Carta dobrada dentro de um livro
Entre o silencio de páginas, deixo-te isto:
Admiro a lealdade que a lua tem com a noite,
assim como o sol com o dia.
Eles não disputam presença,
não competem por luz,
não se atropelam nos céus.
Cada um respeita o tempo do outro
com a nobreza dos que
sabem ser inteiros sozinhos.
E, ainda assim, quando se encontram,
o mundo se posiciona para olhar,
não por escândalo, por beleza.
Gostaria que todos os laços fossem assim:
respeitosos como o céu, fiéis ao próprio ciclo,
gentis ao se tocarem e generosos ao se afastarem.
Se um dia nos tornamos sol e lua,
que saibamos iluminar sem queimar
e desaparecer sem ferir.
Com ternura, deixo-te esta luz dobrada entre palavras
gêmeas
É quase sábado,
entre nuvens inchadas
uma estrela
brilha solidão.
Na janela
sem nuvens, pinga
o reflexo.
Sob sol a pino
Preciso de um tempo iluminado
por sol a pino,
em que a sombra não alcance
os pequenos passos da liberdade
Um tempo sem margens,
com sede de tudo,
que corre só porque o corpo quer;
sem fardos
sem metas
sem destino.
Que o mundo permita
apenas a luz e o chão quente
da inocência
Um tempo onde o coração
é tambor de alegria
e o suor tem gosto de
descoberta.
Sangue verde
No chão de cicatrizes o vento varre flores. Sigo rastro de pétalas que não dão afeto pro caminho. Sinto a saudade do vento verde e meus pés desnudos lembram tristes da sombra dos Ipês refrescando o destino
com promessas de raízes e sementes.
Sem destino vou, que meus pés não querem parar. Não enquanto o céu espalhar no ar o canto do sabiá. Sabiá que voa livre, pousando de rama em rama. Terra aonde a seiva escorre doce das mãos do homem que ama.
Amanayara
Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=313396 © Luso-Poemas
Sonata de fim de tarde
Um pássaro quis emoldurar-se pelo sol; lá ficou por alguns segundos a se fazer tatuagem... depois fugiu em queda livre, para se embrenhar em folhagens.
A tocha vermelha, por mais alguns segundos, agarrou-se no céu, até cair sem forças para o abismo de onde nascem os dias. Estremeci ao presenciar o desmaio como se minha alma também tivesse esmaecido... mas não! Fez questão de se manter forte permitindo que o silencio fizesse a revisão do que não foi acolhido para a sisudez do dia.
Lembrei da indumentária que não se perfilou séria como a ocasião exigia e da boca indiscreta revelando mais dentes do que devia, e, para deixar o dia um pouquinho enlouquecido, deixou escapar, sorrateiro pelos cantos, um canto afluente para se derramar como cachoeira.
Preparação de precipício para a noite escolher se irá mergulhar ou levitar e o que ela decidir estarei dentro, seja para acomodar ou vibrar como as cordas de um violino.
Vilarejo
O vilarejo da juventude sonha como quem respira, sem perceber, sem pedir licença.
Ali, tudo parece nascer de um sopro: o cheiro de padaria quente, a poeira dourada que dança no ar, o rumor das manhãs que se abrem como um livro antigo.
Os jovens caminham pelas ruas estreitas com a alma acesa. Carregam nos bolsos pequenas centelhas: um desejo que ainda não tem forma, uma coragem que mal aprenderam a nomear, um brilho que insiste mesmo quando o mundo parece grande demais.
As janelas, sempre entreabertas, deixam escapar murmúrios de futuro.
E cada casa, com suas paredes gastas, guarda um segredo: sabe que aqueles passos inquietos não ficarão ali para sempre, mas, ainda assim acolhe, como quem segura água nas mãos só pelo prazer de sentir o frescor.
As tardes chegam com uma luz que parece inventada.
Os meninos sobem nos telhados para ver o horizonte, não porque esperam algo, mas porque pressentem e as meninas trançam histórias no vento, e o vento, vaidoso, leva cada palavra para longe, como se quisesse espalhar aquele sonho pelo mundo inteiro.
No vilarejo, até o silêncio tem música.
É um silêncio que pulsa, que promete, que guarda o instante antes do voo.
E a juventude, inquieta e luminosa, cresce dentro dele como uma chama que não se apaga.
Porque ali, naquele pequeno lugar que cabe na palma da memória, o sonho não é fuga, é raiz.
E cada jovem, ao partir, leva consigo um pedaço de céu que aprendeu a inventar.
Caminhos não prescritos
A lembrança chegou tão sutil quanto
o sol filtrando entre as folhas.
Tão profunda quanto a ausência que nunca
deixou de ser presença, chegou quase como
um sussurro do tempo, reavivando um
caminho
de curvas e chão amarelo.
Uma pintura feita somente para nós...
As cercas brancas agora revelam-se molduras
intactas da memória. Cercam não a terra,
mas os afetos.
Ele dizia pouco com os lábios, mas o olhar, sob
a sombra do chapéu falava sobre abraços,
água fresca e sorrisos sem fronteiras. Seu
passo lento ensinava: não se corre por entre
coisas eternas, porque ali, entre o pó e o suor
o mundo não tinha pressa; o vento respeitava
o silêncio e os pássaros fatiavam o ar sem murmúrios...
Os cantos poderiam espantar a
delicadeza do instante.
Este lugar ainda existe dentro de mim, onde
o tempo é feito de saudade boa e os avôs
nunca partem por completo.