhos.
E, ainda assim, quando se encontram,
o mundo se posiciona para olhar,
não por escândalo, por beleza.
Gostaria que todos os laços fossem assim:
respeitosos como o céu, fiéis ao próprio ciclo,
gentis ao se tocarem e generosos ao se afastarem.
Se um dia nos tornamos sol e lua,
que saibamos iluminar sem queimar
e desaparecer sem ferir.

Com ternura, deixo-te esta luz dobrada entre palavras
 
Carta dobrada dentro de um livro

gêmeas

 
É quase sábado,
entre nuvens inchadas
uma estrela
brilha solidão.

Na janela
sem nuvens, pinga
o reflexo.
 
gêmeas

Sob sol a pino

 
Preciso de um tempo iluminado
por sol a pino,
em que a sombra não alcance
os pequenos passos da liberdade

Um tempo sem margens,
com sede de tudo,
que corre só porque o corpo quer;
sem fardos
sem metas
sem destino.
Que o mundo permita
apenas a luz e o chão quente
da inocência

Um tempo onde o coração
é tambor de alegria
e o suor tem gosto de
descoberta.
 
Sob sol a pino

Sangue verde

 
No chão de cicatrizes o vento varre flores. Sigo rastro de pétalas que não dão afeto pro caminho. Sinto a saudade do vento verde e meus pés desnudos lembram tristes da sombra dos Ipês refrescando o destino
com promessas de raízes e sementes.
Sem destino vou, que meus pés não querem parar. Não enquanto o céu espalhar no ar o canto do sabiá. Sabiá que voa livre, pousando de rama em rama. Terra aonde a seiva escorre doce das mãos do homem que ama.

Amanayara

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Sangue verde

Sonata de fim de tarde

 
Um pássaro quis emoldurar-se pelo sol; lá ficou por alguns segundos a se fazer tatuagem... depois fugiu em queda livre, para se embrenhar em folhagens.

A tocha vermelha, por mais alguns segundos, agarrou-se no céu, até cair sem forças para o abismo de onde nascem os dias. Estremeci ao presenciar o desmaio como se minha alma também tivesse esmaecido... mas não! Fez questão de se manter forte permitindo que o silencio fizesse a revisão do que não foi acolhido para a sisudez do dia.
Lembrei da indumentária que não se perfilou séria como a ocasião exigia e da boca indiscreta revelando mais dentes do que devia, e, para deixar o dia um pouquinho enlouquecido, deixou escapar, sorrateiro pelos cantos, um canto afluente para se derramar como cachoeira.
Preparação de precipício para a noite escolher se irá mergulhar ou levitar e o que ela decidir estarei dentro, seja para acomodar ou vibrar como as cordas de um violino.
 
Sonata de fim de tarde

Vilarejo

 
O vilarejo da juventude sonha como quem respira, sem perceber, sem pedir licença.
Ali, tudo parece nascer de um sopro: o cheiro de padaria quente, a poeira dourada que dança no ar, o rumor das manhãs que se abrem como um livro antigo.
Os jovens caminham pelas ruas estreitas com a alma acesa. Carregam nos bolsos pequenas centelhas: um desejo que ainda não tem forma, uma coragem que mal aprenderam a nomear, um brilho que insiste mesmo quando o mundo parece grande demais.
As janelas, sempre entreabertas, deixam escapar murmúrios de futuro.
E cada casa, com suas paredes gastas, guarda um segredo: sabe que aqueles passos inquietos não ficarão ali para sempre, mas, ainda assim acolhe, como quem segura água nas mãos só pelo prazer de sentir o frescor.
As tardes chegam com uma luz que parece inventada.
Os meninos sobem nos telhados para ver o horizonte, não porque esperam algo, mas porque pressentem e as meninas trançam histórias no vento, e o vento, vaidoso, leva cada palavra para longe, como se quisesse espalhar aquele sonho pelo mundo inteiro.
No vilarejo, até o silêncio tem música.
É um silêncio que pulsa, que promete, que guarda o instante antes do voo.
E a juventude, inquieta e luminosa, cresce dentro dele como uma chama que não se apaga.
Porque ali, naquele pequeno lugar que cabe na palma da memória, o sonho não é fuga, é raiz.
E cada jovem, ao partir, leva consigo um pedaço de céu que aprendeu a inventar.
 
Vilarejo

Caminhos não prescritos

 
A lembrança chegou tão sutil quanto
o sol filtrando entre as folhas.
Tão profunda quanto a ausência que nunca
deixou de ser presença, chegou quase como
um sussurro do tempo, reavivando um
caminho
de curvas e chão amarelo.
Uma pintura feita somente para nós...
As cercas brancas agora revelam-se molduras
intactas da memória. Cercam não a terra,
mas os afetos.
Ele dizia pouco com os lábios, mas o olhar, sob
a sombra do chapéu falava sobre abraços,
água fresca e sorrisos sem fronteiras. Seu
passo lento ensinava: não se corre por entre
coisas eternas, porque ali, entre o pó e o suor
o mundo não tinha pressa; o vento respeitava
o silêncio e os pássaros fatiavam o ar sem murmúrios...
Os cantos poderiam espantar a
delicadeza do instante.
Este lugar ainda existe dentro de mim, onde
o tempo é feito de saudade boa e os avôs
nunca partem por completo.
 
Caminhos não prescritos

Reiteração

 
Gosto quando o pensamento se desprende do momento
e foge para um pedaço do passado.
No rápido regresso
inalo o cheiro do pomar e de castanhas assadas embrenhado nas tardes descompromissadas
da infância.
Não há demora para a alma abocanhar os sabores; a mão do presente é agarre firme em trazer a mente de volta, o que não me revolta. Sempre que posso, reitero o voo. Sei que a liberdade é feita de minutos, como a da folha que se desgarra da árvore para um breve momento no dorso do vento, para, enfim, cair, e ser crocante na realidade do chão.
 
Reiteração

plenitude

 
Minha alma ofertou-se ao amor
com a febre de um corpo em cio.
Não havia nome
Não havia gestos
Apenas o traço tremulo
do ardor.

Quando o sagrado e o profano
dissolveram-se
a fímbria espelhou-se
levando-me à dúvida
se o que me queimava
era carne ou era deus.
 
plenitude

Os lenços são asas de gaivotas

 
Tão branca quanto o silêncio
que paira depois do que despede-se,
a dança das gaivotas acalenta o cais.

Deslizam coreografias que o mar escreve.
Riscam mapas invisíveis no céu.
Elas dançam como quem sabe que tudo é breve.
Que o voo mais belo precisa terminar em
algum pouso esquecido.

As gaivotas dançam leves e soltas, mas
os olhos...
os olhos carregam sal.

Talvez, ao vê-las, o porto chore
sem que o mar perceba.

Porque a dança das gaivotas é o lamento mais
elegante da partida.

É o corpo da liberdade com a alma
ainda presa no cais.

Um sonho nem sempre cresce no lugar onde nasceu.
 
Os lenços são asas de gaivotas

(Des)esperar

 
Então ela teve a ideia de esperar pelo amor,
e o tempo veio sem asas de beija-flor mas
derramando-se vermelho de cheiro de
chuva de verão e azul sussurrante em
gosto de silencio e alguns verdes para
dançar nas bordas da consciência.
Os minutos escorriam pelo chão, subiam
pelas paredes enquanto ela caminhava
sobre eles como quem desliza em nuvens,
enquanto o mundo inteiro vibrava na palma
da mão.
Quando notas musicais chegavam em
"ondulância" ela abria os olhos, quem
sabe não seria o amor num convite
para dança? Mas eram apenas chamas azuis
tocando-lhe a pele, murmurando memórias
que nunca existiram, dentro de melodias
que somente o coração podia decifrar.
Refletia-se no espelho e a infinidade de si
era simultaneamente dança e oração e o
tempo, sem asas, curvava-se curioso,
como quem descobre um segredo antigo
do universo.
Ela aprendeu a sorrir para sombras que
flutuavam, a abraçar pássaros diluídos em luz.
Ao ouvir o que o vento contava em corpo
com cheiro de laranja e tempestade,
percebeu que esperar pelo amor não era
sofrer, mas mergulhar em sonhos onde
tudo podia ser sentido, onde tudo podia ser amado...
Mesmo aquilo que nunca chegaria.
 
(Des)esperar

A sombra dos devaneios

 
Entre as sombras imprimidas no chão da
tarde, eis a minha inquieta, no vai e vem
desesperando.
Sim, porque há desconfiança em mim deste
tempo que faz a vida chorar, sorrindo!
Abrem-se flores e o sol doura o chão. O
céu mostra-se como um tapete de
nuvens. Mas tudo é veneno doce! Do meio do
que regozija sempre surge a mão que aperta
a garganta até embaçar os olhos e a dor
beber alegria!
O que não é falso, no tempo, é fantasia!
E eu, que nem eu, pra mim, sou verdade, como aqueles muitos parecidos
que pensam que são a energia essencial
para a rotação do chão mas, no vento mais veloz,
são os primeiros que vão
desconhecendo o rumo, a cor,
o aroma, o gosto e acima de tudo,
a dor que se assombra num poema.
 
A sombra dos devaneios

Página

 
Sou fina página a carregar o peso
da estória.
Beirando margens, rasgões se revelam mais que enredos.
Rasuras de capítulos arrependidos
de maus escritos.
Deixo-me ficar, tem dias, solta no vento,
para aplainar os lamentos
e ressaltar sorrisos em resquícios.
Assim, cada verso se fará leve para voar,
sem receio de que vá me rasgar levando pedaços meus.
Em alguma outra paragem me deixará cair,
quem sabe, sobre outra página com dupla face...
 
Página

Oração aos lugares invisíveis

 
 
Ó espírito dos lugares,
aquele que habita a pedra e o vento,
aquele que faz do nada um abrigo
e do silêncio uma morada
escuta esta prece

Que todo deserto revele
sua plenitude,
que toda ausência se converta
em presença,
que todo céu seja chão
para os olhos cansados.

Concede-nos a graça de criar lugares
não com tijolos, mas com respiros;
não com muros, mas com lembranças;
não com mapas, mas com gestos
da alma que toca e consagra
o instante

Que cada coração seja templo,
cada encontro habite um arco
cada despedida seja círculo
de fértil canteiro

Que um lugar seja de revelação
Um milagre do mundo dizendo "aqui"
e a humanidade respondendo
"sou e pertenço"

Ó lugares invisíveis,
sede infinitos em nós.
 
Oração aos lugares invisíveis



É meu corpo que escreve os meus poemas.
Minha alma é a sucursal da minha mão.
As palavras me buscam no silêncio.
Palavras são estrelas que reclamam
o papel branco: céu, constelação.

(Os Poemas - Lêdo Ivo)

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